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sábado, 9 de janeiro de 2016

Ensinar e aprender nunca acabam

Olhando os comentários em algumas páginas com publicações acerca do ENEM, vê-se um sem número de pessoas reclamando não propriamente de seu desempenho, mas da enorme distância entre aquilo que eles viram em sala de aula durante seu Ensino Médio e aquilo que lhes foi cobrado no concurso.
Isso me fez recordar de uma das muitas discussões que minha turma tinha com os professores no último ano do Ensino Médio sobre o ensino. Nós queríamos aulas que nos preparassem para o Exame; eles argumentavam que o ensino não podia destinar-se a um concurso, que isso seria tão somente um treino. E eles estavam cobertos de razão, embora errados.
Explico.
A função do ensino é capacitar, de maneira que, frente a um novo desafio, o sujeito seja capaz de desenvolver as habilidades necessárias para superá-lo. É por isso que, depois de estudar Cálculo durante um ou mais semestres, por exemplo, os acadêmicos são capazes de, no futuro, desenvolverem habilidades em outras áreas como a Estatística ou a Matemática Financeira com maior facilidade, pois possuem capacidade de entendimento maior.
O treino, no entanto, direciona para um único objetivo: fazer incessantemente listas de cálculo, sem se preocupar com os conceitos, por exemplo, pode fazer com que o acadêmico passe em Cálculo porque entendeu o que fazer frente a um modelo ou outro de atividade, mas ele não se apropria disso e logo que a prova passa e o objetivo - aprovar - é consumado, esquece.
Quando eu estava no Ensino Médio, a maioria dos meus professores estava preocupada em fazer-nos aprovar. Ensinavam segundo um curriculum que acreditavam ser capacitador, todavia, esse ensino não acompanhava a realidade. Hoje, um estudante de Administração, eu diria: o Ensino Médio que eu tive foi pouco eficiente e pouco eficaz. A matriz curricular estava muito distante daquilo que eu precisei. Digo isso por que quando efetivamente tive de desenvolver novas habilidades, o ensino que eu tive não me propiciou uma boa base - e eu tive de desenvolvê-la aos poucos.
Felizmente isso não se aplica a todos. Em três anos de Médio eu tive alguns professores memoráveis, instigantes, graças aos quais eu cheguei à Faculdade com um bom domínio de alguns assuntos importantes - meu primeiro semestre que o diga!
Por isso, hoje, frente a tantas frustrações frente ao Exame Nacional do Ensino Médio, eu pergunto: que tipo de ensino capacitador as escolas de segundo grau preocupam-se tanto em defender se suas matrizes curriculares estão simplesmente caducas? Treinar é uma ideia terrível, mas aprisionar intelectos é ainda pior, eu diria. As instituições secundaristas precisam atualizar-se, melhorar o grau de exigência e qualificação de seus alunos. Mas isso só é possível se: (a) os diretores e os coordenadores tiverem visão, e isso requer acompanhar as transformações, tendências e exigências do mundo lá fora, e com isso projetar o ensino necessário à formação de um indivíduo capaz; (b) os professores, igualmente, estiverem em contínua aprendizagem e desenvolvimento - e não parados no tempo, encorados nos conhecimentos de quando colaram grau em 1990 ou em 2000. 
A frustração sobre a qual falei no primeiro parágrafo é fruto desse descompasso cronológico e qualitativo entre as salas de aula e a realidade. Não é normal concluir o Ensino Médio com a sensação de que pouco ou nada se aprendeu, de que não se tem conhecimentos suficientes para, por conta própria, ampliá-los. Não é sinal de qualidade só aprender no Ensino Superior àquilo que é competência da esfera anterior.

Farias, M.S. "Ensinar e aprender nunca acabam". Janeiro de 2016. http://livredialogo.blogspot.com.br/
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima.
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domingo, 3 de agosto de 2014

Errar é fácil. Assumir o erro? Só depois de ter certeza!

Defender falsas verdades é algo que julgo intolerável do momento em diante que tomamos ciência da inveracidade do fato. Ontem eu compartilhei a imagem ao lado, de uma das páginas que sigo no Facebook, com meus amigos e, na ocasião, defendi a resposta 288 para a notação. Minha inferência fundamentava-se na ordem natural de resolução das operações algébricas e no sentido convencional de resolução das expressões numéricas, que é da esquerda para a direita. Momento depois que divulguei a informação, um amigo chamou-me no bate-papo e alertou que meu cálculo estava incorreto. Discutimos por mais de 6 horas sobre a correta interpretação e resolução do problema. A notação 48/2(9+3) é, a princípio, ambígua e permite que seja interpretada como uma fração de 48 sobre 2(9+3), que resultaria em 2, como também pode ser entendida como uma fração de 48 sobre 2, multiplicando (9+3), ou ainda poderia ser escrita - como fizeram muitos usuários nos comentários da publicação original - fazendo-se uma conversão da seguinte forma: 48*(1/2)*12, que geraria uma multiplicação de frações cujo resultado seria, indubitavelmente, 288. No entanto, o resultado correto é 2. Não por que seja um caso óbvio de 48/2*12 => 48/24 = 2. Se fosse isso, não teríamos gasto tantas horas numa discussão que seria irrelevante - mesmo por que, se fosse assim, ainda estaríamos discutindo, uma vez que não há uma propriedade ou regra que justifique resolver a multiplicação primeiro em 48/2*12, depois que o parênteses já fora eliminado, tampouco há qualquer embasamento para a interpretação de que seja uma fração de 48 sobre 2(9+3).
O que há é uma propriedade matemática chamada de "Propriedade Distributiva da Multiplicação em Relação à Adição", segundo a qual "a multiplicação de um número por uma soma é igual a soma dos produtos deste número por cada uma das parcelas". Essa informação não apenas pôs fim à ambiguidade de interpretações, como também eliminou as contradições que havíamos enfrentado em relação aos princípios de resolução das expressões numéricas e das operações algébricas. Desse modo, a resolução da notação 48/2(9+3) é:
x = 48 / (2*9 + 2*3)
x = 48 / (18 + 6)
x = 48 / 24
x = 2

