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sábado, 14 de dezembro de 2013

Sobre o que esperar...




      A dor que julgo carregar não se compara a felicidade da qual disponho todos os dias. Sempre achei sorrisos dispensáveis, mas hoje a opinião é outra. Talvez seja a idade que cresce ou a sabedoria que se aumenta, enquanto percorro os caminhos que me são destinados aprendo e envelheço. Não que julgue a idade um fator determinante em questão de conhecimento – muito pelo contrário! – mentes são inquietas e trovejantes independentes de quando sua mocidade ocorre. Também pensamentos são calmos e construtores sejam lá quais forem os seus tempos de vida.

     "O que não nos mata nos ensina a viver."
     A fraqueza do corpo também nada tem a ver com a força da alma, portanto se és forte em corpo e alma ganhas ainda mais. Não foi por pouco que nos foi dito que haviam pedras no caminho e que no caminho haviam pedras, elas estão lá a procura de quem não as esqueça... A procura de quem aprenderá que nada mais vale do que enfrentá-las e empurra-las para fora do caminho.
    Tento convencer-me do que digo e ainda mais do que escrevo, pois o futuro é isso, deixar do que tens. Quando individuo qualquer dizer-lhes que o futuro já vem despeça-se do que adquiriu (deixe apenas os ensinamentos aprendidos), treine o desapego, calce os sapatos de caminhada, pois o futuro não espera nada nem ninguém. 


  Farias, Maikéle. "Sobre o que esperar...". Dezembro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma prévia do que virá...





Meus óculos estão inteiros.
Pode parecer não haver nenhum sentido nessa afirmação. E não há. Não sem um contexto.
Quando meus escritos faziam sentido ou quando havia girassóis no meu jardim, meus óculos eram quebrados e arranhados. Tudo quanto eu via era intenso a meu modo. Tudo que sentia era incomensurável.  Então tudo se fundia, criava vida, contorcia-se, invadia e arranhava. Sentir era grande e falar era desnecessário. Eu só fazia girar e morrer, girar e morrer, fugir... Nos vais e vens dos passos, meus óculos já cansados, atiravam-se a esmo. Tudo parava. O mundo não era nada sem que eu pudesse ver. 
Hoje meus óculos estão inteiros. E quanto mais eu enxergo do mundo mais quero deixar de ver.
 Sim, hoje vejo novo mundo. Mas não devo isto a antigas experiências ou mesmo ao amor. Devo sim, ao meu novo óculos, que me trouxe paisagens mais que lindas e fins de tarde seguros. Aos meus óculos também devo o futuro desta vida, o futuro que então seria perdido por mim entre as ruelas desta cidade mesquinha, a ele devo a minha casa de amanhã, os meus sonhos de jovem escritora, devo meus contos impertinentes, a ele devo até minha audição mais do que boa, pois se enxergo bem por que escutaria mal?
  Agradeço-te meu querido, por ocultar os demônios visíveis, e se os pesadelos não acabaram é por que não é hora, mas se acabarão um dia. Obrigada por me devolver os dias nublados e por desfazer os nublados de meus dias.
 É quase epifânico perceber que apenas a visão rege o que sou ou que me tornei. Como se em todos os anos de minha vida o único sentido que fez pesar-se tenha sido ela. Como se a falta de olhos mudasse-me, fizesse-me mais transitiva, mais pessoal.  Uma vez li que nada é tão intransitivo quanto à chuva. Nada é tão completo por si só. Por isso as pessoas não chovem! Ninguém pode tornar-se chuva.  Pessoas são metades sempre a procura de algo que as complete. Não há nada tão autodestrutivo do que abster-se quando se é intemperante, não é vitorioso – mas é moral! – torna sofrido o que deveria ser agradável e te devora...

  Farias, Maikéle. "Uma prévia do que virá...". Junho de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/

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quinta-feira, 21 de março de 2013

Olhos negros Desconcertantes... - Parte 9


                                                                   
                                                                           9.

