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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Os lírios da praça


Resultado de imagem para líriosOlho para o relógio em meu pulso esquerdo: são 16h. A praça está relativamente movimentada: as gentes passam ora sozinhas, ora em duplas ou em grupos. Conversam, murmuram, algumas se exclamam sozinhas. Um senhor de terno parece com pressa: caminha em direção ao estacionamento nas imediações como que por um corredor, alheio às árvores, aos outros transeuntes. Pelos seus trejeitos, o homem trabalha em algum dos prédios ali perto, e seu dia deve estar findando – seu afã deve ser o do lar, da poltrona preferida, nas vestes casuais, dos assuntos sem técnica.
Penso comigo: quem dera pudesse estar em casa, de pantufas, ao invés de aqui, esperando a próxima aula! Tomo minha bolsa e retiro a agenda: a semana vai ser corrida! Duas provas, três trabalhos, um relatório... Guardo a agenda novamente, fecho a pasta. Curioso como no ócio não descansamos: pensamos no quanto estaremos ocupados e cansados!
Em algum lugar, do outro lado da praça ou em suas imediações, ouço música, contrastando com o som das águas do chafariz a alguns metros. Um grupo de adolescente sentado sobre a grama – alguém tocando um violão, meio sem jeito, enquanto outro enche o chimarrão, ao tempo que os demais ensaiam qualquer letra.
As árvores imponentes e bem copadas, embora espaçadas, mantêm o local sombreado; o chão é de um verde exímio. Não fossem os caminhos de pedra, calcinada pela chuva e o trânsito, este lugar seria inteiramente coberto pelo tapete de relva.
Esse quadrado de cantos arredondados parece desafiar a selva de pedras, impondo-se justo em seu coração. É grande demais para ser um jardim, mas insignificante perto da floresta que há muitas centúrias tenha sido. Assim, como recebe vagos cuidados gerais de jardinagem, tanto mais para moldá-lo que para mimá-lo, chamamos esse recorte de vida vegetal de praça.
O vento sopra agradável e, consigo muito tenuamente, traz leve aroma... É-me familiar! Cerro os olhos por instante em busca de identificá-lo: lírios! O aroma é de lírios! No instante em que me ocorre, assomam-se as lembranças de há muito: à luz pálida das memórias infantes, vejo uma pequerrucha muito à vontade, estendendo a uma senhorinha, muito sorridente, de mãos enrugadas, cabelos brancos e um largo sorriso dourado, um lírio áureo que acabara de furtar do jardim.
Abro os olhos. Não se passaram além de segundos, enquanto viajei por mais de uma década em minhas memórias. Olho à minha volta em busca dos lírios. Não muito longe distingo um ponto lilás, contrastando vivamente com o verde natural do lugar e as cores sintéticas que adornam as construções de cimento. Recolho minha pasta, levanto-me e me dirijo até lá.
É lindo! Olhando-o tão de perto, os lírios, que ao longe pareciam-me um ponto lilás são, em realidade, adornados por outros tons mais suaves em meio à folhagem de um verde mais escuro. Rio comigo mesmo: se Proust pode sentir o sabor do passado numa madelaine amolecida em chá, porque não posso eu sentir o aroma do passado num pé de lírios? Ao menos eu não pretendo levar quatorze anos escrevendo sobre minha epifania!
Atrevo-me e colho, com delicadeza, uma flor. Dirijo-me ao ponto de ônibus, rumo ao campus, levando comigo não um lírio, mas um doce aroma de passado, brindado por um amável sorriso dourado que me irradia o coração.
Entre o homem que corre com os ponteiros do relógio e os adolescentes que ignoram o tempo, o que afinal apropriamos e legamos se não memórias?

Vellar, C. M. "Os lírios da praça". Novembro de 2018. http://livredialogo.blogspot.com.br/Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima.
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terça-feira, 22 de março de 2016

Uma canção, uma memória...

Borregardt entrou no trem e logo dirigiu-se a sua cabine. Sentado no cômodo estofado, observava pela janela a bela paisagem interiorana passar a quilômetros. De repente uma canção que soava pelos auto falantes do vagão tirou-lhe de sua divagação. Aquela melodia o transportou para muito além, numa tarde de outono. 