Ninguém gosta de errar, mas não há aprendizagem sem erros e acertos, afinal, aprender é mudar. E assim também fez-se a resolução correta - a calculadora do Google.com, e suponho que assim também proceda o Excell e algumas calculadoras científicas, transforma a notação 48/2(9+3) em (48/2)*(9+3), o que leva corretamente ao resultado 288, mas ao isolar o 48/2 com parênteses, esse software adultera a notação e sua lógica, pois 48/2(9+3) é diferente de (48/2)*(9+3); inclusive a Casio e a Texas possuem duas linhas de calculadoras, cada qual, que apresentam resultados diferentes para esse mesmo problema, veja as imagens abaixo. 


























Farias, M.S.



Referências:

∟http://www.matematicadidatica.com.br/PropriedadesAdicaoMultiplicacaoReal.aspx
∟http://www.profcardy.com/cardicas/ordem-das-operacoes-aritmeticas-e-algebricas.php
∟http://universodasexatas.blogspot.com.br/2013/02/qual-resolver-primeiro-multiplicacao.html
∟http://pt.slideshare.net/netlopes1/48293
∟http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_de_operações
∟http://knowyourmeme.com/memes/48293
∟https://answers.yahoo.com/question/index?qid=20110412090801AAcW8wq
∟http://www.calculobasico.com.br/como-se-resolve-uma-expressao-numerica/

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Bauhaus

“A rigor, não há muita diferença entre o artesão e o artista”.