           Voltemos há algum tempo atrás...           
 Estes relatos começaram quando Antônio casava-se, custa-me dizer-lhes que muitos meses passaram desde o dia em questão. Há tanto que passou, mas não há muito a contar... Bem, antes de tudo quero saudar a inspiração que voltou a aparecer-me ainda há pouco. Quando pensei que estava perdida, ainda mais, quando os sonhos esvaiam-se em ácido, dei por mim imaginando o que esperar do futuro. Não havia nada. “O futuro - muitos dizem - é feito dia a dia, hoje é o futuro de ontem. O futuro de hoje é o amanhã!”. A lógica diz-me que estão corretos, entretanto quem já viveu uma vida sem preocupações?
 Devo contar-lhes: Antônio separara-se. Em menos de 11 meses não aguentou o que a vida de casado lhe oferecia, foi-se embora com a roupa do corpo. “Era muito pouco...”, disse-me ele ao visitar-me. Tentei sugerir-lhe um reatamento. “Teu casamento foi tão lindo!”, disse-lhe esperando não dar assistência às suas desesperanças, mas em resposta Antônio olhou-me com incredulidade e partiu com passos duros, batendo a porta atrás de si.
 Já sobre Petrus...
 Logo após o final de semana deixei a casa de campo. Deixei-o. Ele não me pediu para que ficasse. Não disse-me adeus. Logo antes de partir procurei-o em todos os cantos, mas o homem havia evaporado! Deixei um recado agradecendo a estada. Despedi-me de Sr.ª Blair e parti. Soube que não voltaríamos a nos ver dias depois, quando recebi uma carta sem remetente. Dizia apenas: “Morra!”. Foi o clichê que me fez morrer; ri até não poder mais. Ri até entender o que aquilo significava; finalmente eu entendia o amor. Guardei o recado para futuras risadas despreocupadas. Causou-me ódio apenas o anexo. Ele mandava o bilhete que havia lhe escrito às pressas (já que ansiava minha volta ao lar) e rabiscou os erros ortográficos. Não achei graça neste acontecimento, mas poupei papel e caneta diante de qualquer desejo de vingança.
 O amor é raiva represada.  E só.
 Enfim... Já não sei o que contar. A história acaba aqui! Depois de Petrus nada tão “interessante” me aconteceu. Tão frustrante, mas a rotina deu jeito de fazer-me esquecer do que vivi. Não esquecer por completo afinal lembranças nunca morrem.
 “O sonho acabou!”, diria John Lennon, mas direi: “Que a vida comece!”. Vamos para as ruas...

Farias, Maikele. "Olhos negros Desconcertantes... - Parte 9". Março, 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/ 
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quinta-feira, 7 de março de 2013

Alucinações de um dia sem Sol...

 O Sol mora em outra cidade, mas não deixa de me perturbar, (ô tormento!). Vem cá e já vai invadindo, inspirando esse sentimento de paz, querendo me levar, me iluminar...
 Quem dera eu pudesse ser Lua pra não ter de vê-lo. Oxalá eu pudesse ser humana por inteiro para querê-lo por perto. Mas não sou! E então, quando ele vem, eu já vou me perfumando e botando roupa bonita para ir lá fora, para pegar uma cor.
 O Sol enlouquece quem o olha muito e escuta ou entende... Enlouquece muito mais se não entende nada, se só tenta adivinhar. É preciso ler mentes para entender-te... Aliás, é preciso ler Sóis. Quem sabe, somente assim, me entenderei também... 

Farias, Maikele. "Alucinações de um dia sem sol". Fevereiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ele subiu a serra...

Ele pegou o guarda-chuva e subiu a serra
E eu fiquei a contemplá-lo.
Subiu a serra e não desceu
Então fui lá para encontrá-lo.
Em um bar o encontrei,
Não foi difícil procurá-lo;
Desde que o conheci, sei
Do seu vício não largado.
Cheguei de manso e o abracei,
(com o pensamento, não com os braços!);
Em seu ouvido sussurrei:
- Já não posso carregá-lo...
Eu sofri, mas foi-se o tempo,
Já não vou mais chorá-lo.
Hoje, ele pega o guarda chuva,
Sobe a serra,
Vai sozinho.
Sem meu abraço.

