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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Resenha do livro "A Cabana", de William P. Young.

Young, W. P. A Cabana. Rio de Janeiro, Sextante, 2008. 236 p. 01ª ed. Tradução: Alves Calado.
A Cabana conta a história de Mackenzie Allen Phillips, que durante muito tempo viveu imerso em um mar de dor e sofrimento ocasionado pelo sequestro e morte de Melissa, sua filha mais nova. Mack, qual também é denominado, nunca foi um beato e, desde a perda de Missy, forma carinhosa pela qual chamavam a Melissa, sua relação com o Celestial deteriorou. Transcorrido algum tempo desde o nefasto ocorrido, em uma manhã gelada de inverno, Mack recebe um misterioso bilhete até então supostamente escrito por Deus, convidando-o a volver a cena do homicídio de Melissa, uma cabana vetusta e de dificílimo acesso à cidade de Joseph. A vida de Mackenzie Allen Phillips nunca mais seria a mesma após retornar ao palco de sua recordação mais dantesca e pesarosa...

Willie, um amigo de Mack é quem narra à história, sendo seu foco, portanto, relatar o que se passou com seu amigo durante sua estada à cabana. Este livro está dividido em prefácio, dezoito capítulos, um posfácio, uma parte dedicada aos agradecimentos do autor. Cada capítulo possui sob o título uma citação de autores distintos.

Mackenzie Allen Phillips teve uma infância muito difícil, seu pai era alcoólatra, agredia a esposa e a ele com assiduidade. Aos treze anos Mackenzie fugiu de casa, e desde então nunca mais reviu nem seu pai nem sua mãe. Passou por muitas dificuldades, até que casou-se com Nan, com quem teve cinco filhos: Jon, Tyler, Josh, Katherine (Kate) e Melissa.

Mack decide por fazer um passeio de férias com Missy, Kate e Josh, eles vão até uma Reserva na cidade de Joseph. Mack estava se preparando para seguir viagem quando a canoa em que Kate e Josh faziam um passeio, – cedida por seus novos amigos do camping – vira e Josh não consegue emergir, Mack sai em disparada para salvar a Josh e também a Kate – embora esta tenha conseguido emergir -, deixando Missy sozinha perto do trailer. Quando retornam não encontram a Missy, e assim, dá-se inicio a uma procura pela menina. A melhor pista que conseguem é que uma criança trajando semelhante à Melissa fora levada em um jipe verde por um homem desconhecido.

 As autoridades encontram na cena do crime um broche de joaninha com detalhes específicos que o FBI após examinar percebe ser a assinatura do Matador de Meninas, um misterioso assassino do qual nada se sabia, exceto essa peculiar assinatura. Qual supracitado, algum tempo depois se descobre uma velha cabana, onde encontram o vestido que a menina trajava e uma poça de sangue...

Os anos passam e, em uma fria manhã de inverno, sozinho na residência de sua família, Mackenzie decide sair à rua e conferir sua caixa de correspondências - nevara a noite toda e ainda o sucedia -, o gelo cobria todo caminho, deixando-o escorregadio, com muita dificuldade Mack chega até a o portão, quando retira a correspondência, surpreende-se com um bilhete singelo no qual o signatário “Papai” o convidava a retornar à cabana. Pensando ser uma brincadeira de mau gosto, ele retorna a casa, porém, no trajeto de volta ele escorrega e fere-se. Já em sua sala-de-estar, ele resolve checar se o tal bilhete era uma brincadeira de seu carteiro, mas, para sua surpresa, o tal sequer conseguira chegar à sua rua, dada as condições do trajeto ocasionadas pela nevasca.

Mack decide não falar nada para sua família por tratar-se de um assunto doloroso. Não obstante, colhendo do ensejo de uma viajem que Nan faria com as crianças para a casa de sua irmã, Mackenzie dirime por ir à cabana. Pede a seu amigo Willie o jipe emprestado, este preocupado com o amigo cede-lhe inclusive uma arma para no caso de ser o assassino, Mackenzie poder se defender.

Depois de chegar à cabana e encontrar com a Santíssima Trindade personificada de uma forma muito peculiar pelo autor, Mack passa por um processo de aproximação de Deus. Aos poucos Mackenzie vai aceitando e aprendendo a lidar com a tragédia que abalou não apenas a sua vida, mas a de sua família toda. Papai era na verdade, uma forma afetuosa pela qual Nan chamava a Deus.

