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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Texto fora de contexto vira pretexto

Eu sou Católico Apostólico Romano, busco sempre estudar os dogmas e a História da Igreja. Reconheço o passado lamentável e, sempre que ouço alguém falar mal da Igreja, costumo observar: "texto fora de contexto vira pretexto". É indiscutível que a Inquisição foi algo tétrico, uma verdadeira nódoa na história da Igreja e do Mundo. Mas, sempre que a recordarmos devemos avaliar o contexto histórico-social em que ocorreu: uma sociedade ainda bastante “primitiva”, por assim dizer; sob a forte influência do paganismo - facilmente observado nas superstições e crendices da época; um clero inebriado pelo poder secular que acabou corrompendo toda a Igreja. Muitos Papas durante a Idade Média eram indignos da posição, sujeitos às vontades dos poderosos - isso foi horrível para a instituição religiosa, que se tornou cada vez mais secular e política. Acho interessante mencionar, não com a intenção de dar algum crédito positivo à Inquisição, pois tal é quase impossível, que a Igreja somente adotou a Inquisição quando o catarismo ganhou força. Os cátaros chegaram a criar templos e escolas próprios durante a Idade Média. Acontece que, o catarismo com seu ideal de "pureza" influenciava o suicídio como forma de "libertar a alma pura do corpo impuro". Eles acreditavam - pelo que me lembro de ter visto no livro "Para Entender a Inquisição", do professor Felipe Aquino - que as almas eram Divinas, porém, aprisionadas em corpos que pertenciam ao ser maligno, por isso, o suicídio era uma forma de libertação. Foi a partir daí, somado a ascendência de outras linhas de pensamento divergentes, que a Igreja instituiu a Inquisição conforme sabemos. Os tribunais inquisitoriais, segundo o livro supracitado, eram considerados "mais justos" que os seculares, pois, garantiam alguma forma de investigação e “defesa” do acusado – ainda que muito precárias e por vezes arbitrárias -, embora adotassem, a partir de determinado momento, os métodos do tribunal civil - as torturas. Os tribunais inquisitoriais ainda permitiam que os acusados confessassem sua culpa e recebessem penas “leves”, ao contrário do tribunal civil que muitas vezes condenava com base apenas na acusação – sobretudo se partisse de um nobre.  A Igreja, por outro lado, determinou o fim dos ordálios e das justas. Portanto, concordo que a Igreja foi dualista em seu passado: ela proibiu certas práticas seculares, porém manteve o Tribunal do Santo Ofício – que ia de encontro a suas leis e princípios, tais como: “não matarás”; não se deve julgar”; “não se deve jurar”, etc.

Seja como for, não devemos julgar a Igreja de hoje com base no ontem. Ela mudou muito; hoje ela vive seus dogmas, sua leis, pratica o que prega, e é a maior defensora da vida! É considerada a maior instituição de caridade do Mundo! Mantendo na Ásia: 1.076 hospitais, 3.400 dispensários, 330 leprosários, 1.685 asilos, 9.900 orfanatos, 2.960 jardins-de-infância; Na África: 964 hospitais, 5.000 dispensários, 260 leprosários, 650 asilos, 800 orfanatos, 2.000 jardins-de-infância; Na Europa: 1.230 hospitais, 2.450 dispensários, 4 leprosários, 7.970 asilos, 2.370 jardins-de-infância; Na América: 1.900 hospitais, 5.400 dispensários, 50 leprosários, 3.700 asilos, 2.500 orfanatos, 4.200 jardins-de-infância; Na Oceania: 170 hospitais, 180 dispensários, 1 leprosário, 360 asilos, 60 orfanatos, 90 jardins-de-infância. No entanto, não divulga suas obras de caridade, seu trabalho, pois acredita que caridade sem humildade é vaidade. “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita”. “Faça o bem sem olhar a quem”. Além de tudo isso existe as diversas pastorais que atuam em todas as áreas sociais, pelo mundo a fora.  É uma pena que a grande maioria das pessoas – e mesmo alguns “católicos” – julguem apenas o superficial: os prédios da Santa Sé, as catedrais góticas, os adornos – fruto de séculos de história e patrimônio cultural da humanidade; que mirem somente o passado, que estejam tão presos ao rancor, no texto fora de contexto que são incapazes de ver a Igreja de hoje, de contemplá-la em sua essência: humilde, caridosa, na luta pela paz entre os homens, pela preservação da vida - neste mundo e no outro.

Sobre as “riquezas” da Igreja veja este artigo: "A riqueza sagrada de ser humilde".

Seu papel (da Santa Igreja) na História da humanidade, na construção de nossas sociedades, de nossas culturas é indelével e fundamental. Será uma lástima se um dia ela não puder mais manter suas obras de caridade, não tiver mais condições de se manter por falta de fiéis, de ajuda do povo, afinal, ela vive de caridade e para a caridade, essa é a missão da Igreja de Cristo. Diferente de outras igrejas em que os “pastores” ganham de 4 a 22 mil, os padres ganham o necessário para manterem-se; muitos religiosos católicos, senão todo o clero faz voto de pobreza.

Quando dizemos que a Igreja é Santa, nos referimos à Instituição criada por Cristo, puramente, afinal, se vem de Cristo, de Deus, ela é santa; não nos referimos aos homens que a dirigem. A Igreja como algo Divino, vindo do próprio Deus é santa, é pura. O erro é uma condição humana, todos estão sujeitos a errar e, quem nunca errou que atire a primeira pedra. O relevante é o que se faz para redimir o erro, para consertá-lo. 