Com esse aforismo se poderia sintetizar, um tanto vagamente, o ideal da Bauhaus, a mais importante instituição de ensino de arte de todos os tempos.
Seu idealizador, o arquiteto alemão Walter Gropius, servira na Primeira Grande Guerra e, ao observar as catástrofes produzidas por esse conflito, expandiu suas ideologias, até então tidas por utópicas, de criar uma escola de arte e desenho capaz de transformar o mundo, onde a máquina servisse em benefício do homem.
Quando surgiu, em 1919, na cidade de Weimar, Alemanha, a Bauhaus já possuía uma ideologia bastante distinta das escolas de arte de então: ela reunia em si as oficinas de ensino técnico; o ensino de arte, tipografia, desenho industrial, arquitetura e outros ofícios. Além disso, possuía um ensino “democrático” e dinâmico, em invés do tradicional rigor das instituições convencionais: ela permitia que alunos e professores trabalhassem juntos. Também visava o ensino às pessoas de classe média, coisa até então impensada, pois normalmente somente aqueles de classe alta estudavam arte.
Conforme foi ganhando repercussão, a Bauhaus transformou-se no “pesadelo” das escolas convencionais, em razão de suas metodologias revolucionárias de ensino, que reuniam metafísica, abstracionismo, expressionismo e mesmo o subjetivismo, já que se buscava incentivar o aluno a encontrar sua forma particular de trabalhar. Os mestres exortavam seus aprendizes a desenvolver suas habilidades produzindo peças, antes mesmo de desenhá-las. Ela reunia o trabalho artesanal e também mecânico.
Uma das grandes inovações da Bauhaus foi que o ensino de fabricação de peças era ensinado pelos mestres e pelos artesãos, enquanto que o projeto artístico de tais peças advinha dos artistas.
Grandes nomes como: László Moholy-Nagy pintor, fotógrafo, pioneiro em ensinar design; Johannes Itten, criador de disco de cores, que permite a escolha de tons harmoniosos, além de, junto a Kandinsky e Paul Klee, desenvolver o curso básico obrigatório – curso este que unificou a Bauhaus de todas as épocas, o qual punha ênfase sobre associação de cor e geometria, na tentativa de padronizá-las cientificamente -, lecionavam na Bauhaus. Kandinsky dizia que as formas geométricas primárias transmitiam sensações semelhantes às cores primárias, desta forma, ele associou o azul ao círculo, o amarelo ao triângulo e o vermelho ao quadrado.
A Bauhaus também se utilizava do teatro como forma de unificar seu ensino, pois reunia harmônica e expressivamente todas as formas de arte ensinadas: arquitetura, desenho, pintura, tecelagem etc., estimulava a criatividade, sendo, portanto, parte essencial  do ensino.
A Bauhaus também trabalhou com a fotografia, foi uma das primeiras a trabalhar com efeitos de luz e sombra, de sobreposição de imagens e montagens.
Sendo uma escola de design, contribui também para uma renovação do mobiliário. A princípio do século passado, o mobiliário muitas vezes não passava de grosseiras imitações e repetições de estilos arcaicos; a Bauhaus então revoluciona criando móveis mais leves, adaptados ao bom-gosto, além de serem economicamente mais acessíveis, por serem constituídos de materiais reaproveitados. Essas inovações, embora tenham chegado ao Brasil ainda no começo de século XX, demoraram algumas décadas para serem produzidas.
Por essa época, a Alemanha passava por uma crise econômica, desta forma, a Bauhaus utilizava-se de material de ferro-velho em suas obras, algo bem mais barato e, segundo a visão de hoje, ecologicamente correto. Eles chegaram a produzir uma casa de componentes pré-fabricados, completamente mobiliada pelas oficinas da Bauhaus, ambientalmente correta, barata e fácil de viver. A “Casa am Horn”, como fora chamada, representava um passo na construção de um mundo melhor, apesar de ser experimental. Seu custo de produção era tão baixo, que qualquer operário qualificado era capaz de erguê-la, ou comprá-la com todas as comodidades modernas inclusas: calefação central, banheiro, etc.
A Bauhaus teve um papel fundamentalíssimo no desenvolvimento da arquitetura moderna, ela criou um novo tipo de artista: o desenhista industrial. Infelizmente, foi obrigada a fechar por decisão de Hitler, mas não sem antes ter cumprido uma missão: devolver à arquitetura sua posição de arte maior, esquecida, provavelmente, desde parte da Idade Média, ou antes, mesmo dos tempos das grandes construções romanas, gregas, etc. 
Os membros da Bauhaus, ainda instalada em Weimar, eram normalmente mal vistos pela população em função de sua aparência despojada: eles usavam cabelo comprido, rabo-de-cavalo; produziam música moderna e coisas tidas à época como estranhas... Alguns alunos chegaram a pintar as estátuas de Goethe e Schiller, situadas à frente do teatro de Weimar, de vermelho. Um fato interessante de se mencionar, ainda em tempo, é que Weimar era na época um centro cultural de toda Alemanha, razão pela qual, muito provavelmente, tenha sido escolhida por sede da Bauhaus.
Quando o partido nazista começou a ganhar força em Weimar, os mestres da Bauhaus
decidiram por fechá-la, antecipando-se ao governo. Mais tarde, ela foi reaberta em Dessau, uma cidade com poder econômico maior, além de ser mais industrializada. Durante esse período as ideologias de ensino já haviam passado por algumas modificações como, por exemplo, tendo-se tornado mais racionalista o ensino e a produção. Durante algum tempo ela voltou-se à produção industrial, tornando-se quase que completamente funcionalista; quando Mies van der Rohe assumiu a direção da Bauhaus, por volta de 1930, ficou um tanto escandalizado com isso, pois sendo amigo de Kandinsky e de Klee, desejava restabelecer a arte como fundamento da instituição, sem, contudo, abandonar a disciplina.
Rohe fez a Bauhaus voltar sua atenção à arquitetura e vetou toda e qualquer forma de envolvimento político,  proibição que, no entanto, não foi cumprida, uma vez que os membros da instituição eram fortemente ideológicos e, não-raro, se envolviam em manifestações e protestos políticos.
 Assim como correu em Weimar, o partido nazista ganhou força em Dessau e, desta vez, obrigou o fechamento definitivo da Bauhaus, dizendo-a centro de ideias comunistas, judias e cosmopolitas. Os saldados nazistas tomaram o suntuoso prédio de sua sede, que havia sido construído pelos membros da escola, com técnicas inovadoras, em menos de um ano e inteiramente mobiliado pelas suas oficinas. Jogaram pelas janelas todo maquinário e transformaram o local num detestável destacamento do partido de Hitler.
Em 1934 Kandinsky teve de abandonar a Alemanha, coagido pela política hitleriana. Estabeleceu-se na Grã-Bretanha, onde foi nomeado professor da renomadíssima Universidade de Harvard, em 1937. Posteriormente, fixou-se nos Estados Unidos, desenvolvendo, junto a Marcel Breuer, seu antigo discípulo, considerável número de obras.
As ideias de Kandinsky sobre o ensino de Arte e Arquitetura receberam grande aceitação e passaram a prevalecer, sendo empregadas, ainda hoje, por instituições como a Universidade de Yale, Instituto de Tecnologia de Illinois, Brooklyn College. Considera-se que Chicago, nos E.U.A., seja uma das maiores expressões das técnicas de arquitetura desenvolvidas pela Bauhaus.


Farias, M.S.: "Bauhaus". Maio de 2014. http://livredialogo.blogspot.com.br/
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima.

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O politicamente correto e o mundo de ilusões.

Há certas manifestações que me deixam bastante "consternado", para não dizer irritado. Uma delas é o atentado cultural promovido por alguns educadores e sociólogos/ativistas preguiçosos em relação às obras culturais brasileiras: as canções de roda de Villa-Lobos estão sendo reformuladas à óptica do "politicamente correto" por que, no entender dessas pessoas, as letras como "Atirei o pau no gato", "O cravo brigou com a rosa", "samba Lelê" e até mesmo obras literárias de Monteiro Lobado, são influenciadoras de algum tipo "preconceito". Mas isso, sejamos francos, ou é pura preguiça ou é falta de conhecimento.