Durante sua estada, Allen trava muitos diálogos cujos temas envolvem religião, fé, e claro, a perda de sua filha. Nosso protagonista aprende a perdoar e, no decorrer do tempo vai se distanciando de seu pesar. Perto do fim de sua estada na cabana com a Santíssima Trindade, Deus resolve levá-lo para um passeio – a esta altura Mackenzie já havia passado por inúmeras experiências e mudado muito – essa excursão seria a parte final, por assim dizer, de sua jornada na cabana, Papai mostra a Mack onde estava o corpo de Missy e, juntos, transladam-no de volta a choupana. Ao chegarem, Jesus havia preparado um esquife de madeira para depositarem os restos de Melissa e, no jardim que Sarayu (nome dado pelo autor ao Espírito Santo) havia limpado uma área, foi inumada a criança.

Quando Mack retonava à sua residência, sofre um acidente de carro e passa dias internado em estado grave em um hospital. Para surpresa de nosso protagonista, ele nunca chegara à cabana... Na sua jornada rumo ao tugúrio um carro cruza o sinal vermelho colidindo com o seu jipe, ele passa três dias internado em estado de profundo coma. Mas, após se recuperar, junto com a polícia de Joseph, ele vai até o local onde estivera com Deus – ao menos em sonho - para resgatar o corpo de Melissa e, para assombro de todos, lá estava! Algum tempo depois, a polícia através das pistas encontradas no local onde o corpo de Missy foi esconso pelo Matador de Meninas, pode efetuar a prisão deste. Mackenzie depôs no julgamento do mesmo e explanou como encontrou o local, por mais inacreditável, comovente e surpreendente que fosse.

Embora este livro demonstre-se surreal, puramente fictício, e, em alguns momentos passar a impressão de que autor é um alienado, a ideia por detrás da narrativa é interessante e, a própria história chega a ser comovente.  Devo admitir que, achei algumas coisas um pouco difíceis de deglutir, mas muitas das ideias que Young insere nas práticas entre a Santíssima Trindade e Mackenzie vai ao encontro de minha visão acerca de fé e religião. Muito mais importante que seguirmos uma religião, é termos fé e confiança em Deus e seus desígnios. De nada adianta sermos excessivamente devotos a uma religião, se não o fazemos de coração. Não existe uma religião boa ou má, desde que sua crença seja em Deus na sua plenitude e ela lhe trouxer paz, então ela é boa. Deus é um só, não importa o credo, se espírita, católico, protestante, budista ou judeu. Nenhum ser humano detém a verdade, somos falhos e insignificantes ante a magnificência do Divino. A forma que William retratou a Santíssima Trindade foge dos padrões tradicionais, porquanto supracitei que em alguns momentos o autor parece ser um alienado e tudo mais, porém de certo modo compreendo esta escolha: ele visa quebrar essa imagem convencional que temos, mostrando que o Celestial está acima de todos os nossos conceitos prévios e circunscritos. Ou como ele próprio diz “nada é um ritual”. Deus que é infinito vê, pensa e age de uma forma muito além do que nós, seres humanos limitados somos capazes de compreender.

Por mais que esta história possa parecer surrealista, e por mais complexa que seja a forma qual o literato visa expressar e levar ao público a sua ideia, eu recomendo esta obra a todas as pessoas que têm ou que buscam uma ideia de fé livre de certos dogmas e convenções que discriminam e que julgam. Liberdade não é sinônimo de libertinagem. O que o autor tenta oferecer é uma visão mais ampla da fé, dentro dos princípios bíblicos, é claro. É um livro iconoclasta quando comprado a nossas convenções sobre a face da fé. Trata-se de um escrito dirigido a um publico mais maturo por que exige bastante reflexão. É um texto a ser debatido, pois qual disse, possui algumas coisas difíceis de deglutir e, além do mais, cada um de nós vê as coisas apenas sob uma óptica, sob sua orientação religiosa.

William P. Young nasceu em Alberta, no Canadá em 11 de maio de 1955, mas passou grande parte de sua infância em Papua, Nova Guiné, junto com seus pais missionários, em uma comunidade tribal. Pagou seus estudos religiosos trabalhando como DJ, salva-vidas e em diversos outros empregos temporários. Formou-se em Religião em Oregon, nos Estados Unidos. 

Farias, M. S. "Resenha do livro 'A Cabana', de William P. Young". Outubro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima. 

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Permissões além do escopo dessa licença podem estar disponível em discente.farias@gmail.com.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Resumo interpretativo de "O Cavaleiro Preso na Armadura", de Robert Fisher.