Primeiro o velho carvalho, alto e imponente, bem copado, em seguida uma, duas folhas dançando ao ar em seu processo de descida rumo ao chão de terra onde aos poucos se vão acumulando, cobrindo-o quase totalmente. A névoa que encerra toda afeta recordação vai cessando, dando lugar aos raios dourados de um sol sem calor. Um velho banco protegido pelo carvalho, nele vislumbra-se dois perfis. Antoine tem sua perspectiva transportada: está frente a frente com um  belo par de olhos castanhos, magnetizado pelo doce brilho que deles emana. Moldando aquele olhar estupendo um rosto delicado, de uma tez morena, porém carregado de uma expressão resignada, espécie de dor ou tormento  emudecidos. Incontidamente, levado por aquele magnetismo e um sentimento inexplicável ele leva amavelmente sua mão ao rosto da moça, acaricia-lhe a face, ajeita-lhe os negros cabelos e a beija intensa e apaixonadamente.

Abaixo deles corre mansamente um rio de águas negras, refletindo de maneira opaca a luz daquele sol dourado que inunda toda a cena. 

Vistos de longe, eram lindos, uma pintura épica. Dois corações tão machucados, calados num beijo que gritava vontades e desejos tão antigos. 

O sol toma conta e a imagem se desfaz. Com os olhos marejados, lá estava Borregardt novamente no vagão daquele trem. Os sentimentos daquele momento que, ao menos em lembranças, revivera há pouco ainda lhe preenchiam o peito. 

O sabor daquele beijo, a textura daqueles lábios... Ainda os podia sentir.

"Maldição!', pensou consigo. Supunha já haver esquecido tudo aquilo, superado a paixão falsa e impossível. Aquele arrebatamento o pegou desapercebido. 

Depois de tudo, nunca mais havia ouvido aquela canção. "Magnífica magia tem a musica: é capaz de dar vida a lembranças já 'esquecidas'", conjecturou. 

Não a queria de volta, isso é certo. Já não sente por ela qualquer paixão ou compaixão, mas aquela recordação trouxe-lhe o desejo de beija-la intensamente uma vez mais.

"Não é ela, é a lembrança. A moça por quem me apaixonei aquela tarde morreu. Que morte triste, só restou o corpo vivo - ou será que jamais existira?", concluiu...

quinta-feira, 12 de março de 2015

"Problema de Homens", por José Saramago.

"Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que creem ser seus donos. Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume é certo que só pouco a pouco, que esta violência é um problema dos homens e que o homem tem que resolver.

"De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres que saíam à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo.

"A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe de lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio.

"É o problema das mulheres, diz-se, e isso é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável covardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica.

"Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e á violência. Direito de usar o que consideravam seu. Este novo ato de violência de gênero, mais os que se produziram neste fim de semana, em Madrid uma menina foi assassinada, em Toledo uma mulher de 33 anos morta diante de sua filha de seis anos, deveriam ter feito sair os homens à rua. Talvez 100 mil homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de gênero, como resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia".

Via: OBVIUS.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Insone reminiscência.


Eventualmente tenho insônia, hoje, por exemplo, é um desses dias, ou melhor, noites. Para gastar esse tempo tenho por hábito organizar meus livros, checar cadernos, ler... enfim, qualquer coisa que entretenha-me ou provoque o tão benquisto sono. Revirando minha estante, eis que encontro um trabalho das séries iniciais do ensino fundamental. Estranhamente isso me fez recordar de como era a escola Inácia quando lá ingressei. Ah! Como era bom na hora do recreio – entre a 1º e 4º séries -, ir à biblioteca jogar – a dona Zaira sempre mantinha tudo bem organizado, os jogos eram exclusivos para esses momentos de ociosidade. A sala da biblioteca tinha um aroma de limpeza mesclado a papel e tinta. As mesas estavam sempre ocupadas. O joguinho mais disputado era sempre o “Trânsito”, lembro-me que uma vez saí um pouco atrasado da sala e, chegando à biblioteca os jogos e mesas estavam todos ocupados; dei sorte que a mesa onde estava a Larissa tinha lugar para mais um jogador de “Trânsito”. Aquelas cartas era um pesadelo, principalmente quando nos faziam volver casas. Nessa ocasião a Larissa foi quem venceu a partida – é uma pena eu não lembrar o nome dos outros dois jogadores! Não tenho mais nenhuma reminiscência desse jogo – ao menos de uma partida completa, uma vez que o recreio sempre acabava antes da partida.