Ou preguiça de explicar às crianças que essas cantigas foram compostas por um compositor e maestro brasileiro, o primeiro - e que me ocorra o único - a compor música erudita brasileira com base nos elementos culturais indígenas, africanos, portugueses, enfim da miscelânea cultural que é Brasil e que sua obra além de uma admirável expressão da cultura deste país, no que diz respeito às cantigas de roda, tem muito a ver com os costumes de sua época - que certamente mudaram muito de lá pra cá. O mesmo vale para Lobato, que retrata certa personagem com elementos hoje considerados racistas. A preguiça de explicar o contexto sócio-histórico de produção dessas obras, de analisá-las e tecer alguma forma de paralelo com os dias de hoje, afim de melhor contemplar o panorama histórico-cultural do Brasil e formar cidadãos que conheçam suas raízes nacionais, sua cultura, seu povo e capazes de melhor se relacionarem com as adversidades, com questões mais adiante polêmicas e complexas, tal como a desigualdade social, a violência, discriminação, etc. Ou então não conhecem esses aspectos e intentam essas modificações ridículas que falseiam a realidade, confundem o indivíduo e embotam sua capacidade de analisar e integrar-se à sociedade em que vive.

Particularmente, eu sempre entendo que professor e educador não é a mesma coisa: professores apontam a direção, dão instrução, fornecem ou ensinam como construir as ferramentas necessárias ao desenvolvimento do aluno, tiram dúvidas, mas fazem pensar, exigem um posicionamento do próprio aluno; confrontam-no. Já o educador diz o que é certo e errado, direciona segundo alguma ideologia e não faz questão de confrontar o educando ou de fazê-lo refletir sobre a questão. Vejamos a história das marcas de batom no banheiro: o educador, representado pelo faxineiro, não fez com que as meninas parassem de beijar o espelho por compreenderem que isso é errado por dificultar a vida dos funcionários da manutenção e sujar algo que é de uso comunitário, enfim, sendo algo ética e moralmente incorreto. Ele simplesmente as fez parar por que limpou o vidro com água da privada, então elas não beijariam mais o espelho por que isso é anti-higiênico e não as convém, tão-somente. O que significa que se o vidro for outro, limpo não com água da privada, elas tornaram a sujá-lo com batom. Mas o problema verdadeiro é que não deveria haver diferença entre professor e educador, já que os termos, em boa parte dos dicionários, são sinônimos. Neste caso das marcas de batom, educar está se baseando na pior das suas acepções: adestrar! O verdadeiro ato de ensinar consiste em "Oferecer a alguém o necessário para que esta pessoa consiga desenvolver plenamente a sua personalidade. Propagar ou transmitir conhecimento (instrução) a; oferecer ensino (educação) a; instruir¹”.


O preço desta distinção entre "professor" e "educador" e deste recorrente intuito de adestramento ao invés de "dar asas ao voo" é uma sociedade que desconhece suas origens e vive à sombra de uma ilusão que lhe impede de crescer. Ora, é preciso que haja a capacidade de questionar, mas também a de compreender. De renovar-se e de recordar. Não deveria prevalecer o medo de refutar por que tal coisa foi dita por alguém de posição supina, e sim o encorajamento de pesquisar, de pensar e embasar suas conclusões e demonstrar mais um ângulo da questão e levá-lo à discussão. É preciso coragem e autonomia no pensar. E, parece-me que, sem compreendermos nosso passado, não podemos entender o presente, tampouco mudar o futuro.

Farias, M.S.: "O politicamente correto e o mundo de ilusões". Fevereiro de 2013.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima.

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Eufemismos destrutivos nas organizações

Texto de Roberto Funck¹.

"Encorajado pelo brilhante texto de Luiz Antonio Simas, atrevo-me a trazer o mesmo tema tratado por ele para dentro das organizações. Ah, sim. Não é só nas escolas que a insanidade do politicamente correto se alastra. O mesmo ocorre nas organizações onde, desde algum tempo, várias denominações estão sendo substituídas por outras, também sob a égide do “politicamente correto”, mas que não passam de meros eufemismos, com efeitos que podem ser devastadores no longo prazo.

"Podemos começar com “empregado”, hoje um termo pejorativo em muitas organizações. As pessoas que trabalham em organizações hoje são associados, colaboradores ou qualquer outra coisa do tipo. Ora, o artigo 3º da Consolidação das Leis do Trabalho considera empregado “toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário.” Ou seja, do ponto de vista legal, todo aquele que presta serviços com tais características é um empregado. Ponto. O uso dos eufemismos deriva do falso entendimento de que os empregados sentir-se-ão mais valorizados se forem tratados por associados ou colaboradores, etc. Falso entendimento porque isso é uma ilusão que dura até o momento em que o colaborador, valendo-se da Legislação Trabalhista, recorre ao Judiciário para reclamar seus direitos como empregado. Aí ele deixa de ser colaborador para ser o empregado que sempre foi. Por outro lado, especialmente aqueles que acompanham um pouco mais de perto o desempenho da economia, já ouviram falar, alguma vez de nível de “dessociação” ou de nível de “descolaboração”? Não, o que encontramos são estatísticas sobre o nível de “desemprego”. E o que procuramos quando estamos “desempregados”? Um emprego, naturalmente. E até etimologicamente, empregado “é aquele que exerce emprego ou função, funcionário” (Aurélio). Nada de errado com o termo.
Podemos seguir com “chefe”. Bem, chefe quem tem é índio! Equipes organizacionais têm “líderes”! Como se uma pessoa pudesse transformar-se em líder por uma portaria ou nomeação oficial.