FISHER, Robert, (1922). O Cavaleiro Preso na Armadura: Uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. 13ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2010. 110 p. Tradução: Luiz Paulo Guanabara.
O livro conta a história de um cavaleiro que acaba ficando preso dentro de sua armadura, e se distanciando da família e dos amigos. Com o passar do tempo, tornou-se obstinado pelo trabalho de salvar donzelas indefesas de dragões malvados; para ele a única coisa que importava era o trabalho, para poder manter o seu castelo e sua família sempre abastados.

Um dia, sua mulher Juliet, reclama que ele está se tornando um ser ausente em sua família, que o filho Christopher tem como única imagem do pai um retrato na parede. Com isso ordena-lhe que opte entre tirar de uma vez por todas a armadura ou perder sua família, pois ela partiria com o filho para a casa de parentes.

O cavaleiro obviamente escolhe a família, mas para assombro seu não consegue livrar-se da armadura. Recorre ao ferreiro do reino, a quem pisa acidentalmente o pé, este irritado desfere-lhe uma marretada em direção a amadura, mas nem mesmo isso foi capaz de ferir o cavaleiro ou mesmo desmanchar a armadura de aço, que sequer arranhou-se.

Desesperado, a nossa personagem recorre à ajuda do mago Merlin, que vive num bosque distante. Merlin o resolve ajudar. Depois de ter suas forças reestabelecidas pela ajuda do mago, de Esquilo e Rebecca, o cavaleiro pergunta a Merlin como se livrar da armadura de aço em que se encontrava preso, o mago então diz que só há um meio: percorrer a Trilha da Verdade, um caminho árduo e cheio de desafios pessoais.

Durante a trajetória, o cavaleiro tem de passar por três castelos: o do Silêncio, do Conhecimento e por fim o Castelo da Vontade e da Ousadia.

Em cada um desses castelos ele vai refletindo cada vez mais sobre sua vida e permitindo que seus sentimentos fluam. Á medida que vai se autoconhecendo e tornando-se mais afetuoso, sua armadura vai se desmanchando. Ao final do livro, nosso personagem aprende uma valiosa lição: de que o bem maior que ele poderia ter não são os bens materiais, mas sim sua família, seus amigos, e o amor próprio. De que não se deve apegar a coisas superficiais.

Ao final, descobrimos que o tal cavaleiro não era uma pessoa presa na armadura de aço lustroso, mas sim um sentimento: o amor.

O livro é realmente espetacular, Fisher encontrou um meio muito criativo, descontraído e gostoso de ensinar uma valiosa lição. O texto desta fábula é puramente filosófico – uma filosofia de vida.

Ao longo de nossa vida vamos blindando-nos dentro de uma armadura, censurando nossos sentimentos, e nos tornando cada vez mais obstinados pelo nosso serviço. Ferimos àqueles que nos cercam sem nem ao menos perceber, tornamo-nos insípidos, esquecemo-nos de viver. Fugimos a trilha da verdade e da justiça, procurando caminhos mais fáceis e agradáveis de percorrer, porém, esses caminhos levam-nos a um abismo sem fundo, do qual raramente conseguimos fugir – o abismo da solidão. Enquanto que, o caminho da verdade e da justiça nos leva ao topo de uma montanha de felicidade, fé, amor e prosperidade verdadeira.

Estamos tão preocupados com o que os outros pensam de nós, que acabamos nos tornando homens de lata, frios e calculistas, preocupados apenas com a imagem. Deixamos de nos preocupar com o que pensamos de nós próprios.

Este livro é uma eminente obra da literatura, que sem dúvida ensina uma lição preciosa não somente aos jovens, como também a adultos, que vivem na frieza do capitalismo, inertes aos sentimentos, presos aos compromissos e responsabilidades do mundo coetâneo.

Pessoas estas que muitas vezes esquecem seu verdadeiro eu. Que suprimem o amor e acabam como nosso cavaleiro, pesos em uma armadura de aço, intransponível.

Esse tipo de pessoa perde a vontade e a ousadia de lutar pelo que deseja, se deixa levar pelo pensamento alheio, tem medo de enfrentar a si próprio e a outras pessoas, passa a ser subserviente.
O livro nos mostra que devemos de encarar nossos medos e temores, que devemos refletir sobre o que realmente nos importa, sobre nossas reais prioridades. E que é sumamente importante termos autoconhecimento.

