Young,
W. P. A Cabana. Rio de Janeiro,
Sextante, 2008. 236 p. 01ª ed. Tradução: Alves Calado.
A Cabana conta a história de Mackenzie
Allen Phillips, que durante muito tempo viveu imerso em um mar de dor e
sofrimento ocasionado pelo sequestro e morte de Melissa, sua filha mais nova.
Mack, qual também é denominado, nunca foi um beato e, desde a perda de Missy,
forma carinhosa pela qual chamavam a Melissa, sua relação com o Celestial
deteriorou. Transcorrido algum tempo desde o nefasto ocorrido, em uma manhã gelada
de inverno, Mack recebe um misterioso bilhete até então supostamente escrito
por Deus, convidando-o a volver a cena do homicídio de Melissa, uma cabana
vetusta e de dificílimo acesso à cidade de Joseph. A vida de Mackenzie Allen
Phillips nunca mais seria a mesma após retornar ao palco de sua recordação mais
dantesca e pesarosa...
Willie, um amigo de Mack é quem narra à
história, sendo seu foco, portanto, relatar o que se passou com seu amigo
durante sua estada à cabana. Este livro está dividido em prefácio, dezoito
capítulos, um posfácio, uma parte dedicada aos agradecimentos do autor. Cada
capítulo possui sob o título uma citação de autores distintos.
Mackenzie Allen Phillips teve uma
infância muito difícil, seu pai era alcoólatra, agredia a esposa e a ele com
assiduidade. Aos treze anos Mackenzie fugiu de casa, e desde então nunca mais
reviu nem seu pai nem sua mãe. Passou por muitas dificuldades, até que casou-se
com Nan, com quem teve cinco filhos: Jon, Tyler, Josh, Katherine (Kate) e
Melissa.
Mack decide por fazer um passeio de
férias com Missy, Kate e Josh, eles vão até uma Reserva na cidade de Joseph.
Mack estava se preparando para seguir viagem quando a canoa em que Kate e Josh
faziam um passeio, – cedida por seus novos amigos do camping – vira e Josh não
consegue emergir, Mack sai em disparada para salvar a Josh e também a Kate –
embora esta tenha conseguido emergir -, deixando Missy sozinha perto do
trailer. Quando retornam não encontram a Missy, e assim, dá-se inicio a uma
procura pela menina. A melhor pista que conseguem é que uma criança trajando
semelhante à Melissa fora levada em um jipe verde por um homem desconhecido.
As autoridades encontram na cena do crime um
broche de joaninha com detalhes específicos que o FBI após examinar percebe ser
a assinatura do Matador de Meninas, um misterioso assassino do qual nada se
sabia, exceto essa peculiar assinatura. Qual supracitado, algum tempo depois se
descobre uma velha cabana, onde encontram o vestido que a menina trajava e uma
poça de sangue...
Os anos passam e, em uma fria manhã de
inverno, sozinho na residência de sua família, Mackenzie decide sair à rua e
conferir sua caixa de correspondências - nevara a noite toda e ainda o sucedia
-, o gelo cobria todo caminho, deixando-o escorregadio, com muita dificuldade
Mack chega até a o portão, quando retira a correspondência, surpreende-se com
um bilhete singelo no qual o signatário “Papai” o convidava a retornar à cabana.
Pensando ser uma brincadeira de mau gosto, ele retorna a casa, porém, no trajeto
de volta ele escorrega e fere-se. Já em sua sala-de-estar, ele resolve checar
se o tal bilhete era uma brincadeira de seu carteiro, mas, para sua surpresa, o
tal sequer conseguira chegar à sua rua, dada as condições do trajeto
ocasionadas pela nevasca.
Mack decide não falar nada para sua
família por tratar-se de um assunto doloroso. Não obstante, colhendo do ensejo
de uma viajem que Nan faria com as crianças para a casa de sua irmã, Mackenzie
dirime por ir à cabana. Pede a seu amigo Willie o jipe emprestado, este
preocupado com o amigo cede-lhe inclusive uma arma para no caso de ser o
assassino, Mackenzie poder se defender.
Depois de chegar à cabana e encontrar
com a Santíssima Trindade personificada de uma forma muito peculiar pelo autor,
Mack passa por um processo de aproximação de Deus. Aos poucos Mackenzie vai
aceitando e aprendendo a lidar com a tragédia que abalou não apenas a sua vida,
mas a de sua família toda. Papai era na verdade, uma forma afetuosa pela qual
Nan chamava a Deus.