"Esquecem os gestores das empresas as sábias palavras do maior dos gurus da Administração, Peter Drücker: “Líder é quem tem seguidores”. Algo como dizer que professor é quem tem alunos, mestre é quem tem discípulos. Ninguém tem seguidores por decreto. Os seguidores surgem pela postura, pelos ideais, pelo exemplo. Independentemente disso, toda organização necessita um certo grau de organização e controle, ou transforma-se em um caos. E é por isso que existem diferenças hierárquicas nas organizações. “Chefe” soa mal? Tudo bem: use-se “coordenador”. Os líderes, aqueles que tem seguidores, surgirão sozinhos, de maneira informal, como aliás, surgiu o termo na literatura da Administração.

"Apenas para não deixar o texto muito longo, finalizemos com “Gestão de Pessoas”. Lindo, mas não saberia dizer o que é mais forte na expressão: a ingenuidade ou hipocrisia. Por que ingenuidade? Porque tradicionalmente o departamento com esse nome chamava-se “Administração de Recursos Humanos”. Coisa horrível ser tratado como recurso! Mas, pensem bem: quando você aceita um emprego, o que é que está vendendo ao empregador? Sua capacidade de produzir alguma coisa ou você mesmo? Parece óbvio que o que vendemos é nossa capacidade de produzir algo: o nosso trabalho. E o trabalho, seja ele braçal ou intelectual é um recurso, um recurso humano. Uma pessoa é muito mais do que sua capacidade de produzir trabalho. É aí que entra a questão da ingenuidade e da hipocrisia. Ingenuidade, quando não se consegue distinguir o que está sendo vendido ou comprado. Hipocrisia, quando se utiliza uma expressão que, aparentemente, e apenas aparentemente, é mais politicamente correta e também apenas aparentemente mais motivadora, com a finalidade de gerir a pessoa, integralmente, e não apenas a sua capacidade de produzir trabalho.

"No longo prazo, a utilização desses termos normalmente é devastadora. Por um simples motivo: quando assinamos um contrato de emprego, estamos assumindo não um, mas dois contratos. O primeiro é o contrato formal, aquele regido pela Legislação Trabalhista e normalmente explícito. O segundo é implícito e inclui as expectativas psicológicas mútuas entre as duas partes contratantes. Nesse caso, é indiferente o que contenha o contrato formal. O contrato psicológico é feito de expectativas, que podem ser reais ou não, criadas pela outra parte ou não. Agora, vejam que tipo de expectativas psicológicas pode gerar uma empresa que tenha um Departamento de Gestão de Pessoas, os coordenadores sejam denominados líderes e os empregados, colaboradores. Assim que o funcionário percebe que ele está sendo tratado como um recurso ou, o que é pior, que a empresa está tentando gerenciar sua pessoa; que ele não é um colaborador, mas um empregado e que existem chefes ou coordenadores, mas não líderes, ocorre o que se chama “quebra do contrato psicológico”. Muito pior que a dissolução de um contrato formal, a quebra do contrato psicológico gera um sentimento de frustração, de descrença na organização e de revolta no empregado, que ele passa a ser um inimigo da organização. E, no entanto, como o contrato formal não foi desfeito, ele continua na organização.

"Sob esse lógica, não é muito difícil entender porque tantos empregados, em tantas empresas, produzem tão pouco e esperam tão ansiosamente pela chegada da tarde de sexta-feira."

1. Roberto Funck é Diretor do Centro de Docência On-line Independente - CEDOI. Bacharel em Administração pela  Universidade Católica de Pelotas - UCPel. Mestre em Direção e Administração de Empresas pela Escuela Superior de Administración y Dirección de Empresas - ESADE. Doutor em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRS. Participou, em 2012, como um dos Conferencionistas Magnos do "III Congreso Internacional EDUTIC - Peru 2012: ‘El impacto de las tecnologias en la educación’" e, em 2013, do Congreso Virtual Mundial de e-Learning.

- O Diálogo Livre. é um espaço aberto à conversação e ao debate. Todo tipo de resposta às nossas publicações é bem-vindo e igualmente publicado, desde que de acordo às nossas políticas de relacionamento. Apreciamos muito a interação de nossos leitores e visitantes - obrigado, Roberto, pela sua bem-vinda contribuição!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Cravo não brigou com a rosa.

Texto de Luiz Antônio Simas¹

"Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

"Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

"É Villa Lobos, cacete!

"Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

"Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

"Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

[...]

"Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. [...]

"Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

"Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

[...]

"[...] me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".

"Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto."

1. Luiz Antonio Simas nasceu no dia de finados de 1967 e é Império Serrano.É mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio. É considerado um dos profissionais mais importantes do Rio de Janeiro em sua área de atuação. Publicou em parceria com o caricaturista Cássio Loredano, o livro O vidente míope, sobre o desenhista carioca J. Carlos, indicado pela Revista de História da Biblioteca Nacional como uma das publicações mais relevantes da área no ano de 2007. Desenvolve pesquisas sobre a cultura popular carioca, mais especificamente nos campos do futebol e da música popular. Foi o responsável pela pesquisa da exposição Todas as Copas, evento realizado no Brasil e nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo de 1994. Seu trabalho foi considerado pela FIFA como um dos mais completos levantamentos já realizados sobre a história dos mundiais de futebol. É atualmente consultor da área de carnaval do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

- O Diálogo Livre comunica que recebeu este texto através de correio eletrônico, destarde não se responsabiliza por eventuais incompatibilidades de dados. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Isomeria

Introdução

Até o presente momento se tem estudado boa parte das funções orgânicas da Química, de modo que se pode distinguir, através da representação estrutural planificada, a natureza do composto – éter, cetona, aldeído, ácido, etc.
Todavia, a fórmula molecular tão-somente não é uma informação bastante para se compreender efetivamente do que se trata certo produto: dependendo da organização dos elementos das moléculas obtêm-se distintos compostos, como é o caso do C2H4O2 que pode originar um ácido, um éster e substância de função mista.
É justamente esta particularidade de determinados compostos de apresentarem fórmula molecular, plana, centesimal ou empírica iguais e divergirem, em maioria dos casos, quanto à natureza físico-química a que se denomina Isomeria.