Mostra ainda, que embora seja importante ficarmos sozinhos para podermos nos encontrar, também é importante convivermos com as demais pessoas e compartilharmos nossos conhecimentos e nossos sentimentos, que não devemos nos blindar, nem nos tornar indiferentes a tudo e a todos. O importante é que fiquemos em sintonia com o universo e com nós mesmos, pois o bem maior é a vida.

Recomendo a todos que leiam a este fabuloso livro.

Farias, M. S. "Resumo interpretativo de "O Cavaleiro Preso na Armadura", de Robert Fisher". Setembro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br
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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Resenha do livro "A Menina que roubava livros", de Markus Zusak.

Zusak, M. A menina que roubava livros. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2008. 382 p. -- ed.


Markus Zusak encontrou um meio de escrever um romance ímpar que retrata com muita lucidez os horrores do período Hitleriano, da própria Segunda Guerra Mundial. Uma jovem durante o período da Alemanha nazista lutando intimamente para defender seus princípios, por não se deixar manipular pelo tétrico ideal de Hitler, ao passo que ela amadurece e aflora para o primeiro amor, um sentimento platônico. Zusak ainda chama a atenção para algo muito importante: o poder das palavras, a influência delas sobre o ser humano; o que elas conseguiam – e ainda hoje o logram - levar as pessoas a crer e a fazer.

O livro é uma narrativa da Morte, seu foco é a vida de Liesel e o que a ela for relacionado. Organiza-se em dez partes, cada qual com cerca de quarenta páginas, mais o prólogo onde a narradora apresenta a ela mesma e a nossa protagonista e ainda um epílogo falando sobre a morte de Liesel e o destino de alguns dos personagens secundários. Posteriormente há uma parte dedicada aos agradecimentos do autor e um trecho falando sobre ele.

Nossa narradora mostra-se muito diferente do juízo que lhe fazemos. Em partes do livro ela busca dialogar com o leitor, mostrando que apesar de não ser humana, tem de certa forma sentimentos. Empós apresentar-se ela explica o porquê de seu interesse em Liesel: “O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando [...]. É a história de um desses sobreviventes perpétuos – uma especialista em ser deixada para trás.”. Ao final do livro ela reafirma algo que deixa bem claro durante a história: “Os seres humanos me assombram”...

“A menina que roubava livros” conta a história de uma menina de nome Liesel Meminger que, durante uma viagem de trem com destino a cidade alemã de Molching, ao despertar encontra o seu irmão que viajava a seu lado, morto. No trajeto é feita uma parada para inumar o menino, e, é no cemitério onde nossa protagonista faz o primeiro de seus roubos: um dos coveiros, incauto, deixa cair à neve um livro intitulado “Manual do Coveiro”. Em chegando a cidade de destino, Liesel descobre que seria entregue a uma família adotiva; reluta muito em partir dos braços da mãe consanguínea, mas acaba cedendo. Nossa protagonista passa a viver com Hans e Rosa Hubermann, sua nova parentela. A partir de então, Liesel ao decorrer da história, recebe letramento, faz amizades e, passa a roubar livros da biblioteca da mulher do prefeito, Ilsa Hermann (com certo consentimento da proprietária). Ao lado de seu amigo Rudy, ela constrói uma amizade solidária e uma cumplicidade nos furtos, além de um amor castiço e terno...

Ao fim do livro, a cidade de Molching é bombardeada pelas forças Aliadas e, não em tempo as sirenes de alerta foram acionadas. Foi uma chacina. Liesel foi, quiçá, a única sobrevivente da Rua Himmel. Ela passara as noites no porão da humilde casa de número 33, escrevendo em seu livro – um diário que lhe fora presenteado por Ilsa Hermann alguns dias antes. Ora novamente órfã Liesel é adotada por Ilsa Hermann e seu marido. Ilsa perdera o único filho alguns anos antes - o rapaz lutava na guerra. Liesel Meminger cresce, vai morar em Sydney, constitui família e morre em idade avançada.

Esta obra literária, devo admitir, aprazou a este que vos escreve. A ideia de Markus Zusak ao grafar um romance cujo cenário é a Alemanha nazista, retratando os horrores desse período, é deveras interessante. Uma jovem menina que vê (assim qual uma minoria de outras pessoas alemãs) um absurdo nos ideais de Hitler, mas, por coação, mantém a aparência de nazista, muito embora, durante parte da história os Hubermann e Liesel abriguem secretamente um judeu em seu porão.