"Te Deum" (canto gregoriano)
"Hino e Marcha Pontificial"  (Hino da Cidade-Estado do Vaticano)

Farias, M. S. "Texto fora de contexto vira pretexto." Fevereiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A renuncia do Papa

“Tu es Petrus et super hanc petram ædificabo ecclesiam meam et portæ inferi non prævalebunt adversus eam. Et tibi dabo claves regni cælorum.”
“Chegando ao território de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: “No dizer do povo,  quem é o filho do homem?” Responderam: “Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas” Disse-lhes Jesus: “E vós quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo!” Jesus então lhe disse: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevaleceram contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mt. 14, 13-19).
Raio atinge a Basílica de São Pedro horas após a renuncia .
Dia 11 de fevereiro, nós do Grupo Paroquial de Jovens aguardávamos na sede da Igreja Matriz de nossa cidade a chegada de nossos irmãos da cidade vizinha, os quais fazem parte da Pastoral da Juventude, e que passaram o dia conosco. Foi um dia de alegrias, de prática da fé. Mas, foi esta data também um tanto triste: O Vigário de Cristo abdicou.
A decisão de Bento XVI tomou-nos de assalto; sem dúvidas abalou todo o mundo, mesmo aqueles que não professam o catolicismo. Logo ele, um homem conservador, determinado, proceder algo que há 600 anos não ocorria: renunciar depois de eleito e de exercer o ministério pontifício.
Eu, como católico que sou, estou bastante consternado com a notícia, afinal, como disse certo bispo: “não se desce da cruz”. Não se sabe ainda como ficará a questão de se “transferir” tamanha autoridade e simbolismo para outro eleito. Será um tanto “estranho” possuirmos um “ex-papa” e um papa. Estamos habituados a ver o Vigário de Cristo exercer a liderança da Santa Igreja até a campa; de seguirem-se dias de luto e de vacância da cátedra de São Pedro, de conclave reunido à escolha de um novo Sumo Sacerdote, escolhido por Deus, através da inspiração do Espírito Santo nos membros do colégio cardinalício.
Bento XVI é um intelectual, um homem sábio, douto, porém muito humilde; cônscio de sua condição de servo de Deus, e também de sua responsabilidade enquanto pontífice. Embora não tenha recebido da população o mesmo apreço de seu antecessor, o amado Papa Beato João Paulo II, Ratzinger teve seu reconhecimento e apreciação por parte de intelectuais do mundo inteiro, indistintamente da profissão de fé ou crença e também por parte da Juventude.
O santo Padre, Bento XVI, renunciou à sua missão. Sabemos que o papado é uma responsabilidade muito grande, uma tarefa para poucos, para os escolhidos da Providência; buscamos compreender ao Vigário de Cristo, ainda que muito nos entristeça sua decisão, sabemos que o fez com alguma dor no coração; que fê-lo pelo bem único e maior que é a Igreja, para que ela siga sempre, de forma tenaz, no caminho da verdade, da vida, da luz, de Cristo: fundador da Una e Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Aguardamos ansiosos, como filhos de Deus e da Igreja, que a Providência Divina, através do Conclave, cheio do Espírito Santo, nos designe um novo papa.
 Somente quem é grande de espírito, de coração, de sabedoria, mas, ao mesmo tempo humilde, é capaz de tomar grandes decisões; de reconhecer suas fraquezas e limitações. Somente me resta dizer, Santo Padre, parabéns pela Vossa coragem. Não é sem tristeza que acolhemos Vossa decisão, não obstante, a Juventude Católica permanece ao Vosso lado, apoiando-o em cada decisão.
Uns pelos outros e Deus por todos!

São Celestino V foi papa, santo e também renunciou por motivos de saúde. Recentemente Bento XVI afirmou em entrevista que se um papa não é capaz de cumprir seus deveres como papa, deveria deixar o cargo. Provavelmente viu no exemplo de São Celestino a confirmação de que a renúncia de um cargo pontifício não significa aversão a vontade de Deus. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, já noticiou que após um breve período em Castel Gandolfo, Bento XVI irá se recolher num mosteiro de clausura. Mais uma semelhança com São Celestino V, que também renunciou ao papado para terminar seus dias em oração dentro de um mosteiro. Quiçá as semelhanças entre Celestino V e Bento XVI não parem por aí: que seja Bento XVI santo como Celestino!


Farias, M. S. “A renuncia do Papa”. Fevereiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com/
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domingo, 27 de janeiro de 2013

Nossas sinceras condolências à cidade de Santa Maria - RS

   Que Deus ampare a essas mães, a essas famílias que sofrem. Que Maria, Nossa Mãe Santíssima, acolha em Seu manto as mães sofredoras, pois Ela própria um dia já sofreu ao pé da Cruz pelo seu Filho amado, sabe como é ter o coração despedaçado. Rezemos pelos nossos irmãos que partiram e por suas famílias.

   Sejamos solidários, pratiquemos nossa humanidade partilhando da dor de quem perdeu um ente amado. Não consigo conceber que alguém seja tão desumano e desalmado a ponto de não se condoer com tamanha tragédia.