Farias, Maikele. "Ele subiu a serra...". Fevereiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Memória: Uma garantia em pedaços.

“ – Por que nunca saúda teu padrasto? – Pergunta-me enquanto segura meus ombros.
– E onde está? Disseram-me que existe, mas nunca o vejo por aqui... – Sorrio.
– Por que tu finges que não existo? – Ele urra.
– Quem dera pudesse... A questão é mais complicada que isto, Romeu. – Esquivo-me.
– Romeu? Chame-me por meu nome! – Diz-me com a respiração acelerada.
– Então, Romeu, sejamos sinceros... Eu não o odeio. Seria burrice, pois não o conheço.
– Como assim? Namoro tua mãe. Tento falar contigo todos os dias! – Gesticula apressadamente.
– Mas tu és tão monótono. Não vejo o porquê deste romance. – Dou de ombros.
– Eu a amo! – Vocifera.
– Eu sei que a ama. Apenas me entristeço com a pequena força deste teu vocabulário clichê.
– Tu não entendes...
– Ora, e isto não é bom? – Pergunto.
– É pela felicidade da mesma pessoa que prezamos! – Grita.
– Não por os mesmos sentimentos... – Explico-lhe.
– Sabes o que dizem por entre as ruas? Que tu és tão fria quanto um freezer! – Sorri sarcasticamente.
– Ah! – Gargalho – Tão sutil Romeu... Não me digas que acredita? Toda esta falação é lenda.
– Ela me ama!
– Eu sei... Com todo o ardor que não pude arruinar. – Digo com dureza.
– E ainda assim me odeias? – Pergunta-me com sofreguidão.
– Oh, o ódio... Não por ti, meu caro.
– Sorrio.- Sente-o todo o tempo, não é mesmo?
– Sim. Mas não por ti. – Encaro-o.
– O ódio acaba, arruína, transborda e vinga. – Estremece.
– O ódio cresce dentro de mim e nenhuma barreira pode pará-lo!”


Farias, Maikéle. "Memória: Uma garantia em pedaços". Janeiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br
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domingo, 23 de setembro de 2012