O livro mostra o caos que foi a Alemanha nesse período: íncolas alemães passando fome com o racionamento de víveres, o temor de ser considerado um traidor ou mesmo de ser alvo de desconfianças por parte dos membros do partido nazista, a coerção para que todos se alistassem a essa facção e, a perseguição aos que se negavam. O fanatismo de maioria dos alemães, o nacionalismo exagerado, a arrogância... A perseguição aos judeus e a quem não fosse etnicamente alemão. O sofrimento das famílias – não só judias, mas inclusive alemãs como também russas e outras tantas - que perdiam seus parentes nas batalhas; das mães que perderam seus filhos ainda pequenos por conta dos bombardeios; pessoas que foram mutiladas pelo conflito... Atrocidades tamanhas que expõem o lado mãos sombrio, perverso e dantesco da natureza humana, capaz de apavorar até mesmo a singular narradora (“os seres humanos me assombram”).

A estruturação desse livro é um pouco diferente do que as dos títulos que já li. A principio foi curioso, até mesmo um pouco “estranho”, mas ao decorrer do livro torna-se conveniente e agradável.
Esta obra possui sem dúvida valor pedagógico; como sempre indigitando o mérito da Literatura qual instrumento de granjear conhecimentos vários. Trata-se de um texto mais indicado, talvez, a alunos a partir do segundo ano do Ensino Médio, dada a qualidade do escrito.

Markus Frank Zusak nasceu em Sydney em 23 de junho de 1975, é famoso pelo seu Best-seller internacional “A menina que roubava livros”, também é autor de “Fighting Ruben Wolf”, “Getting the Girl”, “Eu sou o mensageiro”, dentre outros, todos recebidos com críticas resplandecentes às revistas Publishers Weekly, School Library Journal, KLIATT, The Bulletin e Booklist. Recebeu o Prêmio Livro do Ano para Leitores Mais Velhos, concedido pelo Conselho Australiano de Livros Infantis.

Farias, M.S. "Resenha de 'A menina que roubava livros', de Markus Zusak". Junho de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Resenha do livro "Papisa Joana", de Donna W. Cross.

Cross, Donna Woolfolk. Papisa Joana. São Paulo, Geração Editorial, 2011. 491 p. 3ª ed. Tradução de Paulo Schmidt.

Em uma época onde o pensamento lógico era tido como ilógico e a fé como única fonte certa de sabedoria; onde a palavra mesmo que exata de cientistas, filósofos e pensadores pagãos era tida por diabólica e inválida e, a mulher tratada como um ser sem alma, destinada a passar vida tratada como um trapo, ou como uma criança sem controle sobre si. Uma era onde a ignorância imperava e apenas o clero tinha direito a educação, ainda que poucos destes fossem letrados. Em plena Idade das Trevas, nasce uma mulher, destinada a ser grande, Joana de Ingelheim, luta contra todos os costumes de sua época; uma erudita mulher que herda o Trono de São Pedro, o mais alto cargo da Igreja Católica, o mais poderoso e antigo de todos os tempos, fonte de disputas políticas. João Ânglico, ou Papa João VIII, como era chamada Joana, mudou não somente a face, mas muitos dos dogmas da Igreja e operou o que podemos chamar de uma revolução do pensamento cristão.

No mesmo dia em que morreu Carlos Magno, em 28 de janeiro de 814, nasce no povoado de Ingelheim, uma criança do sexo feminino, filha de um cônego e uma mulher pagã; seu nome era Joana. Desde muito cedo Joana mostrava ser dotada de um grande intelecto, uma inteligência sem par, que com exceção do perverso cônego, era percebida por seus dois irmãos: Mateus – o mais velho – e João – o do meio. Nossa protagonista consegue que seu irmão Mateus a ensine a escrever e, mais tarde a ler, tudo às esconsas para não serem descobertos pelo colérico pai.

Mateus morre e o cônego, então, ordena que João siga os estudos, embora sendo este burro e incapaz de aprender, ao contrário de Joana que tenta se oferecer para prosseguir no lugar no irmão falecido, mas em resposta recebe uma violenta agressão.

O tempo passa e, em determinado dia um convidado do cônego, um padre grego de nome Asclépio, após descobrir o talento de Joana, decide educá-la. O cônego a principio se opõem inflexivelmente, mas por fim consente sobre a condição do filho João também ser educado. Asclépio reconhece que João não tem talento, mas para poder lecionar à Joana acaba por assentir.

Decorridos dois anos, Asclépio volta à Constantinopla, mas assegura a Joana que dará um jeito para que ela prossiga seus estudos, antes de partir a presenteia com um livro de Homero, o qual ela guarda em segredo. Um dia seu pai a encontra lendo durante a noite, escondida, o tal livro. Cego de cólera acusa Joana de bruxaria. Quando desfeito o mal entendido, como punição ele a faz apagar todo o livro para reutilizar o pergaminho, mas ela se recusa é açoitada terrivelmente. O cônego quase a mata.