No presente objeto de estudos falar-se-á acerca dos distintos tipos de isomeria, a saber: 1.ª Plana: (a) de cadeia ou núcleo; (b) de posição; (c) de compensação ou metameria; (d) de grupo funcional ou função; (e) tautomeria. 2ª. Espacial ou estereoisomeria: (a) geométrica; (b) óptica.

Isomeria Plana

As representações planificadas das estruturas atômicas são um grosso modo de representar moléculas, pois estas se formam sempre no espaço, ou seja, são complexas organizações tridimensionais de elementos químicos. Não obstante, esta pouco elaborada forma de demonstração sobre como os átomos organizam-se em uma molécula é suficientemente clara para que se possam analisar todos os isômeros possíveis à determinada fórmula.
Destarde, conforme o tipo de cadeia, a posição dos elementos ou a relativa localização de um hetero-átomo ou insaturação, o fato de isômeros obtidos pertencerem ou não à mesma função, ter-se-á uma classificação específica de isomeria plana.

v Isomeria de cadeia ou de núcleo: dá-se quando, pertencendo à mesma função orgânica, os isômeros diferem apenas quanto à disposição e/ou presença de (in)saturação da cadeia carbônica. Tome-se, por exemplo, o C3H6:


v Isomeria de posição: apresenta o mesmo tipo de cadeia e classe funcional diferindo apenas quanto à posição relativa de uma insaturação ou radical funcional (OH; NH; O; Cl; CH3). Por exemplo, tem-se: C18H30O2 e C3H8O:





v Isomeria de compensação ou Metameria: trata-se de um caso particular de isomeria que se baseia na posição relativa de um heteroátomo. É assim denominada porque a quantidade de átomos de carbono que aumenta ou diminui em cada lado do heteroátomo é proporcional à quantidade de carbonos que aumenta ou diminui do outro lado correspondente. Por exemplo, C4H10O:


v Isomeria funcional ou de função: compreende esta classificação aos casos em que, dependendo da posição relativa de heteroátomos e/ou insaturações, ocorre a mudança de uma função química para outra; ou seja, são os casos em que uma mesma fórmula molecular origina compostos de diferentes funções. Por exemplo, C2H4O2:



v Tautomeria ou isomeria dinâmica: trata-se de um caso muito particular de isomeria funcional que ocorre em soluções. Dá-se quando dois isômeros – chamados tautômeros – coexistem em equilíbrio dinâmico, transformando-se um no outro por meio da migração de um átomo de hidrogênio na molécula.
Os dois casos de tautomeria mais utilizados no estudo da Química orgânica em nível de Ensino Médio são:

ü  Tautomeria aldo-enólica: dá-se entra aldeído e enol, que possuam no mínimo dois átomos de carbono. Por exemplo, tem-se C2H4O:


ü  Tautomeria ceto-enólica: ocorre entre cetonas e enóis que possuam no mínimo três átomos de carbono. Por exemplo, C3H6O:


Isomeria espacial ou estereoisomeria

A isomeria geométrica abrange os casos de isômeros que somente podem ser esclarecidos através de fórmulas estruturais espaciais, sendo insuficientes as fórmulas planas até então vistas. Subdivide-se em:

v Isomeria geométrica ou cis-trans: somente ocorre em compostos de cadeia aberta que possuem dupla ligação entre átomos de carbono ou em cadeias cíclicas. 

v Cis-trans de cadeia aberta: para que ocorra é necessário que o composto apresente ao menos uma dupla ligação entre átomos de carbono e que cada um dos carbonos da dupla contenha grupos ligantes diferentes. Tome-se, por exemplo, C2H2Cl2:


A fim de facilitar a análise das cadeias geométricas usa-se traçar uma linha imaginária ao longo da dupla ligação, conforme exemplificado acima. Sempre que os grupos ligantes (em nosso caso o Cl) estiverem de um mesmo lado da linha considerada, então a cadeia será “cis”; se os grupos ligantes estiverem em lados opostos da linha, então a cadeia será “trans”, conforme demonstram os exemplos supracitados.

Quando as cadeias são um tanto mais complexas e apresentam diversos ligantes todos diferentes entre si, usa-se considerar o de maior número atômico para determinar se se trata de cadeia “cis” ou “tans”. Por exemplo:


v Cis-trans em cadeias cíclicas: neste particular não é imperiosa a existência de dupla ligação, conquanto que em ao menos dois carbonos da cadeia existam dois ou mais grupos de ligantes diferentes. Não obstante, neste tipo de isômero os ligantes de cada átomo considerado, por mais diversos que sejam, devem ser os mesmos do outro átomo analisado. Por exemplo:


Note-se que foram consideradas, na análise acima, as ramificações da cadeia e que ambos os carbonos ramificados possuíam ligações com CH3 e H. Ou seja, individualmente possuíam grupos ligantes diferentes, porém, os mesmos do outro átomo, logo, permitindo que a cadeia apresente isomeria geométrica.

Para simplificar, alguns dos autores pesquisados consideram que basta verificar se existem no ciclo dois carbonos, não necessariamente próximos, com dois ligantes diferentes.