    A equipe do Diálogo Livre está profundamente sensibilizada, triste com este nefasto ocorrido. Desejamos a todos muita força, muita fé em Deus...



Diálogo Livre.

Diálogo Livre.




quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Criacionismo X evolucionismo: a posição da Igreja.

Há algum tempo, no blog da senhorita Alice, uma das parceiras do Diálogo Livre, havia uma postagem relacionada à fé em torno da qual surgiu um debate. Abaixo minha contribuição à conversa:


"Professo a fé Católica Apostólica Romana, e sempre tive, a princípio, certa dificuldade em compreender certos dogmas - ainda hoje tenho, mas aos poucos os vou compreendendo, à medida que melhor conheço a Igreja. A questão da criação do mundo sempre foi um tanto polêmica. Há muito que a Santa Sé deixou de considerar como verdade suma a respeito desse tema, a interpretação literal do gênese. Existe, naturalmente, dentre nós católicos, aqueles que defendem, ou melhor, que preferem acreditar unicamente no criacionismo, que Deus criou o mundo e todas as coisas em seis dias e no sétimo descansou. Todavia, o Vaticano, pelos estudos de seus doutos teólogos, e pela pessoa de Sua Santidade, entende que, é possível que a teoria do Big Bang e do evolucionismo de Darwin sejam corretas, porém, dentro de uma visão teologal, onde Deus é centro e o criador de tudo. Para a Igreja, a narrativa do gênese é, como posso dizer?, uma narrativa pouco detalhada, algo, talvez, um pouco alegórico, uma breve explicação sobre a criação. Esses seis dias a que se refere, em se tratando de Deus, podem corresponder há milhões, bilhões, trilhões de anos, afinal, o tempo como hoje o conhecemos é uma criação humana; o tempo de/para Deus é outro, Ele é atemporal, havendo assim, a possibilidade da existência da era glacial, da evolução etc., mas tudo feito por Deus segundo a Sua vontade. Não descartamos, entretanto, que Deus possa, simplesmente, ter determinado a criação exatamente como consta em gênese, afinal, sendo Ele a força maior, suma de todo o Universo, tem mais que poder fazer tudo isso. Fica, portanto, a cada católico acreditar na teoria que melhor lhe parece, desde que, Deus seja sempre o centro-criador de tudo.

Eu, subjetivamente, acredito na teoria do Big Bang e do evolucionismo, mas claro, tendo Deus como criador único do Cosmos. Certa vez, li não me recordo onde, que certo cientista teria afirmado que, se Deus não existe e tudo fosse apenas Física, Química e Biologia como dizem alguns cépticos críticos do criacionismo, então nada teria forma exata, afinal, se agrupariam de qualquer maneira; somente uma força maior seria capaz de criar, de forma tão perfeita, o mundo e os seres.

“O universo não é um caos ou o resultado do caos. Pelo contrário, ele aparece cada vez mais claramente como uma complexidade ordenada que nos permite, através da análise comparativa e da analogia, passar da especialização para um ponto de vista mais universal e vice-versa. [...] O pensamento cristão tem empregado a analogia não só para a investigação das realidades mundanas, mas também como meio de se elevar da ordem da natureza criada à contemplação do Criador. [...]Estou convencido da necessidade urgente de um diálogo e cooperação permanentes entre os mundos da ciência e da fé, para construir uma cultura de respeito pelo homem, pela dignidade humana e pela liberdade, a bem do futuro da nossa família humana e para um desenvolvimento sustentável, a longo prazo, do nosso planeta.” (Sua Santidade Papa Bento XVI).

"A fé e a razão são as duas asas com as quais o espírito humano alça voo para contemplar a verdade". (Beato Papa João Paulo II).

Apenas para deixar claro: a Igreja não se está contradizendo. Dentro do que nos diz a Bíblia Sagrada, a Santa Igreja concebe, aceita a existência de teorias como a do Big Bang e do evolucionismo, porém, ligadas diretamente à teologia, ao criacionismo, onde Deus é o centro, o criador e verdade suma do Universo, o Todo-Poderoso".

Farias, M. S. "Criacionismo X evolucionismo: a posição da Igreja". Janeiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Urbi et Orbi: para o Estado e o Mundo.



Sancti Apostoli Petrus et Paulus: de quorum potestate et auctoritate confidimus ipsi intercedant pro nobis ad Dominum.
R/ Amen.
Precibus et meritis beatæ Mariae semper Virginis, beati Michaelis Archangeli, beati Ioannis Baptistæ, et sanctorum Apostolorum Petri et Pauli et omnium Sanctorum misereatur vestri omnipotens Deus; et dimissis omnibus peccatis vestris, perducat vos Iesus Christus ad vitam æternam.
R/ Amen.
Indulgentiam, absolutionem et remissionem omnium peccatorum vestrorum, spatium verae et fructuosae poenitentiæ, cor semper penitens, et emendationem vitae, gratiam et consolationem Sancti Spiritus; et finalem perseverantiam in bonis operibus tribuat vobis omnipotens et misericors Dominus.
R/ Amen.
Et benedictio Dei omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.
R/ Amen.