Depois de certo tempo, surgem emissários do bispo de Dorstadt, convocando Joana para estudar na escola da catedral. O cônego diz tratar-se de um engano de escrita e, ao invés de Johanna, ser Johannes, seu filho. Joana foge na calada da noite e vai estudar em Dorstadt.

Durante o tempo que lá permaneceu ficou alojada à casa do conde Gerold e sua família. Joana passa por incontáveis humilhações na escola. E, um dia, Richeld, mulher de Gerold, enciumada pelo afeto de ambos, decide casá-la a força, obrigando-a a parar com os estudos. No dia do casamento, a igreja é atacada por nórdicos, e a população da cidade chacinada. Joana sobrevive, decide então passar-se pelo irmão morto – João – e, ir para o monastério de Fulda. Gerold estava numa campanha do imperador, longe de Dorstadt.

Passam os anos e Joana, agora João Ânglico, torna-se um monge notável, um excelente médico. Joana aproveitou sua nova identidade sem as privações de outrora e expande seus conhecimentos, tornando-se uma célebre erudita. Um dia, recebe a notícia que seu pai a estava esperando – viera visitá-la, ou melhor, a João. Ela reluta, mas caba indo encontrar o pai. Disfarçando a voz e embuçando-se, ela dialoga com ele, reporta o acontecido e recebe o relato da morte trágica de sua mãe ao dar a luz. O cônego exora que ela interceda por ele junto ao Rabino de Fulda para que ele vá à missão de converter fiéis à saxônia; ao agarrar-se nela para implorar, ambos caem no chão e ele vê que João é na verdade Joana. Praguejando-a, ele dirige-se à porta para relatar o fato. Seria o fim de Joana se fosse descoberta. Um magote de monges se reúne ao pátio, mas quando o cônego tenta falar, morre vítima de um enfarto.

Joana a certa altura é acometida de uma peste, cujo tratamento no monastério de Fulda exigia que ela fosse despida e coberta por um lençol encharcado de água. Para fugir ao tratamento e não ser descoberta, Joana foge num barco, no qual, após entrar acaba desmaiando. Acorda em uma casa, despida das vestes de sacerdote e trajada como mulher. Apavora-se. Para sua sorte, estava na casa de Arn, a cuja família ela ajudara no passado, como monge. Ele e a família prometem guardar segredo, e ajudam Joana, novamente trajada de João, a fugir para Roma. Antes de partir, entrega à filha de Arn, Arnalda, um medalhão de madeira, feito por seu irmão Mateus, com a imagem de Santa Catarina e, pede para que a menina receba instrução.

Em Roma, João Ânglico se destaca pelas habilidades médicas e, é chamado para tratar do Papa Sérgio II. Joana permanece como médica da Casa Papal até a ascensão de Leão IV ao Trono de São Pedro. A essa altura já havia reencontrado a Gerold e, sido elevada ao cargo de nomenclator da Casa Papal.

Após a morte de Leão IV, Joana que já era muito popular entre os fiéis, é aclamada Papa. Passa por inúmeros conflitos de ordem política com os demais bispos e seu arquirrival, o terrível bispo Arsênio, cujo interesse era assumir o Trono Papal a qualquer custo.

Joana causa muita polêmica entre o clero ao criar uma escola para meninas e, ao interagir diretamente com a população romana, inclusive pelo fato de agir sempre de maneira lógica, racional, deixando de lado os dogmas da Igreja.

Joana acaba por engravidar de Gerold, que ao saber da notícia pede que ela fuja com ele, para viverem como pessoas normais, longe de Roma, afinal, ninguém sabia que o Papa João VIII era na verdade Joana de Ingelheim.

Ela pede que ele aguarde até o fim da Páscoa.

Arsênio, de volta a cidade sob proteção do imperador Lotário, trama a queda de Joana e, a toma do Trono Papal pelo emprego da força e a proteção de Lotário.

Durante uma procissão, um grupo de arruaceiros, em meio à multidão que ovacionava Joana, começou a atirar pedras no cavalo da papisa, Gerold sai em captura deles, mas é pego numa emboscada por vários homens. Ele luta com garra, mas acaba sendo morto. Joana percebe o ocorrido.  Sentindo fortes dores, ele apeia, e se dirige ao local onde jazia o corpo inerte de Gerold; ela tenta salvá-lo, mas já era tarde. Arruma o cadáver para que seja transladado à igreja para ter um enterro digno.