Por esse período talvez estivéssemos à primeira série, nossa professora titular era a Jacila (ótima mestra e alfabetizadora), porém tivemos duas estagiárias: a Renata e a Amanda. A Renata não possuía, à vista ao menos, vocação. Espero que não tenha seguido no Magistério, se não, míseros desafortunados que lhe foram alunos! Já a Amanda foi uma agradável professora estagiária; era divertida, porém séria e comprometida, se ela seguiu no Magistério, deve continuar sendo uma boa professora. Na segunda série nossa titular era a professora Jaqueline, sua principal característica era a calma. Com relação à estagiária só me recordo que se chamava Daniela, tinha um belo sorriso, uma ótima caligrafia – gostava especialmente de como ela desenhava a letra “D” -, lia muito bem, com excelente entonação da voz, pronúncia e respeito à pontuação. Nessa fase não tínhamos acesso à biblioteca por falta de funcionários, então improvisamos uma na sala. Isso mesmo, na sala! Cada um de nós levava alguns livros e trocávamos uns com os outros; chegamos até mesmo a escrever nossos próprios livros, com nossos personagens singulares. Na terceira série a professora titular era a professora Simone, filha da bibliotecária, a dona Zaira. A estagiária era a professora Cíntia, tinha um belo sorriso, era calma, tinha jeito para ser professora. Lembro-me que uma vez ela levou-nos à Associação Educacional (ou de Educação) para vermos a casca de algumas frutas ao microscópio. No trajeto paramos em uma frutaria, um colega nosso acabou derrubando uma caixa de cocos, os quais acabaram quebrando – prejuízo para a professora... No último dia de aulas com a professora Cíntia nossa turma, por ela coordenada, fez uma salada de frutas e uma nega-maluca. Na terceira série eu sentava-me numa classe ao fundo, o último da fila, e como não conseguia avistar a lousa, a professora Simone permitia-me copiar de seu diário, resultado: antes do recreio eu já havia copiado todo o conteúdo do dia e respondido os exercícios. Na hora do recreio podíamos ficar na sala, foi quando passamos a jogar damas. A Wyctória nunca ganhava partida, mas era bom jogar com ela. Já a Mayara era uma competidora à altura, era difícil ganhar-lhe nas damas. Ah, terceira série... Na quarta série voltamos a sermos alunos da professora Jacila, novamente tivemos duas estagiárias: a Elidiane e a Zaira. A Elidiane talvez fosse boa professora – uma vez me ditou as respostas de uma prova de História -, porém nunca simpatizei muito com ela. Já a Zaira era boa professora, era simpática, organizada, comprometida, tanto que mereceu uma despedida bem elaborada. Na sala da nossa quarta série havia uma mesa com um compartimento, uma portinha, nós fazíamos competição de quem ficava mais tempo lá dentro. Certa feita, quando chegou minha vez, a professora entrou na sala e ninguém me avisou, quando fui sair ela calçou a porta com o joelho e lá ficou o Mateus de castigo por uns segundos (risos). Nessa série houve outras situações semelhantes e igualmente engraçadas.

Ah...! Como é bom recordar! Ainda mais os primórdios da vida acadêmica. De todas as experiências que passei na escola Inácia - e que serviram de lição para muita coisa -, são essas lembranças um pouco baças dos meus primeiros anos que guardo com um zelo mais. As amizades construídas, as travessuras que aprontamos, as brincadeiras... Um tempo em que se era apenas aluno, ignorando todo o mais. Da quinta série em diante há lembranças boas, sim, há, porém já não com o mesmo matiz de suas predecedentes.

Hoje, para ocupar o tempo insone grafei estas melancólicas linhas a narrar algo agradável de recordar, fazendo serenar a saudade...


Farias, M. S. “Insone reminiscência". Maio de 2012. http://livredialogo.blogspot.com/
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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Arnaldo Jabor fala sobre o Rio Grande do Sul.