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Que os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, em cujo poder e autoridade temos confiança, intercedam por nós junto ao Senhor.
R / Amém.
Que por meio das orações e dos méritos da Santíssima Virgem Maria, de São Miguel Arcanjo, de São João Batista, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos, Deus todo-poderoso tenha misericórdia de vós, perdoe os vossos pecados e vos conduza à vida eterna em Jesus Cristo.
R / Amém.
Que o Senhor Todo Poderoso e misericordioso vos conceda indulgência, absolvição, e remissão de todos os vossos pecados, em tempo para uma verdadeira e frutuosa penitência, sempre com coração contrito, e a benção da vida, a graça, a consolação do Espírito Santo e perseverança final nas boas obras.
R / Amém.
E que a bênção de Deus Todo Poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça sempre.
R / Amém.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Diálogo de uma freira com um livre pensador


Sumário: Entrevista que com uma freira de certo convento, prestes a ser profanado, teve um jornalista que se julga livre-prosador.
O que se vai ler é o diálogo ultimamente travado entre uma freira, abadessa ou priora de certa comunidade, nesta capital, e um jornalista que entendeu oportuno entrevistá-la.

Freira — Diz o senhor que tem qualquer cousa a tratar comigo. Pode falar.

Jornalista — Reverenda madre, eu quisera obter informações que me habilitassem a escrever com acerto sobre o seu convento, e dele dar ao público uma notícia que não se apartasse da verdade.

F. — Notícia ao público! E que temos nós com o vosso público, isto é, com o mundo de que voluntariamente nos afastamos, cortando até mesmo os laços de família que a ele nos prendiam?

J. — Não ignoro que menosprezais o mundo, mas não é menos certo que ele vos não menospreza e que se ocupa convosco. Vossa existência murada é um incentivo para a curiosidade. Por trás das chapas e das grades farejamos uns mistérios que ardemos por descobrir. Neste século de publicidade tendes o atrativo do que se recata e esconde. Natural é, pois, a trêfega indagação que ao redor desta casa vagueia, e da qual nós, os homens de imprensa, somos os órgãos naturais. Não seria, pois, preferível dizer-lhes logo o que é, por não deixarmos lugar a conjecturas talvez errôneas e nocivas?

F. — Se assim é como dizeis, o que de melhor poderíeis fazer seria explicar-lhe, ao vosso público, que por trás destes muros e nesta associação religiosa não há outros mistérios senão os da nossa religião, exarados no catecismo. Como vivemos e o que fazemos consta, outrossim, da nossa regra monástica, que muitas vezes se tem publicado.

J. — O público, ou, se preferir, o mundo não pode compreender por que, quando em torno de vós tudo se move e se agita, assim persistis na imobilidade do claustro.

F. — Não me pareceis lógico afirmando a nossa imobilidade, quando há pouco parecíeis de todo ignorar qual o nosso gênero de vida; e singularmente vos enganais acreditando que vivemos ociosas. Ainda mesmo supondo que não trabalhemos materialmente, o que não é bem verdade, ainda assim grande e importante seria a nossa tarefa. As mãos que se erguem para o céu fazem um imenso trabalho: não foi um santo, mas um dos vossos, Victor Hugo, quem o escreveu nos Miseráveis.

J. — Muito folgo, reverenda madre, que me citeis, não padres da Igreja, que não leio, mas pensadores profanos, o que mostra que os tendes lido, ao menos alguns, e isto nos abre um terreno, conhecido por nós ambos e em que sem constrangimento nos poderemos encontrar.

F. — Antes de professar li o que intitulais pensadores profanos, e estimo que isso vos traga qualquer vantagem para nos entendermos. Permiti, porém, que assinale uma das vossas fraquezas habituais. De ordinário, em vossa profissão de jornalista, quando, por exemplo, tendes de atacar a administração militar, procurais livros e autores que especialmente se ocupem da matéria. Tratados de ciência naval não faltariam na vossa biblioteca se tivésseis de escrever sobre marinha... Mas como é que todos discutis assuntos religiosos, sem conhecer ao menos os rudimentos da fé e da disciplina católica? Não falaríeis, certamente, sobre a literatura francesa do século décimo oitavo sem leitura de Voltaire; e vós mesmos, que vos propondes escrever sobre a vida monástica, jamais tendes lido um dos bons tratadistas que vos diriam o que ela seja!

J. — De boa mente confesso que aí não vos falta alguma razão, desde que a censura se dirija a mim, ou a qualquer outro publicista de penúltima classe; mas não acredito que seja fundada em relação aos verdadeiros cientistas.

F. — Haeckel, verbi gratia, o emérito propugnador do monismo, não o tendes por cientista às direitas? Pois bem, ainda outro dia ele assombrava o mundo religioso, revelando, em uma polêmica, a mais estupenda ignorância dos dogmas católicos, por isso que confundia a Encarnação do Verbo com a Imaculada Conceição de Maria. Os vossos governos, aliás, fomentam essa ignorância, proibindo que em país de católicos se ensine a doutrina católica.

J. — Isto se faz para assegurar a liberdade de consciência.

F. — Perdão: então não apanhastes o meu argumento, ou antes fui eu quem não se fez compreender. O que digo é que, independentemente de qualquer intimativa, coação ou sedução religiosa, a doutrina cristã deveria ser ensinada em vossas escolas como elemento essencial e indispensável para a compreensão da atual ordem de cousas, da civilização ambiente. Que fazeis para entender a vida grega e romana? Ler e reler a Cité Antique, de Fustel de Coulanges, ou qualquer outro autorizado especialista. Em Constantinopla, nada entenderíeis da cidade otomana e de seus usos, se de todo estranho vos fosse o Alcorão. Pois bem! viveis em uma sociedade católica — eis o fato — e sonegais aos vossos alunos o único livro que lho poderia explicar.