Joana, de repende, sente dores ainda mais fortes, tonteia e cai no chão. A multidão se alvoroça e os guardas têm de intervir. Joana percebe que estava a conceber quando sente uma poça de sangue sob ela. Alguns padres gritam que o Papa estava possuído. Mas quando veem uma criança emergir, percebem que o papa era uma mulher. Joana no parto, assim qual a criança, acaba por morrer.

Seu papado foi anulado. Arsênio tomou o trono de São Pedro com apoio do imperador, mas não conseguiu reinar. Uma revolta popular se instaurou, Lotário percebendo que também perderia sua popularidade ao apoiar o antipapa Arsênio, retira sua proteção. Ele é destituído e Bento II eleito papa.

Muitos anos depois, na casa dos oitenta anos, Arsênio encontra um jeito de se vingar de sua maior inimiga: Joana. Ele escreve o Liber pontificalis, uma crônica de todos os papas, todos, exceto Joana.

O bispo Arnaldo da catedral de Paris fica encantado e pede para duplicar o livro e, o faz pessoalmente. A cópia ficou perfeitamente fidedigna, exceto por uma coisa: Arnaldo adicionou o papado de Joana. O que o motivou? Um sentimento de débito, talvez. Já que bispo Arnaldo era, na verdade, Arnalda, filha de Arn, a quem Joana ajudara. A cópia foi arquivada na biblioteca da catedral, na esperança de alguém, algum dia, o encontre e descubra toda a verdade sobre a existência de uma Papisa.

Se Joana realmente existiu, não se sabe ao certo. Nada relativo ao século IX é preciso, haja vista que muita coisa era manipulada, extraviada. Segundo Donna, há provas de que Joana existiu, dentre elas muitos costumes que foram alterados com relação ao pontificado depois de 855, quando Joana morreu, o argumento mais forte sobre sua existência, seja talvez, uma nota escrita em 1486, pelo bispo de Horta João Buckardt, em seu diário na qual diz:

Tanto na ida quanto na volta, [o papa] passou pelo Coliseu e por aquela rua reta onde [...] João Ânglico deu à luz uma criança [...] Por essa razão [...] os papas, em suas cavalgadas, nunca passam por essa rua; o papa foi destarte censurado pelo arcebispo de Florença, pelo bispo de Massano, e por Hugo de Bencii, o subdiácono apostólico [...] (parte da nota da autora, extraído do próprio livro, página 487).

Papisa Joana é um romance encantador, a história de uma mulher forte, destemida, metódica, pragmática, erudita que lutou contra toda uma sociedade e contra si mesma em busca de realizar o seu grande sonho. Recomendo esta obra a todas as pessoas que apreciam uma boa literatura, que encanta, fascina, faz com que o leitor mergulhe na história, ou seja, que envolve.

Donna Woolfolk Cross recebeu seu diploma de bacharel em Inglês pela Universidade da Pensilvânia em 1969. Ela trabalhou como assistente editorial em Londres, na Inglaterra, para a empresa de publicação WH Allen and Company. Voltou aos Estados Unidos, onde trabalhou para a empresa Young & Rubicam, também de publicação. Retomou os estudos e graduou-se como mestre em Literatura, em 1972. Mais tarde Donna tornou-se escritora em tempo integral e já publicou em torno de quatro livros de não-ficção e um romance. 

        Farias, M. S. “Resenha do livro 'Papisa Joana', de Donna W. Cross”. Janeiro de 2012. www.livredialogo.blogspot.com 
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Resenha do livro "O Homem que Calculava", de Malba Tahan.

Tahan, M. O Homem que Calculava. Rio de Janeiro, Record, 2010. 300 p. 79° ed.

O Homem que Calculava é a alcunha atribuída ao protagonista deste romance infanto-juvenil, Beremiz Samir. Dotado de uma impressionante habilidade matemática - e, porque não dizer, também filosófica -, Beremiz mostra que a matemática apresenta-se de uma forma bastante divertida e variada no cotidiano das pessoas, elucidando os mais variados enigmas matemáticos – de simples cálculos a operações complexas e de pura lógica.

O livro é uma narrativa de Hank Tade-Maiá, personagem secundário que encontra porventura Beremiz no deserto, o leva à Bagdá e o acompanha em sua estada por lá, relatando neste livro as aventuras de seu amigo. Está dividido em trinta e quatro capítulos, com notas de rodapé postas pelo autor e também dos editores explanando o significado de determinadas expressões. Esta edição conta ainda com um glossário e um apêndice.