Pois é. O Brasil tem milhões de brasileiros que gastam sua energia distribuindo ressentimentos passivos. 
Olham o escândalo na televisão e exclamam 'que horror'.


Sabem do roubo do político e falam 'que vergonha'.


Veem a fila de aposentados ao sol e comentam 'que absurdo'.


Assistem a uma quase pornografia no programa dominical de televisão e dizem 'que baixaria'.

Assustam-se com os ataques dos criminosos e choram 'que medo'. E pronto! Pois acho que precisamos de uma transição 'neste país'.

Do ressentimento passivo à participação ativa'.

Pois recentemente estive em Porto Alegre, onde pude apreciar atitudes com as quais não estou acostumado, paulista/paulistano que sou.

Um regionalismo que simplesmente não existe na São Paulo que, sendo de todos, não é de ninguém. No Rio Grande do Sul, palestrando num evento do Sindirádio, uma surpresa.

Abriram com o Hino Nacional. Todos em pé, cantando.

Em seguida, o apresentador anunciou o Hino do Estado do Rio Grande do Sul.

Fiquei curioso. Como seria o hino?

Começa a tocar e, para minha surpresa, todo mundo cantando a letra!

'Como a aurora precursora / do farol da divindade, / foi o vinte de setembro / o precursor da liberdade '.

Em seguida um casal, sentado do meu lado, prepara um chimarrão. Com garrafa de água quente e tudo. E oferece aos que estão em volta.

Durante o evento, a cuia passa de mão em mão, até para mim eles oferecem.

E eu fico pasmo. Todos colocando a boca na bomba, mesmo pessoas que não se conhecem. Aquilo cria um espírito de comunidade ao qual eu, paulista, não estou acostumado.

Desde que saí de Bauru, nos anos setenta, não sei mais o que é 'comunidade'. 

Fiquei imaginando quem é que sabe cantar o hino de São Paulo. Aliás, você sabia que

São Paulo tem hino? Pois é... Foi então que me deu um estalo.

Sabe como é que os 'ressentimentos passivos' se transformarão em participação ativa?

De onde virá o grito de 'basta' contra os escândalos, a corrupção e o deboche que tomaram conta do Brasil? De São Paulo é que não será.

Esse grito exige consciência coletiva, algo que há muito não existe em São Paulo. Os paulistas perderam a capacidade de mobilização. Não têm mais interesse por sair às ruas contra a corrupção.

São Paulo é um grande campo de refugiados, sem personalidade, sem cultura própria, sem 'liga'.

Cada um por si e o todo que se dane. E isso é até compreensível numa cidade com 12 milhões de habitantes.

Penso que o grito - se vier - só poderá partir das comunidades que ainda têm essa 'liga'. A mesma que eu vi em Porto Alegre.

Algo me diz que mais uma vez os gaúchos é que levantarão a bandeira. Que buscarão em suas raízes a indignação que não se encontra mais em São Paulo.

Que venham, pois. Com orgulho me juntarei a eles. De minha parte, eu acrescentaria, ainda: 

'...Sirvam nossas façanhas, de modelo a toda terra...'

Arnaldo Jabor.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Canção do Exílio às Avessas

Minha Dinda tem cascatas

Onde canta o curió
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Minha Dinda tem coqueiros
Da Ilha de Marajó
As aves, aqui, gorjeiam
Não fazem cocoricó.


O meu céu tem mais estrelas

Minha várzea tem mais cores.
Este bosque reduzido
deve ter custado horrores.
E depois de tanta planta,
Orquídea, fruta e cipó,
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.


Minha Dinda tem piscina,

Heliporto e tem jardim
feito pela Brasil's Garden:
Não foram pagos por mim.
Em cismar sozinho à noite
sem gravata e paletó
Olho aquelas cachoeiras
Onde canta o curió.


No meio daquelas plantas

Eu jamais me sinto só.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Pois no meu jardim tem lagos
Onde canta o curió
E as aves que lá gorjeiam
São tão pobres que dão dó.


Minha Dinda tem primores

De floresta tropical.
Tudo ali foi transplantado,
Nem parece natural.
Olho a jabuticabeira
dos tempos da minha avó.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.