J. — Percebo agora, reverenda madre, a força de vosso raciocínio, e não vos negarei que, conquanto especioso, não acho de pronto com que o refutar. E igualmente vos dou o parabéns pela agudeza dialética que exibis e que, com franqueza, não pensava encontrar neste retiro, onde fora de supor que no misticismo se embotasse o gume da razão.

F. — A devoção mais fervorosa não é incompatível com o cultivo das letras; e, se acaso vos não tivera esquecido a história literária, bem presente vos seria a nossa matriarca Santa Teresa de Jesus, cujas obras ao mesmo tempo exornam a literatura sacra e enaltecem a prosa e a poesia espanholas do século décimo sétimo.

J. — Teresa de Cepeda e Ahumada foi, reverenda madre, um poderoso engenho sobre-excitado pela histeria, e que, excepcional em tudo, não pode ser trazido como regra.

F. — Nem eu vos digo que Santa Teresa deva ser tomada por espécime comum da intelectualidade monástica; da mesma sorte que para espécime da vossa inteligência há fora, no mundo, erradamente se apontariam extraordinários intelectos. Na canonização de Santa Teresa, em 1622, Cervantes compôs uma ode, que foi lida por Lope de Vega. Ora, entre vossos romancistas e dramaturgos não vejo quem com esses dois vultos possa suportar o confronto.

J. — Está bem, reverenda madre, e peço que a mal não tomeis aquilo que me escapou no tocante à histeria: falo como homem do meu século, ao qual repugna o sobrenatural.

F. — Duplo engano, meu filho. Em primeiro lugar não há confundir histeria com o que chamais a exaltação da nossa santa. Vossos hospitais estão cheios de histéricas, e é singular que lá esse estado nervoso só conduza a disparates e loucuras, ao passo que na monja incomparável tão acima se elevou das melhores capacidade contemporâneas. Sei que há uma escola, ou antes, um grupo, para o qual todo gênio é uma enfermidade mental. Napoleão foi um epiléptico... Quero crer que o perfeito equilíbrio mental seja para esses tais a mais pacata mediocridade; e neste sentido lhes concedo que hoje tantos se exibam perfeitamente equilibrados.

J. — Este seria o meu primeiro erro; e o segundo...

F. — O segundo é supordes que ao vosso século repugna o sobrenatural. Pura ilusão! Sobrenatural e preternatural (que não são o mesmo) coexistem convosco, e neles estais e viveis imersos. O milagre permanente de Lourdes desafia todos os dias os vossos cientistas, que, não podendo negar os fatos, só têm para explicá-los uma palavra: — sugestão. O preternatural? Mas acaso ignorais que nesta cidade, quotidianamente, se evocam mortos, e milhares de pessoas, aos torvos de espíritos que por eles se apresentam, pedem o segredo da saúde e o da felicidade terrena, com sacrifício da futura? Nunca, eu vo-lo asseguro, nunca tão impregnado de sobrenatural e de preternatural esteve quanto agora o gênero humano. Nesta crise de fé, Deus amiúda os milagres, e para derribar a inconsistente fábrica do materialismo estavam reservadas aos nossos tempos as experiências dos ocultistas.

J. — Consenti, reverenda madre, que vos observe estarmos já muito longe do objeto que me induziu a importunar-vos. Não me dais licença para visitar agora o convento?

F. — Não. Vê-lo-eis depois, quando o tivermos deixado aos profanadores que dele vão fazer um hotel, segundo ouço dizer¹. Onde se rezava, há de haver festins e dissoluções... Tanto pior para vós! Nós continuaremos ociosas, como dizeis, ou trabalhando, como dizia Victor Hugo, com mãos e olhos alçados para o céu, que é donde baixa a complacência para os que oram e a misericórdia para os que pecam.

J. — Não receais que, mal guiada por vossos inimigos, à opinião se transvie a vosso respeito?

F. — A opinião? Não a conhecemos nem a tememos. Costumais lamentar, e quero crer que sinceramente, a privação de liberdade que nos impusemos... Mas acabais de proferir o nome de um tirano a cujo domínio estamos subtraídas: — a opinião. Dela tremeis todos, desde o primeiro magistrado da República até o último cidadão: e nós impassíveis a afrontamos, melhormente eu diria — nem sequer a avistamos. Morrem às nossas portas essas ondas lodosas que chamais escândalo. Nossos caluniadores, não podemos pessoalmente amá-los, pois não sabemos quem sejam, mas todos os dias rezamos por eles, de ordem expressa de Jesus: Orai pelos que vos perseguem e caluniam.

J. — Mas, se indiferente vos pode ser o aleive em circunstâncias normais, haveis de convir que em quadras agitadas ele pode motivar o esbulho, o desacato, a violência...

F. — Escutai, meu filho. Quando o sacrifício se faz martírio, tanto maior a graça de Nosso Senhor. lede a história da revolução francesa, e lá encontrareis, em um dos capítulos do terror, a execução das carmelitanas de Compiègne. Morreram contentes, entoando o Te Deum. A priora, uma nobre velha, reservara-se para o fim, não por prolongar de minutos a existência, mas para confortar com sua presença as mais novas, entre as quais algumas na flor da juventude. Morreram todas como os mais bravos dentre os homens! Se em uma de vossas revoluções, que tão amiúde se sucedem, alguma se lembrar de nos bater à porta, achar-nos-á junto do altar; e deste para o céu o caminho é curto, ainda que seja através do apupo e do martírio.