Olhos negros desconcertantes - Parte 8


                                                                      8.
Acordei com Sr.ª Blair tricotando ao meu lado. Olhando ao longe acredito que pareceria apenas uma avó desfrutando de um hobby, mas de onde eu a olhava, Sr.ª Blair ainda tornava-se assustadora.
- Não é que acordou a D. Madalena? – Ela disse sem tirar os olhos do tricô. – Como está? O Doutor logo virá aqui.
– Estou bem, não preciso de um médico...
- Sr. Petrus já mandou chamar o Doutor – disse-me Sr.ª Blair – é melhor que se sente aí e o espere!
 Não foi um pedido. Desde já percebi que naquela casa seria assim; nada de pedidos, apenas ordens. Sentei e esperei. Nunca fui de grande obediência, entretanto, a verdade é que não tinha forças para rebeldia.
 Enquanto esperava o Doutor, Petrus chegou. Despontou a sala e encarou-me. Só então notei que seus olhos eram normais, aliás, desconhecia o que me prendera a eles. Não emitiu som algum claramente. Sentou-se ao meu lado e fitou-me. Não dissemos nada. Havia algo de errado, não? Ah! Sim. Na verdade, faltava. Era o mistério... O mistério que o rodeava perturbava-me. Onde estava? O que nos unia desaparecera tão rapidamente quanto nos uniu.
 Bastou pouco tempo para que o Doutor chegasse. Petrus a seu lado pareceu-me aflito. Será que já tinha percebido que não havia mais motivos para que eu ficasse ali?
- Como se sente Madalena? Sou Dr. Carlos. – Disse estendendo a mão para um comprimento.
- Estou bem! Digo isto há horas... Não havia necessidade de chamá-lo Doutor.
 Carlos pigarreou e voltando os olhos para Petrus sorriu.
- Petrus é meu velho amigo. Conhece-o desde que éramos moleques, por isso, digo-lhe que ele nunca foi de apavorar-se por pouco e que se me chamou teve seus motivos.
 Deixei que Carlos me examinasse mesmo sabendo que estava perfeitamente normal por fora. O estrago estava no emocional!
 Depois que o Carlos se foi e Sr.ª Blair, com o pretexto de ter que arrumar o jantar, deixou-nos a sós; Petrus me parecia ainda mais aflito que nas horas que haviam passado.
- Madalena... Tu podes me acompanhar?
 Sem que me desse tempo para responder, Petrus saiu porta a fora e eu apenas o segui.
- Vê isto tudo que já escrevi? - Disse-me apontando para as pilhas de folhas em todos os cantos. – Vê? Isto não é nada! As palavras me escolheram; e eu não tive escolha. Precisei aceitar o dom sem argumentar.  Eu não posso dizer não as frases, não posso me recusar a escrevê-las. Elas fazem parte de mim mais do que meus órgãos mais do que a minha alma...
 Afastei-me e olhei-o com medo, então Petrus segurou-me os ombros e fixou os olhos no meu.
- Mas... Tu, Madalena... Tu trouxeste sentido a minha vida! Vida que desperdicei todos estes anos. E só agora tu vieste... Se soubesses há quanto tempo lhe espero! Há quanto tempo quero ser tua luz...
- Minha luz? – Sussurrei.
- Sim...
 Gargalhei com tanta vontade que Petrus me soltou incrédulo. Questionou-me com olhos enquanto gesticulava nervosamente para que eu me explicasse.
- Basta desta moda de “doer-se”! – Sentei e acendi um cigarro – Estou exausta... Exausta deste teu jeito. Vens, fica, marca e depois some? Meu bem, eu sei que tu acreditas saber tudo que me passa pela cabeça, mas não sabe. Ninguém, nunca, soube ou saberá!
- E a telepatia?
- Faça o que quiseres com ela... Telepatia é bobagem! E tu só acreditas por que é bobo. – Gritei.
- Bobo? – Disse-me Petrus, colando nossos corpos. – Bobo o bastante para acreditar que quando tu olhas nos meus olhos assim, desconcertando para me concertar, é pedindo pra que eu não vá embora... Eu sei que é pedindo pra que eu não te deixe!
  
Farias, Maikéle. "Olhos negros desconcertantes - Parte 8". Setembro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br
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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Olhos negros desconcertantes - Parte 7

                                                                           
 7.


               Meses. Passaram-se meses em que eu não tivera notícias de Petrus. Meses!

Outubro sempre me pareceu um mês incrivelmente entediante em todos os pontos.  O clima era ameno e tudo se fazia mediano, pela metade. Irritante! Antônio dissera-me, alguma vez, que mulheres não deviam portar-se deste modo em que eu me portava, “fortes demais”, "donas de si”. Acertei-lhe um vaso de flores no meio da testa. Nunca mais voltamos a este assunto.  “Mas com Madalena é oito ou oitenta, nada de meios termos” era o que vovó costumava dizer. Certa estava ela. Ou nem tanto...

Petrus...

Tornei a voltar para casa depois de mais um dia de trabalho. Abri a porta e me deparei com as malditas correspondências no chão da sala. Juntei uma por uma até que uma delas chamou minha atenção. Um envelope de cor marrom, algo que eu jamais havia visto antes. Sem remente. Apenas manchas e mais manchas que cobriam mais parte da cor. Manchas que em um tempo não muito distante deveriam ter sido palavras. Encostei-me à porta. Inicialmente, me apressei a tentar decifrar os rabiscos daquele manuscrito. Quem o teria escrito?

“Olá minha querida.

Talvez não aprecies a chegada desta carta só neste instante. Faz algum tempo desde que o clima era mais convidativo, não é mesmo? Outubro. Oh, tempo terrível... Mas não foi para falar-lhe sobre isto que escrevi. Tu não sabes, mas naquela noite, no nosso ultimo encontro, (lembra-se?), quem fugiu não foi somente eu! Sei que teme o negro de meus olhos... Será que não percebes que é teu reflexo que se faz e se aloja em meu olhar? Que toda esta “escuridão” que tu pensas ver dentro de mim é a falta de luz na tua alma? Por isso és treva. Mas eu queria tanto ser tua luz, tanto...