Até os lagos das carpas

São de água mineral.
Da janela do meu quarto
Redescubro o Pantanal.
Também adoro as palmeiras
Onde canta o curió.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.


Finalmente, aqui na Dinda,

Sou tratado a pão-de-ló.
Só faltava envolver tudo
Numa nuvem de ouro em pó.
E depois de ser cuidado
Pelo PC, com xodó,
Não permita Deus que eu tenha
De acabar no xilindró.

 (Jô Soares).

sábado, 29 de janeiro de 2011

Luiz Fernando Veríssimo sobre o "BBB"....

 Meus caros leitores, recebi por e-mail um texto que anda circulando pela internet, supostamente escrito pelo Luis Fernando Veríssimo que fala sobre o Big Brother Brasil (BBB), sendo ou não, resolvi publicá-lo, pois retrata o que de fato é, e representa este programa vil. Boa leitura.


 Crônica de Luiz Fernando Veríssimo sobre o "BBB"

"Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço... A décima terceira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil, encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.


Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 11 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB 11 é a realidade em busca do IBOPE.



Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 11. Ele prometeu um “zoológico humano divertido”. Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas. Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do “zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!).



Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.



Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.


Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?


São esses nossos exemplos de heróis?



Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), c arteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados. Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia. Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais
saudável e digna. Heróis, são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína, Zilda Arns). Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.


O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.


E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!! Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.



Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!).


Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.



Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.

Faleceu ontem a pessoa que atrapalhava sua vida...


Texto e Luiz Fernando Veríssimo.

Faleceu ontem a pessoa que atrapalhava sua vida...

Um dia, quando os funcionários chegaram para trabalhar, encontraram na portaria um cartaz enorme, no qual estava escrito:

"Faleceu ontem a pessoa que atrapalhava sua vida na Empresa. Você está convidado para o velório na quadra de esportes".

No início, todos se entristeceram com a morte de alguém, mas depois de algum tempo, ficaram curiosos para saber quem estava atrapalhando sua vida e bloqueando seu crescimento na empresa. A agitação na quadra de esportes era tão grande, que foi preciso chamar os seguranças para organizar a fila do velório. Conforme as pessoas iam se aproximando do caixão, a excitação aumentava:

- Quem será que estava atrapalhando o meu progresso ?
- Ainda bem que esse infeliz morreu !

Um a um, os funcionários, agitados, se aproximavam do caixão, olhavam pelo visor do caixão a fim de reconhecer o defunto, engoliam em seco e saiam de cabeça abaixada, sem nada falar uns com os outros. Ficavam no mais absoluto silêncio, como se tivessem sido atingidos no fundo da alma e dirigiam-se para suas salas. Todos, muito curiosos mantinham-se na fila até chegar a sua vez de verificar quem estava no caixão e que tinha atrapalhado tanto a cada um deles.

A pergunta ecoava na mente de todos: "Quem está nesse caixão"?

No visor do caixão havia um espelho e cada um via a si mesmo... Só existe uma pessoa capaz de limitar seu crescimento: VOCÊ MESMO! Você é a única pessoa que pode fazer a revolução de sua vida. Você é a única pessoa que pode prejudicar a sua vida. Você é a única pessoa que pode ajudar a si mesmo. "SUA VIDA NÃO MUDA QUANDO SEU CHEFE MUDA, QUANDO SUA EMPRESA MUDA, QUANDO SEUS PAIS MUDAM, QUANDO SUA  NAMORADA MUDA. SUA VIDA MUDA... QUANDO VOCÊ MUDA! VOCÊ É O ÚNICO RESPONSÁVEL POR ELA."

O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos e seus atos. A maneira como você encara a vida é que faz toda diferença. A vida muda, quando "você muda".

sábado, 14 de agosto de 2010

Descoberta da "burrocracia''.