Quando a cadeia cíclica possui apenas um ligante fora do ciclo, a pesar de conter dupla ligação, ela não é um isômero cis-trans. Veja-se a exemplificação:


v Isomeria óptica: trata-se de um caso muito particular de isomeria em que as moléculas, sendo assimétricas, quando atingidas por um feixe de luz polarizada, tendem a desviá-lo ou em sentido horário (dextrorrotatório ou dextrogiro, representado pela letra d) ou em sentido anti-horário (levorrotatório ou levogiro, representado pela letra l). Assim, alguns autores, a fim de explicarem tal comportamento, comparam o fenômeno como que se colocando a molécula assimétrica frente a um espelho, cuja imagem refletida será o isômero conhecido por óptico ou enantiomorfo ou, ainda, enantiômero.
Consideremos, para efeito de ilustração, o elemento de fórmula molecular CHBrClF:


Todavia, como o nível de estudos atual descarta a possibilidade de experiências laboratoriais complexas e mesmo porque a título de estudos, em termos gerais, interessa a análise da fórmula estrutural representada sobre um plano é que se deverá considerar como referencial determinante à presença ou ausência de moléculas assimétricas a existência ou não de carbono quiral, também conhecido por centro quiral ou carbono assimétrico.

“A assimetria molecular estará presente se houver um carbono que faça quatro ligações simples e que esteja ligado a quatro grupos diferentes. [...] A presença de um carbono quiral é condição suficiente para a isomeria óptica.” (MIRAGAIA & CANTO, 2006).

Ou seja, o carbono quiral será aquele que estiver ligado a quatro grupos distintos. Utilizemos como exemplo a representação planificada do elemento CHBrClF, acima representado tridimensionalmente.



Perceba que o carbono – destacado com um asterisco (*), conforme as convenções da Química Orgânica – é o carbono assimétrico, pois está ligado a quatro distintos grupos: Cloro (Cl); Oxigênio (O); Bromo (Br); Hidrogênio (H).

Quando o carbono possuir uma ligação dupla, tripla ou duas duplas, ele não será o carbono quiral, pois a configuração geométrica da estrutura será simétrica.

v Isomeria óptica em compostos cíclicos: para que tal exista a estrutura não poderá ter forma simétrica, devendo cada carbono conter ligantes fora do ciclo; quando analisada no sentido horário, a cadeia deverá apresentar percurso diferente de quando analisada em sentido anti-horário. Vejamos as exemplificações:



A fim de que se determine qual dos carbonos assinalados (A,B,C,D,E) é o carbono central, devemos analisar, primeiro, as ligações que eles tecem. Assim, notaremos que A, B e C possuem duas ligações iguais e nenhuma fora da cadeia, logo, acatando a regra já vista, não podem sê-lo. Restam dois carbonos, D e E, que possuem duas das quatro ligações diferenciadas, sendo as outras duas ligadas à cadeia. Para que se determine qual deles é quiral dever-se-á analisar a cadeia concomitantemente em sentido horário e anti-horário.

Considerações Finais
Embora não seja uma situação comum ao quotidiano, avaliar certos produtos cujas informações vêm transcritas em fórmula molecular pode ser um perigoso engano, haja vista que diversos compostos podem surgir em função do arranjo das partículas. Contudo, verdade seja dita, é algo muito raro alguém analisar as informações técnicas/químicas do que seja no supermercado ou qualquer outro local; a miúde tais observações cabem a agricultores e funcionários de laboratórios de química ou hospitalar, onde o manejo de substâncias requer extremo cuidado.
É fácil imaginar o porquê de em um laboratório esse conhecimento ser imprescindível, mas um tanto mais difícil em relação aos agricultores. Pois bem, fazendas de grande porte – e mesmo algumas de médio porte – necessitam afastar pragas de suas plantações ou rebanhos. Os produtos utilizados para isso possuem concentrações bastante elevadas de venenos e outros tóxicos, de modo que a aplicação de um produto inadequado ou de procedência duvidosa pode acarretar imensos prejuízos tanto financeiros quanto legais ou de saúde do ecossistema e dos manejadores.
Os isômeros, de um ponto de vista estritamente técnico, são importantíssimos para o estudo amplo e aprofundado da química orgânica, pois permitem uma melhor compreensão de como se comportam os átomos dentro da molécula e, por sua vez, como agem as soluções ou como se dão as reações químicas.
Particularmente, a isomeria óptica parece ser a mais interessante de todas, embora a mais difícil de estudar, também. As primeiras substâncias opticamente ativas (SOA) conhecidas eram compostos minerais na forma cristalina, como o quartzo (SiO2) e o clorato de potássio (KClO3), por exemplo.
Pasteur foi o primeiro químico de que se tem notícia a separar os cristais responsáveis pela isomeria óptica, no caso cristais de ácido tartárico, que ele dividiu manualmente, utilizando-se de uma lupa. Ele, primeiramente, e mais tarde alguns outros cientistas, percebeu que esses cristais tinham em comum a forma assimétrica e que, quando dissolvidos ou fundidos, a substância tornava-se opticamente inativa (SOI). Assim, inferiu-se que tal fenômeno dava-se em função exclusiva da assimetria cristalina, não havendo relação com a natureza química da substância.
Nos primórdios do século XX, um cientista chamado Biot descobriu que, dentre outras, as soluções de ácido tartárico, cana-de-açúcar e cânfora apresentavam poder rotatório. Ele afirmou, portanto, que a assimetria deveria ocorrer dentro da própria molécula da substância. Posteriormente, Kekulé conseguiu desenvolver ainda mais as fórmulas estruturais fazendo surgir o conceito de carbono assimétrico como sendo o átomo Tetracovalente (Teoria da Tetracovalência do carbono), ou seja, o átomo de carbono que troca suas quatro valências com radicais distintos.
O conhecimento da função rotatória das moléculas foi também muito importante para a compreensão da isomeria geométrica: uma molécula somente será isômero cis-trans se não houver movimento giratório da molécula; quando alifática este movimento é impedido pela dupla; quando cíclica analisa-se a impossibilidade de movimento para determinar se ela pode ou não ser isômero – lembrem-se dos exemplos acima: a cadeia cíclica cuja rotação era permitida, apesar da dupla (1,2-dimetil-ciclopropano) não servia para isômero geométrico.
Um ponto importante a se considerar: na isomeria geométrica de compostos cíclicos a dupla ligação não impede a rotação, mas sim o arranjo dos elementos: a presença no ciclo de dois carbonos com dois ligantes diferentes.
Por fim, cabe mencionar que a química orgânica é também empregada na Biologia para, por exemplo, estudar o comportamento dos aminoácidos no organismo humano, como também as reações físico-químicas ocasionadas pela ingestão de medicamentos, alimentos e/ou bebidas. 