J. — Ninguém, felizmente, em nossa terra, reverenda madre, pensa em prejudicar-vos e menos ainda em perseguir-vos. A tolerância é um dogma da verdadeira democracia...

F. — Sei disso... Vós, por ora, nos tolerais como quem tolera o vício ou o desvairo das ruins paixões. Seja como for, será o que Deus quiser! Se nos tolerardes, como nos Estados Unidos, havemos de conquistar mansa e irresistivelmente as consciências; se nos perseguirdes, como na França e em Portugal, por nós clamarão, diante de Deus, a ignomínia e os sofrimentos a que nos submeterdes.

J. — Mais ou menos o que havemos dito formaria um artigo interessante, pela pintura de dois estados d'alma tão diversos quanto o vosso e o meu. Não haveria, talvez, mal em publicá-lo... E, neste caso, não me fixareis algum ponto, que particularmente desejareis que se soubesse?

F. — Sim. Dizei lá fora que, com amor fraterno, nós vos amamos a todos — aos que nos defendem e protegem, bem aos que nos injuriam e detraem... Dizei-lhes que a nossa prece é uma catedral que não se acaba, e que nas ogivas destas mãos continuamente alçadas há o labor de uma construção que não percebeis, porque não olhais para o céu!



1. Segundo indica este trecho, o convento onde se teria dado este suposto diálogo seria o da Ajuda, em cujo terreno foi construída a atual Cinelândia, no Rio de Janeiro.


Texto recebido por e-mail, desconheço autoria e veracidade.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A Riqueza sagrada de ser humilde.

O diálogo que segue é verídico e ocorreu na rede social Facebook entre amigos, que fique claro. Para evitar a exposição dos envolvidos, nomes e dados que possibilitassem a identificação foram removidos. O "Diálogo Livre" pede, no entanto, que  se este material for utilizado, seja citada referência à livredialogo.blogspot.com nos termos expressos ao final desta postagem. Outrossim, que não haja intolerâncias em possíveis comentários. Grato pelo entendimento, Farias, M. S. 

***

Padre: Colocar este tipo de comparação não tem nenhum sentido... Devemos colocar o que temos de bom ou até de melhor para o culto de Deus. Só assim nossas consciências se abrem para o transcendente e para o infinito e não nos fechamos na nossa mesquinhez... Devemos viver a pobreza real na vida pessoal, sem colocar o que sobra para o culto de Deus. Assim vive o Papa e viveram todos os amigos de Deus. Só assim ajudaremos verdadeiramente os pobres.
Clique sobre a imagem para ampliá-la.

Leigo: O problema, padre, é que as pessoas não veem assim. Eles veem ouro adornando a Igreja que prega a partilha, a ajuda ao próximo. Elas veem a Igreja de Cristo dona de valores altos, rica, e sabem que Jesus viveu humildemente. Elas querem mais que simplesmente palavras, querem ação. O que de melhor podemos oferecer a Deus senão nossos corações sinceros? Ouro não teria tanto valor se existisse em toda parte, seria apenas mais um metal qualquer. Ajudar ao semelhante, salvar uma vida abnegando a sua é algo de um valor imensurável. 
Sou Católico, amo a Igreja que sigo e a defendo quando vejo lhe acusarem, mas há certas coisas que são difíceis de compreender. Às vezes pergunto-me se esse conceito de "colocar o que temos de bom ou até de melhor para o culto de Deus" no sentido material não fez com nos desviássemos de nosso verdadeiro caminho, pois o que de melhor podemos empregar senão o coração sincero, a ajuda ao próximo que sofre?
Sei que os governos têm suas responsabilidades, que a Igreja ajuda que já chegou a fechar as contas em vermelho e tudo mais, mas há sim, mesmo que pouco, um fundo de verdade nessa imagem. E digo mais, não é apenas a Igreja Católica que merece um "puxão de orelhas" como esse da imagem, outras tantas também deveriam ser criticadas.

Padre: Não consigo concordar com esta visão, caríssimo amigo, pois a que se gasta no culto, por melhor que seja é completamente irrisório. Não faria sentido que tivéssemos artigos de segunda qualidade no culto divino e de primeira em nossas casas. Quando seguimos por este caminho nos tornamos mesquinhos. Os maiores santos que atenderam como ninguém os pobres, a saber, um São Francisco, uma Madre Tereza de Calcutá esforçavam-se na sua pobreza em ter na capela de suas casas religiosas artigos de primeira para dar glória a Deus. Uma coisa não vai contra a outra. O que devemos cuidar é do nosso egoísmo. Geralmente quem acusa a Igreja disto não entende o amor dos cristãos por Deus e sua centralidade em nossas vidas. E me pergunto o que estes acusadores mal intencionados fazem pelos pobres. É minha visão, querido amigo. Posso estar errado, mas não consigo enxergar de outra forma. Grande abraço.
Ademais cabe outra colocação: poderíamos nós vender a Matriz de nossa cidade para ajudar os pobres? Seria realmente ajuda os pobres acabar com este prédio de uso para o culto de Deus, tornando de uso comercial, para que sua renda fosse revertida aos mais necessitados? Sempre que Deus saiu do centro da vida humana a vida humana foi pisoteada.