Justificando ainda mais meu desaparecimento, digo-te: Quem pôde algum dia fugir de ti? Ninguém! Jamais! Quem dá-se ao luxo de temer aquela sombra do final rua? Quem se faz tão doido de correr do escuro à noite? Mesmo que fizéssemos nada adiantaria. O mal também é parte da vida. Só quero recomendar-lhe: as trevas nunca ganharam guerra pelo menos não sozinhas. Se quiseres ajuda, querida, não hesite em me procurar! Serei um bom servo e guerreiro. Encontre-me... (Vai em anexo meu endereço de férias)”.

- Maldito!

No fim da semana, enquanto rumava para o endereço de Petrus, não pensava e não planejava o que iria ou poderia acontecer, mas quando cheguei à frente do endereço senti um misto de curiosidade e medo. Era uma casa de campo imensa e muito bonita o que me deixava ainda mais amedrontada. Na realidade não conhecia Petrus e, mesmo que quisesse, não sabia decifrá-lo. Não como ele havia feito comigo. Recuei alguns passos quando decidi voltar para a segurança de meu lar, mas quando dava as costas para a casa a porta abriu-se com um ruído característico de casas mal assombradas de filmes de terror. Uma mulher de estatura mediana, um olhar penetrante e meticuloso olhava-me na soleira da varanda.

- Vai ficar parada aí menina? Entra logo! O Sr. Greet está a sua espera. Ande, ande...

Não havia mais como fugir. Obriguei-me a subir os degraus que se encontravam antes da porta principal e que me separavam da companhia da mulher. Quando terminei de subir as escadas e me encontrar em frente à porta foi que percebi que terminara de saber algo mais sobre Petrus. PetrusGreet!

- Sou Madal...

- Já sei, já sei. Sou senhorita Blair, a governanta. – Ela falava com um tom decidido que fazia qualquer um acreditar que ser governanta era um trabalho muito mais valioso do que era realmente. Depois que, todas as “Blair’s” que conheci tanto as reais quanto as de lendas e fantasia, eram completas bruxas.

- Petrus... Petrus está? – perguntei.

Senhorita Blair apenas soltou um grunhido de desdém e me apontou a escada logo a minha frente. Pegou minhas malas e retirou-se rapidamente pelo corredor que se estendia ao nosso lado. Esperei até não conseguir mais vê-la através do corredor, então, tentando demonstrar segurança em meus passos, subi a escada até poder ver todo o segundo andar da casa. Logo fiquei em dúvida sobre qual dos cômodos deveria entrar. Havia três portas a minha esquerda, uma em minha frente e mais duas na direita. Optei pela porta a minha frente, girei a maçaneta, mas quando a abria ouvi um ruído a minha esquerda. Um barulho quase imperceptível. Soltei a maçaneta e caminhei até o fim do corredor esquerdo onde havia uma janela que estava voltada para os fundos da propriedade. Um lago estendia-se calmo logo atrás de algumas árvores.

Realmente era uma bela casa de férias. Segurei a janela e tentei empurrá-la para ficasse totalmente aberta e eu pudesse vislumbrar melhor o lago. Estava emperrada! Mas fiquei obstinada a tentar abri-la com todas as minhas forças. Empurrei muitas e muitas vezes até quando ia desistir a janela abriu-se num estrondo ensurdecedor que fez com que eu a soltasse perdendo todo o esforço que havia feito. Foi quando, com raiva, tentei fazê-la subir de qualquer maneira e no meu total desconhecimento do poder da janela, escorreguei para fora da casa e fiquei suspensa apenas me segurando com uma das mãos na madeira da janela. Tentei ser racional e pensar no que fazer. Senhorita Blair não me escutaria gritar já que se encontrava no lado oposto da casa. Não queria olhar pra baixo, mas decidi fazê-lo; caindo dali o estrago seria bem grande. Se saísse viva, metade do meu corpo ficaria quebrado. Comecei a perder força no braço e como não havia pensado em nada que pudesse livrar dessa decidi que só poderia gritar. Então gritei, gritei e gritei o mais alto que pude. Minha mão já estava escorregadia e meu braço não aguentava o peso de todo meu corpo, menos ainda depois de todo esforço que fiz com a janela. “Não acredito que vou morrer assim!”.   Não tinha mais forças para segurar então fui soltando a mão devagar. Quando terminei de fazê-la e estava pronta para despencar e quebrar maioria dos meus ossos (ou morrer!) uma mão forte segurou meu braço me puxando pela janela para dentro da casa novamente.