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Referências:

http://answers.yahoo.com/question/index?qid=20090112144416AAGU0eb
http://en.wikibooks.org/wiki/Organic_Chemistry/Print_version
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%94mega_3
http://pt.wikipedia.org/wiki/August_Kekul%C3%A9
http://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%B3rmula_emp%C3%ADrica
http://pt.wikipedia.org/wiki/Geometria_molecular
http://pt.wikipedia.org/wiki/Isomeria_nuclear
http://quimicaorganicacursinho.blogspot.com.br/2012_07_01_archive.html
http://quimicasemsegredos.com/documents/Loja/Isomeria-PPT.pdf
http://quimicasemsegredos.com/isomeria-optica.php
http://www.alunosonline.com.br/quimica/formula-minima-ou-empirica.html
http://www.brasilescola.com/curiosidades/omega-3.htm
http://www.brasilescola.com/quimica/formula-percentual-ou-centesimal.htm
http://www.brasilescola.com/quimica/isomeria-compensacao-ou-metameria.htm
http://www.brasilescola.com/quimica/isomeria-Optica.htm
http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/quimica/isomeria/isomeria-de-cadeia.html
http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/quimica/isomeria/isomeria-de-posicao.html
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http://www.ebah.com.br/content/ABAAABRMIAK/radioatividade
http://www.infoescola.com/quimica/isomeria/
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http://www.mundoeducacao.com/quimica/isomeria-cadeia.htm
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http://www.supplementquality.com/news/fatty_acid_structure.html
http://www.ufjf.br/cursinho/files/2012/05/Apostila-de-Qu%C3%ADmica-4-108.136.pdf
ISOMERIA: In: BENTON, William. Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro, São Paulo: Encyclopedia Britannica Editores LTDA. 1964 – 1969; p.: 73b -75b. Tomo 08.
Peruzzo, Francisco Miragaia. Química na abordagem do cotidiano. 3º v. 4ª ed. São Paulo: Moderna, 2006.

ANEXOS¹


v Fórmula Percentual ou Centesimal: é possível fazer essa determinação centesimal porque, como mostra a Lei das Proporções Constantes de Proust, as substâncias puras sempre apresentam os mesmos elementos combinados na mesma proporção em massa. Além disso, essa é uma propriedade intensiva, isto é, não depende da quantidade da amostra. A fórmula percentual é importante, pois ela é o ponto de partida para se determinar as outras fórmulas químicas dos compostos, como a fórmula mínima ou empírica e a fórmula molecular.

A fórmula matemática usada para calcular essa porcentagem é dada por:

Por exemplo: “Determine a fórmula percentual de um sal inorgânico, sendo que a análise de sua amostra indicou que em 50 g dessa substância existem 20 g de cálcio, 6 g de carbono e 24 g de oxigênio”:

Porcentagem de massa do cálcio = 40%

Porcentagem de massa do carbono = 12%

Porcentagem de massa do oxigênio = 48%

Ca40%C12%O48%

***

v Fórmula Mínima ou Empírica: A fórmula mínima ou empírica indica a menor proporção, em números inteiros de mol, dos átomos dos elementos que constituem uma substância. Podemos determinar a fórmula empírica a partir da Fórmula Percentual, dividindo cada percentual pela massa atômica de cada elemento.

Por exemplo:

“Considerando uma amostra de 100g, as porcentagens em massa nos permitem
concluir que a substância contém 75 g de carbono e 25 g de hidrogênio. Dividindo
esses valores pelas respectivas massas molares, temos:”


Esses valores indicam a proporção entre os elementos, porém, não são a menor proporção e nem estão em números inteiros. Para conseguirmos isso, basta dividir os dois valores pelo menor deles, que no caso é o 6,25. Isso pode ser feito porque quando dividimos ou multiplicamos uma série de números por um mesmo valor, a proporção que existe entre eles não é alterada.


Portanto, a fórmula mínima/empírica desse composto é: CH4.

[1] Anexos extraídos diretamente dos sites.


Farias, M.S.: "Isomeria". Dezembro de 2013.
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