terça-feira, 14 de março de 2017

A corda

Imagine-se sob um solo rochoso, quase liso não fosse algumas ranhuras naturais da erosão e por algumas pequenas pedrinhas espalhadas. À sua frente um despenhadeiro cujo fim uma névoa azul escura, a qual cobre todo o lugar, impede-te ver. Estás parado há alguma distância desse precipício, porém, desde a extremidade de cada perna individualmente, até os braços, perpassando todo o corpo, uma robusta corda está inteiramente enrolada a ti, nessa extremidade. Na outra extremidade dessa corda está o teu bem mais precioso, a pessoa mais amada, o sentimento mais forte e verdadeiro que tens para além da própria consciência. Na extremidade oposta da corda está, talvez, a única razão pela qual valha a pena lutar com todas as forças - e é isso que estás fazendo nesse exato momento. 
Não consegues vislumbrar a pessoa amarrada na outra extremidade por que ela caiu no penhasco e tu estás concentrando todas as tuas forças para segurá-la, para trazê-la de volta à superfície. No começo o esforço é pouco incômodo, o peso não é tanto. Mas com o passar do tempo - e esse tempo existe num universo relativo onde segundos podem ser horas, horas podem ser dias e dias anos... - a corda começa a ficar cada vez mais pesada, as mãos que com tanta força seguram-na, começam a doer. Mas não importa, na outra extremidade a principal razão da tua existência. A dor da corda não é nada; mais fortemente tu a puxas. Mas o peso aumenta. Tu sentes a corda cedendo aos poucos e tu luta para reverter, concentrando toda força que tens e cada músculo, cada centímetro do teu ser para agarrar a corda e puxá-la de volta à superfície. A tensão é tamanha que tu sentes as queimaduras da corda, sentes ela apertando teus braços e tuas mãos até a pele se esfacelar e tornar-se em carne pura; sente a pressão da corda apertando teu peito e comprimindo tuas costelas. Sentes os ossos das mãos e dos braços estalando, quebrando um a um em múltiplos lugares. Não bastasse a pele dilacerada, toda essa dor te faz querer gritar e pular despenhadeiro abaixo para uma morte calculada. Mas não. O grande amor da tua vida está do outro lado, caindo, e toda essa dor pessoal não importa. Tu cala cada grito de dor e desespero. Enquanto houver um músculo, um tendão que suporte, tu te manténs ali, firme. De repente, no entanto, tu percebe que todo esse esforço sobre-humano não está surtindo efeito porque, na outra extremidade, tudo o que tu mais ama está se agarrando às paredes do penhasco e se concentrando em cair dali. Vês que nela a corda também fez pequenas marcas, alguma vermelhidão nada mais, por conta do contra esforço que ela faz. Então é como se toda as tuas forças te fossem roubadas. Não importante o quanto tu lute, não importa que dês tua vida para salvá-la, ela não quer isso. Não dependente mais de ti. Com os ossos esfarelados, a pele destruída, tu fazes a coisa ainda mais dolorosa que poderia fazer: abre as mãos e deixa a corda correr para o fundo daquele buraco. Conforme a corda se vai, ela vai se soltando do teu corpo provocando queimaduras, cortes e cicatrizes por toda parte. Isso dói mais, talvez, que todo o esforço já feito. Dói por que abrir mão dói.
A do esforço, os ossos partidos, os músculos atrofiados, toda essa dor ignorada vêm à flor da pele. Gritar desesperadamente não adianta. Essa dor sobre-humana de uma esforço igualmente homérico não vai passar, não agora. Ossos levam muito tempo para soldarem novamente. Alguns nunca mais serão como antes. Os músculos e a pele também precisam de tempo para se recompor. Talvez, nesse nosso contexto além tempo e realidade, a pele seja a primeira a se regenerar, não sem guardar algumas cicatrizes. Abaixo dela os músculos e tendões, os ossos talvez, mesmo depois de recuperados, guardem a memória disso tudo. É lento. É doloroso. Mas a dor é tua e só tua. Ninguém a pode ver ou quer ver. Não tem médico nem remédio. Só tem o tempo e a tua capacidade de refletir, de ser resiliente. Quando o primeiro choque passa um pouco, tu te ergues sobre os pés novamente. Olha ao redor e te vês completamente só em meio ao nada. O que estava do outro lado da corda se foi pra sempre. A corda também se foi, mas deixou todas as marcas e toda a dor. Deformado de toda essa dedicação de amor e força, tu sai a vagar. És como que invisível. Todos te ignoram. Com feridas além do que os olhos podem ver, abaixo da pele, tu segues, só e com a certeza de que é tudo o que resta. Teu Norte se foi. Agora tens de encontrar outra razão pra viver, outro motivo para lutar. É claro que a pessoa na extremidade da corda poderia, ao invés de tudo isso, ter te desamarrado e se desamarrado, ou buscado contigo livrarem-se dessas amarras e construir algo mais nobre e eterno, mas ela preferiu te obrigar a fazer isso: ela preferiu te obrigar a soltar por que ela não conseguia. E a dor disso também arruína. Enquanto o tempo trabalha, a pele se regenera, mas abaixo dela nada mais será como antes. E sempre haverão as cicatrizes.


"Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre sempre acaba"




"Quero é te ver
Dando volta no mundo indo atrás de você, sabe o quê
E rezando pra um dia você se encontrar e perceber
Que o que falta em você sou eu
Deixa pra lá
Que de nada adianta esse papo de agora não dá
Que eu te quero é agora e não posso e nem vou te esperar
Que esse lance de um tempo nunca funcionou pra nós dois..."

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