- Olá querida! – Foi a ultima coisa que escutei...

Farias, Maikéle. "Olhos negros desconcertantes - Parte 7". Agosto de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Olhos negros desconcertantes... - Parte 6





                                                                       
                                                                                6.



“Ora, as sereias têm uma arma ainda mais terrível do que o seu canto, a saber, seu silêncio. Embora nunca tivesse acontecido, é talvez concebível que alguém pudesse ter escapado de seu cantar, mas de seu silêncio, certamente não.”

                                                                             (Franz Kafka, O silêncio das Sereias).


O gato preto da janela...

 A má sorte me persegue... Não que acredite nestas coisas de “passar embaixo da escada rouba-lhe a sorte” ou que “cruzar com gato preto causar-lhe-á azar no resto da semana!”. Os fatos sucessores ao casamento de Antônio deixavam-me perplexa! Atrasara-me para o trabalho a semana inteira, as repreensões de meu chefe vieram logo e tudo que comecei nestes dias jamais terminei!
 Petrus levou minha segurança, minha altivez, meu equilíbrio, minha sensatez e tudo que fazia-me ser Madalena. O amor, por enquanto, não me tem sido de grande importância ou valorização. Claro, estou disposta a ter amor e a dá-lo com intensidade maior possível, mas não hoje, muito menos amanhã. O que quero dizer, é que quando deixamos o amor de lado ficamos tão perdidos, que é quase impossível continuar sem dar marcha ré, passar por cima de qualquer mania adquirida e, então, fazer um novo caminho. A verdade é que querendo ou não o amor virá, ora ele, ora o ódio e por mais clichê seja, a ligação entre eles é verdadeira e muito mais palpável do que muitos imaginam!
 Os gatos pretos de azar tornaram-se um muro em frente a minha janela...
Exatamente! A perdição é como ter um muro em frente à janela. (Não a “perdição” no mais puro termo, mas sim no caso de estar perdido! Deste modo quero que a vejam e sintam neste caso...). Era isto! Estava perdida... Perdida em minhas escolhas. Perdida nas suposições para o futuro! Contudo, ainda assim, não me apeguei ao fato de não saber como encontrar Petrus e, mesmo que soubesse, meu orgulho de mulher falaria mais alto!
 Como escreveu Oscar Wilde: “O diabo é muito otimista se pensa que pode piorar os homens”. 
 A semana terminou ainda pior do que havia começado. Sai ilesa do trabalho, além da advertência (muito bem posta por meu chefe!), os “demais” de minha vida iam bem. O que mais incomodaria no meu cotidiano? Moro sozinha, mas nunca pude morrer de solidão, já que recebia visitas diárias de um gato em minha varanda. Meus contatos permaneciam superficiais, literalmente.  Certo dia, meu companheiro das noites, subiu calado em minha janela. Cansada de tanta invasão e muito mais, cansada do silêncio; caminhei para pertinho e puxei um assunto tão supérfluo quanto aquela situação.
- Olá, como se sente hoje? Se quiseres, nem precisamos levar em consideração que sejas apenas um gato...
 - (silêncio)...
- Desculpe-me se lhe peguei de surpresa! Não sou muito de falas e sei que tu também não és, mas bem sabes que o ser humano precisa, às vezes, de um aconchego.
- (silêncio)...
- Por favor...
 Foi nesse instante, que deixando de lado qualquer cordialidade ou educação, “Senhor gato” deixou-me a falar sozinha e saiu a caçar a borboleta branca que passava. Quando já se ia lá ao longe acredito que lembrou-se de minha companhia, virou-se para trás e miou alto e agudo.  Era o aviso que voltaria pela manhã...