Logo após encontrar Beremiz e fascinar-se com seu talento matemático e convidá-lo a seguir viagem para Bagdá, Hank e nosso protagonista encontram no caminho um grupo de irmãos que discutem a partilha de uma herança de camelos. Beremiz elucida a divisão de 35 camelos por três irmãos, o que causa admiração e gratidão no grupo.

Samir conta a história de sua vida. Um pastor de ovelhas, humilde que até conhecer Nhô-Elin – seu mestre -, ignorava os eruditos caminhos da matemática. De forma incrível, ele aprende desde a história até as áreas mais complexas da matemática utilizando como molde para seu aprendizado a própria natureza. Contando ovelhas, dia após dia, e com instruções de seu mestre, foi desenvolvendo habilidade de calcular qualquer montante a partir da observação e do emprego da lógica.

De pouco em pouco, passou a contar além de rebanhos inteiros, o número de folhas que possui uma árvore, quer seja em seu total ou por galhos. O número de pássaros que porventura voassem por sob sua cabeça, o número de tâmaras ainda nos galhos das árvores, enfim, cálculos homéricos, que a nós mostram-se tétricos, a Beremiz era entretenimento.

A redação do livro gira basicamente em torno das proezas matemáticas do Homem que Calculava que resolve antigos enigmas matemáticos e histórias, como, por exemplo, o surgimento do xadrez, o “x” da vida, as pérolas do rajá etc. Tem por base os costumes e as tradições árabes, os quais marcam o enredo do romance. Ao final, Beremiz acaba por casar-se com Telassim, filha de Iezid-Abul-Hamid, a quem “conheceu” por ventura de ensinar matemática.

O interessante deste livro, além do romance bem arquitetado em torno de lendas, costumes árabes e problemas matemáticos é a ligação que faz entre as ciências e a vida cotidiana. Com explanações simples, Tahan deu vida a um brilhante protagonista que mostra que a matemática apresenta-se trivialmente, resolvendo e criando problemas matemáticos com uma facilidade que faz com que o leitor passe a ver a álgebra como algo menos complexo do que de costume.

Percebe-se claramente que o objetivo de Malba Tahan ao dar vida a Beremiz era o de mostrar não somente que a matemática, como também, história, geografia, teologia e as demais áreas de estudo encontram-se em cada coisa ao nosso redor. Que a divisão disciplinar feita pelo mestre nas instituições de ensino existe somente ali, pois na natureza elas apresentam-se mescladas, dependentes uma da outra. Evidencia assim o que é tácito: o conhecimento é uma coisa só.

A escolha cultural do personagem não se fez ao acaso, visto que, os árabes, assim como os indianos (citados algumas vezes por Beremiz) possuem grande influência e contribuição na estruturação da matemática, embora esta tenha em sua origem a contribuição de vários povos antigos, como, por exemplo, os egípcios e os gregos.

Malba explora as mais diversas áreas da matemática, convidando ao leitor tentar elucidar questões ali propostas ou mesmo criar enigmas. Embora não tenha por objetivo ensinar lógica, esta é presente constante na trama de forma sutil.

Esta é uma obra atemporal, com valor pedagógico indiscutível, seja para a literatura brasileira ou para a matemática, visto que, trabalha o raciocínio do leitor e ensino da matemática através da ficção, trazendo curiosidades acerca da história e da ciência matemática. Embora destinado a um público jovem, trata-se de uma obra que certamente é aprazível a todos os públicos. Podendo ser assaz trabalhada em sala de aula dependendo do objetivo pedagógico do mestre, indiferentemente da disciplina.

Malba Tahan é o pseudônimo do professor de matemática Júlio César de Mello e Souza, autor de mais de quinze livros sobre os costumes e lendas do povo árabe dentre outros, todos com valor pedagógico. Foi um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil. Nasceu no Rio de Janeiro em 06 de maio de 1895 e faleceu em Recife em 18 de junho de 1974. Graduou-se como engenheiro civil na Escola Politécnica e como professor na Escola Normal. Dentre suas 120 obras, podemos citar: “A Estrela Dos Reis Magos”; “Matemática Divertida e Delirante”; “A Arte de Ler e Contar Histórias” etc.

Farias, M. S. “Resenha do livro O Homem que Calculava.”. Dezembro de 2011. www.livredialogo.blogspot.com 

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