Leigo: Padre, acredito que o senhor não tenha compreendido minha observação. O que critico são os exageros. Há realmente a necessidade de expressarmos nossa fé, nosso amor, por meio de coisas materiais? Não. Deus, acredito eu, leigo que sou, não distingue a adoração feita num templo belíssimo de uma feita no mais humilde dos recantos, Ele observa a pureza, a verdade, a fé que há nelas.
Não estou dizendo que se deveria vender a Santa Sé. De forma alguma.
Desculpe se estou sendo petulante, vendo as coisas por um ângulo errado, mas não consigo entender algumas coisas.
E acho que, isso se aplica não apenas a Igreja, mas a seus seguidores também.

Padre: Mas vamos lá, gosto de debates nestes temas cruciais. Não consigo ver exagero verdadeiro nas obras e objetos de culto da Igreja. Tens toda a razão, mas se pudéssemos dar para Deus algo bom e não déssemos e pelo contrário usássemos pessoal e egoisticamente, estaríamos sendo puros, verdadeiros e coerentes com o que acreditamos?

Leigo: Se pudéssemos dar e pelo contrário usássemos egoisticamente, então é por que não temos fé. Agora me responda: como realmente podemos dar esse algo bom a Deus senão utilizando-o em favor de um semelhante que sofre, que muitas vezes não tem sequer o que trajar, quanto mais o que comer?

Padre: Para entender esta prática milenar dos cristãos em dar o melhor para Deus (aliás, como foi feito aqui em nossa cidade, quando os cristãos construíram com o melhor prédio, no lugar mais central da cidade para Deus) é preciso entender a partir de uma fé viva, prática e de um amor verdadeiro e enamorado. Como um namorado vai convencer sua amada que a ama quando dá presentes sem valor para ela e gasta em coisas supérfluas para si e para outras pessoas?

Leigo: Padre, sentimentos são imateriais.

Padre: Não dá para contrapor culto de Deus e ajuda aos pobres, nunca a Igreja os contrapôs: são duas faces da mesma moeda, completamente inseparáveis.
São sentimentos imateriais, mas que necessariamente devem ter repercussão material. Quando aquela mulher no evangelho esbanjou com um óleo caríssimo sobre o corpo de Jesus, Judas Iscariotes reclamou dizendo que se poderia dar aquele valor para os pobres. Jesus defendeu o gesto cheio de amor daquela discípula...

Leigo: Sim, eu sei bem disso. O problema é que ao longo dos séculos nós nos fomos desviando do caminho. Quando surgiu a Igreja, não havia Vaticano, papado propriamente instituído como hoje, não havia ouro. Jesus viveu humilde, não precisou de ouro, mármore, nem nada material para demonstrar seu amor ou propagar seus ensinamentos. Pedro abnegou-se, cumpriu sua missão transmitindo as palavras de Cristo e não precisou de nada material para mostrar a Deus, a Cristo que os amava.
Não acho errado a Igreja ser adornada. Acho-a bela. O que não me conformo é com os exageros. Para que tanto luxo, tanta ostentação ao passo que muitos sofrem sem um centavo?
Será que realmente não nos tornamos gananciosos ao longo dos séculos?

Padre: Bem Papa sempre existiu. Viver pobremente como Cristo é uma coisa, agora tratar as coisas que se referem a Deus de maneira miserável com a desculpa de dar para os pobres não parece haver sentido, pois dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e repito necessariamente. Temos que viver a pobreza, não esbanjar, pensar nos outros e naquilo que mais toca em Deus aqui na Terra, sobretudo quando se trata da Eucaristia. Cuidar do culto de Deus está bem longe de ser ganancioso muito pelo contrário. A Igreja, isto sim, não deve ter prédios, campos, carros que não sejam estritamente para a evangelização e para o cuidado dos pobres ou ainda que sirva para a cultura da humanidade. Nada que seja supérfluo.

Leigo: Padre, eu sei muito bem que a Igreja trabalha em obras humanitárias. Já cheguei a discutir gravemente com amigos defendendo a postura da Santa Sé. No entanto, acho que expressar a fé em coisas materiais deixou há muito de ser uma necessidade e, tornou-se, talvez, a única representação da fé de muitos. Quando falei da ganância dentro da Igreja, não me refiro somente ao uso de materiais preciosos a todo de ornamentação, mas também das disputas internas que vem desmoralizando-a, a ponto de documentos sigilosos que comprometem a imagem da Igreja vazarem supostamente por ação de membros da Cúria. Isso me parece pouca fé e muita ganância.
Como católico que sou, fico muito entristecido ao ver a Igreja que amo e sigo metida em escândalos, adotando posições que muitas vezes se chocam com seus ideais.

Leigo 02: Acho que dar o melhor pra Deus (dourar coisas, por exemplo) é típico de qualquer cultura seja ela cristã ou não. É simples e não precisa pensar muito: quando você vai dar algo a alguém que preza muito, você dá qualquer coisa e ela que entenda, ou você, ainda que através do material, tenta dar algo de estima, belo, marcante? E imagina isso numa relação com o Deus? Não é elevado à máxima potência? Por isso é normal e é do homem ornar templos, tentar imitar através da arte (música, por exemplo) aquilo que dentro de seu imaginário, mas também dentro do seu simbólico interno representa Deus.