Farias, Maikéle. "Olhos negros desconcertantes - Parte 6". Junho de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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domingo, 17 de junho de 2012

Luna!


“A cigana pomba-gira de olhos quase encarnados ou meio insolentes. És rosa azeda, Luna! Luna de minhas ilusões suplicantes; de meus martírios estratégicos...”     

 Luna, por que não ouves?

Já que estes são martírios estratégicos;
se estas são tuas ilusões suplicantes?
Luna, não te deites na relva que a morte nos entrega,
não te percas a clarear a escuridão que não te renega
e, jamais! Jamais dance com o abutre que não vês...
Luna não tome por pouco minhas poesias,
Quem "mo" dera se aí do além
tu fosses minha poetisa
E olhasse-me estes versos sem desdém...
Só de inspiração não me basta o choro,
que das luas tirou-lhes o brilho
Vagam-se nuas de qualquer encanto,
P’ra um canto que não sei, nem sinto!                                                                         





Farias, Maikele. 
"Luna!". Junho de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Olhos negros desconcertantes... - Parte 5


  5.

“Ao rosto sobe-me o sangue tímido; em meu manto envolve-o até que o amor esquivo já se tendo tornado corajoso, só inocência veja no ato do amor sincero e puro.” 
(William Shakespeare, "Romeu e Julieta").

Águas de Março...

O mês não era de frio, mas assim que tocou meus lábios Petrus me fez congelar. Não literalmente, claro! (Até me pergunto se isto é possível...). Minha salvação ou minha perdição estava ali naquele homem. O desconhecido agora fazia parte de mim; parte que eu não sabia que tamanho tinha, que não sabia que poder teria e exerceria, mas que, em um minuto, eu havia aprendido a respeitar! Em alguma de minhas muitas leituras, aprendi que quando queremos experimentar algo precisamos cair de cabeça. Como tentar analisar a temperatura da água do mar, apenas molhando os pés... E meu corpo, naquele instante, me implorava pra mergulhar! 

“- São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração!”
Mergulhei. 

Petrus era alto e tinha os braços fortes. Usava o cabelo num comprimento que não passava dos ombros... Tinha cara de professor. Logo, qualquer coisa que ele dissesse me pareceria verdade; era como se sua essência saísse de seu próprio corpo e mudasse a opinião de qualquer pessoa sobre qualquer coisa.

- Madalena... 

Bastou uma palavra para que voltasse a terra. Cambaleei e me afastei com alguns passos para trás. Queria correr, talvez, por vergonha ou arrependimento, mas meus pés não se firmavam ao chão. Levava a mão ao peito quando Petrus me deteve. Segurou meu braço com tanta força que gritei de dor; no mesmo momento, algum barulho surgiu do meio da escuridão. Meu acompanhante me puxou para trás de alguns arbustos onde havia um espaço mínimo para nossos corpos. Estávamos colados! E, então, pela primeira vez, senti nossos corações pulsarem juntos, num compasso, numa sinfonia inaudível. Nossa canção... 
                                  
- Que está fazendo? – Perguntei, assim que achei apropriado. Um sorriso foi minha resposta. Um sorriso tranquilizador... Seus olhos me diziam: Confie! Entretanto, eu não podia. Madalena era uma mulher confiante em si, não aquele animalzinho amedrontado que Petrus fazia parecer. Eu não me deixaria cair em uma armadilha infantil.       

- Olha...

Antes que pudesse terminar os ruídos ao redor voltaram. Alguém, além de nós, também estaria passeando por aquele estranho lugar? 

- Olha... 

Meu acompanhante segurou-me o rosto para que nossos olhos se fixassem. Um minuto! Bastou um minuto para que seus olhos negros e tumultuados desarmassem todos meus planejamentos, toda a minha confiança. Então ele partiu sem ruídos, sem culpa. Sem mim... Partiu como as sereias com seu silêncio. Como as sereias que não cantam; que, de folga, não hipnotizam, mas assim mesmo matam. 

“- Non te scorda di me...”

Farias, Maikele. "Olhos negros Desconcertantes... - Parte 5". Junho de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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