Hoje, recebi o telefonema de uma agente do Cartório de Registros de minha cidade, ela informou-me que foram localizados documentos do Grêmio Estudantil, que há muito eram procurados. Tão logo recebi a informação, me dirigi até o referido cartório. Ao chegar, e após receber atendimento, fiquei de pé ao lado do balcão, aguardando um último documento, enquanto o fazia, observava os funcionários e até mesmo alguns clientes que ali estavam.
Duas funcionárias, sentadas atrás de suas mesas, faziam o que parecia ser um fechamento de caixa, já que uma contava algumas cédulas monetárias e algumas moedas, enquanto a outra parecia fazer contas no computador. Assim, dava a entender, que conferiam o resultado. Uma delas parecia estar preocupada com algo, levantou-se, entrou em uma sala que ficava à nossa frente, e pelo barulho, pareceu pegar algum documento em um armário de zinco, retornou à sala de atendimento, sentou-se novamente e desta vez com um semblante mais aliviado, retomou suas contas.
Muito me chamou a atenção os livros que estavam na sala em frente, que pareciam ser uma espécie de arquivo, já que lá constavam os livros de registros do cartório, os que mais se destacavam, eram os primeiros da fileira de cima da estante que se via uma parte de onde estava, eram livros de registro - diga-se de passagem, tudo muito bem organizado – aparentemente antigos, provavelmente ainda da década de 60. Mera suposição.
Já a minha direita, estavam mais duas funcionárias trabalhando, uma provavelmente checava dados no computador, enquanto outra procurava atentamente algo em um grande livro, que parecia ser um pouco velho. De repente, o telefone toca, e esta ultima atende, presta algumas informações e desliga; novamente o telefone chama, desta vez ela não atende, e escuto quando diz: “não agüento mais atender este telefone, chamou o dia inteiro!’’. Então, a funcionária que estava a seu lado, trabalhando no computador, atende, vira-se para o oficial de registros que estava em uma mesa atrás procurando um documento e fala à pessoa do outro lado da linha que torne a ligar depois de uns 20 minutos; o oficial, aparentemente “estressado’’ - assim como os ali presentes – diz que mandasse a pessoa ligar após uma hora, já que estava assaz atarefado.
Creio que todos os que ali estavam, pensavam no que ainda tinham para fazer, em especial os funcionários do Cartório que pareciam fisionomicamente cansados, pensavam provavelmente, também, no que iriam fazer após seu expediente, no seu lazer.
Então o oficial de registros levanta-se, pega a recém impressa folha, dirige-se a mim e a entrega (queria fazer alterações no documento que arrecadei, portanto pedi orientações); tão logo me entregou o documento, saiu apressado em direção a sua sala.
Saí do cartório, e caminhando pela rua, fui lendo o documento; quando terminei fiquei estarrecido com tamanha lista de documentos e certificações a providenciar para realizar uma simples alteração em um Estatuto. Não pediram uma amostra de DNA, porque a pessoa era jurídica.
Então fiquei a pensar se tudo aquilo era de fato necessário; queria saber o que era em teoria burocracia, encontrei a seguinte definição: “algo que tornasse a organização eficiente e eficaz, garantindo com ela: rapidez; racionalidade; homogeneidade de interpretação das normas; alcance dos objetivos etc. É... parece que não era burocracia e sim burrocracia, que nada mais é do que o excesso de normas e regulamentos, limitação de iniciativa, desperdício de recursos e ineficiência generalizada dos organismos estatais e privados, este entrave paralisa o país, sufocando qualquer chance de desenvolvimento.
Mas... o que esperar de uma política a qual é desenvolvida por políticos corruptos, que dá direitos excessivos ao bandido preso e mal garante a segurança dos cidadãos?
É o mais triste é saber que a culpa disto é dos eleitores, pois político não faz concurso público, ganha votos. E, sendo assim, pelo emprego deste sistema o Brasil é um país atualizado com Leis arcaicas.
É amigo leitor, a antiga burocracia tornou-se atualmente “burrocracia’’, quem diria que para fazer uma simples alteração em um documento que compete a mim, como mero cidadão, teria que fazer um longo processo jurídico, que poderia ter sido resolvido com mais agilidade e eficiência, se ao invés de preencher tantos documentos e cumprir inúmeros protocolos, eu simplesmente fizesse uma petição... Mas, na minha cidade, assim como no restante do país é assim mesmo, uma “burrocracia’’ infindável.


Farias, M. S. "Descoberta da 'burrocracia'". Agosto de 2010. www.livredialogo.blogspot.com
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