Leigo: Sou católico porque creio e respeito a religião e seus dogmas, no entanto, há certas coisas que eu não consigo compreender, como já disse antes.

Leigo 02: Agora isso não tem nada a ver com o mau comportamento dos cristãos ou de outras religiões ou ate de ter/não ter religião: um mendigo pede uma esmola na porta da Igreja: isso é culpa sua ou da Igreja? Ou é culpa de quem? É o ouro da Igreja, ou de uma cidade inteira que vai resolver? Com certeza não... Ouro nenhum no mundo pode resolver o HOMEM. O problema não esta fora nos bens, dentro do homem.

Padre: Bem. Deus se encarnou, e, portanto a matéria é importante para Deus. A fé necessita ser expressa materialmente, visivelmente, como repercussão exterior daquilo que acreditamos em nossos corações. Quanto ao pecado destes irmãos que traíram o Santo Padre cabe-nos perdoá-los e lembrar que não são erros da Igreja como instituição divina, mas de membros da Igreja. Como são também os nossos pecados, são nossos e não da Igreja.

Leigo: Mas nós não somos Igreja, Padre?

Leigo 02: Cito aqui uma passagem bem interessante: 3 Maria, então, tomando meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos. A casa inteira encheu-se do aroma do perfume. 4 Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que entregaria Jesus, falou assim: 5 “Por que este perfume não foi vendido por trezentos denários para se dar aos pobres?” 6 Falou assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas, porque era ladrão: ele guardava a bolsa e roubava o que nela se depositava. 7 Jesus, porém, disse: “Deixa-a! que ela o guarde em vista do meu sepultamento. 8 Os pobres, sempre os tendes convosco. A mim, no entanto, nem sempre tereis”.

Padre: Todo batizado, até aquele que não tem participação é membro da Igreja. Agora o que um membro da Igreja pensa nem sempre é necessariamente o que a Igreja pensa. Quando faço uma coisa errada que não está de acordo com a Palavra de Deus, não é a Igreja que está errando, sou eu. Mesmo quando falo, se falo em desacordo com o que diz a Igreja, mesmo sendo padre, não é a Igreja que está falando.

Leigo: Leigo 02 dê-se ao trabalho de ler todo o debate e interpretá-lo. Já falamos sobre isso. Além do mais, sendo Jesus quem é não é de se supor que soubesse a intenção de Judas e o fato de sua hora aproximar-se tenha considerado muito mais que o gesto de Madalena, sua intenção intrínseca?

Leigo 02: Mas sobre as decepções, Leigo: a Igreja é justo o local de maior combate! É justamente aqui que vamos enfrentar as maiores decepções, as maiores lutas mas também a maior vitória. Já leu a vida de um Francisco de Assis? Ou mais atual Pe. Pio? Onde estiveram suas maiores cruzes? Na Igreja! E é isso mesmo! É aí que se dá a luta! E aí vem a dor e a alegria! Não em outro lugar!
Desculpe Leigo, li sobre o debate, desde a foto, cada letra e expressei uma opinião. Retiro-me da discussão neste momento: você quer filosofar, problematizar etc... Não tenho tempo pra isso, achei que queria soluções, mas você quer dúvidas :) seja feliz!

Leigo: Bom, então só sou parte da Igreja se eu estiver certo ou de acordo com ela? Mas padre, a Igreja é dirigida na Terra por seres humanos e somos falhos.
Acredito que já estamos fugindo ao tema central do debate. E entrando noutros aspectos.

Padre: Queridos amigos: em tudo ha caridade. Não queremos ganhar debate, apenas expressar nossos pontos de vistas para nos enriquecer mutuamente. Só para isto. Pelo contrário Leigo 02 seja bem-vindo. Destes contribuições importantes. O ponto de vista do Leigo também é importante, pois assim ajudará aos Pastores da Igreja a nunca decair. Paz...
Decair num exagero que também não condiz com o verdadeiro espírito da liturgia cristã.
Bem queridos, vou botar o Padre para dormir. Boa noite e que Deus abençoe a todos.

Leigo: Padre, acho que o objetivo das religiões deva ser tornar as pessoas melhores, trazer paz, humanidade, amor, fraternidade aos corações. Demonstrar nossa fé, nosso amor a Deus é importante, mas não devemos nos esquecer do nosso próximo. Não sou contra a igreja adornada em ouro, só acho que deveríamos nos preocupar com nosso semelhante que sofre. E gostaria muito sinceramente de ver a Igreja Católica (sacerdotes e fiéis) novamente vendo no próximo a manifestação de Deus. Não me esqueço da catequese e das homilias onde ouvi que nosso corpo é o templo do Espírito Santo, então acho que deveríamos nos preocupar com isso. 
Desculpe-me pela petulância, por "problematizar" como sugeriu o Leigo 02, mas precisava ao menos consignar um ponto de vista. 
Vou reler nossa conversa e procurar refletir mais sobre ela, buscar compreender melhor esta concepção da Santa Igreja. Agradeço-lhe, Padre pela paciência, asseguro-lhe que me há sanado algumas dúvidas e proporcionado um maior conhecimento da religião que sigo fidedignamente.
Tenhas uma boa noite.
Abraço.

Padre: Bom dia Leigo. Esta conversa também foi importante para mim. Obrigado pela ajuda.



"A Riqueza sagrada de ser humilde". Julho de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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