Durante sua estada, Allen trava muitos
diálogos cujos temas envolvem religião, fé, e claro, a perda de sua filha. Nosso
protagonista aprende a perdoar e, no decorrer do tempo vai se distanciando de
seu pesar. Perto do fim de sua estada na cabana com a Santíssima Trindade, Deus
resolve levá-lo para um passeio – a esta altura Mackenzie já havia passado por
inúmeras experiências e mudado muito – essa excursão seria a parte final, por
assim dizer, de sua jornada na cabana, Papai mostra a Mack onde estava o corpo
de Missy e, juntos, transladam-no de volta a choupana. Ao chegarem, Jesus havia
preparado um esquife de madeira para depositarem os restos de Melissa e, no
jardim que Sarayu (nome dado pelo autor ao Espírito Santo) havia limpado uma
área, foi inumada a criança.
Quando Mack retonava à sua residência, sofre
um acidente de carro e passa dias internado em estado grave em um hospital.
Para surpresa de nosso protagonista, ele nunca chegara à cabana... Na sua
jornada rumo ao tugúrio um carro cruza o sinal vermelho colidindo com o seu
jipe, ele passa três dias internado em estado de profundo coma. Mas, após se
recuperar, junto com a polícia de Joseph, ele vai até o local onde estivera com
Deus – ao menos em sonho - para resgatar o corpo de Melissa e, para assombro de
todos, lá estava! Algum tempo depois, a polícia através das pistas encontradas
no local onde o corpo de Missy foi esconso pelo Matador de Meninas, pode
efetuar a prisão deste. Mackenzie depôs no julgamento do mesmo e explanou como
encontrou o local, por mais inacreditável, comovente e surpreendente que fosse.
Embora este livro demonstre-se surreal,
puramente fictício, e, em alguns momentos passar a impressão de que autor é um
alienado, a ideia por detrás da narrativa é interessante e, a própria história
chega a ser comovente. Devo admitir que,
achei algumas coisas um pouco difíceis de deglutir, mas muitas das ideias que
Young insere nas práticas entre a Santíssima Trindade e Mackenzie vai ao
encontro de minha visão acerca de fé e religião. Muito mais importante que seguirmos
uma religião, é termos fé e confiança em Deus e seus desígnios. De nada adianta
sermos excessivamente devotos a uma religião, se não o fazemos de coração. Não
existe uma religião boa ou má, desde que sua crença seja em Deus na sua
plenitude e ela lhe trouxer paz, então ela é boa. Deus é um só, não importa o
credo, se espírita, católico, protestante, budista ou judeu. Nenhum ser humano
detém a verdade, somos falhos e insignificantes ante a magnificência do Divino.
A forma que William retratou a Santíssima Trindade foge dos padrões
tradicionais, porquanto supracitei que em alguns momentos o autor parece ser um
alienado e tudo mais, porém de certo modo compreendo esta escolha: ele visa
quebrar essa imagem convencional que temos, mostrando que o Celestial está
acima de todos os nossos conceitos prévios e circunscritos. Ou como ele próprio
diz “nada é um ritual”. Deus que é
infinito vê, pensa e age de uma forma muito além do que nós, seres humanos
limitados somos capazes de compreender.
Por mais que esta história possa parecer
surrealista, e por mais complexa que seja a forma qual o literato visa
expressar e levar ao público a sua ideia, eu recomendo esta obra a todas as
pessoas que têm ou que buscam uma ideia de fé livre de certos dogmas e
convenções que discriminam e que julgam. Liberdade não é sinônimo de
libertinagem. O que o autor tenta oferecer é uma visão mais ampla da fé, dentro
dos princípios bíblicos, é claro. É um livro iconoclasta quando comprado a
nossas convenções sobre a face da fé. Trata-se de um escrito dirigido a um
publico mais maturo por que exige bastante reflexão. É um texto a ser debatido,
pois qual disse, possui algumas coisas difíceis de deglutir e, além do mais,
cada um de nós vê as coisas apenas sob uma óptica, sob sua orientação religiosa.
William P. Young nasceu em Alberta, no
Canadá em 11 de maio de 1955, mas passou grande parte de sua infância em Papua,
Nova Guiné, junto com seus pais missionários, em uma comunidade tribal. Pagou
seus estudos religiosos trabalhando como DJ, salva-vidas e em diversos outros
empregos temporários. Formou-se em Religião em Oregon, nos Estados Unidos.
Farias, M. S. "Resenha do livro 'A Cabana', de William P. Young". Outubro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima.
Farias, M. S. "Resenha do livro 'A Cabana', de William P. Young". Outubro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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