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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Cultura e Turismo: passaportes para a cidadania

"A cultura é aquilo que permanece no homem quando ele já esqueceu todo o resto.”
(Émile Henriot, escritor francês, 1889 — 1961).

***

- Por que, no Brasil, as verbas governamentais destinadas às pastas de cultura e turismo ainda são acanhadas em relação às outras áreas?

Certamente porque nosso jovem país ainda não amadureceu o bastante para entender que esses dois substantivos podem ser agregados a outras pastas como Saúde e Educação, por exemplo, e, com isso, obter-se um produto importantíssimo de geração de cidadania.

Um povo que tem acesso fácil à boa literatura, pode experimentar outros horizontes e, com isso, enxergar-se melhor no diversificado panorama mundial, medindo suas potencialidades e deficiências, e, com isso, evoluindo para um ser pensante, com autonomia para escrever suas ações sem a tutela de outro(s).

Eventos culturais e turísticos, além de gerar renda para os cofres públicos, podem, sim, impulsionar as pessoas a terem clareza de seus direitos e deveres na sociedade. Não falo de “pessoas cultas” no sentido de nível de instrução mas de mentes esclarecidas por informações que as levarão a práticas positivas: prevenção a doenças, preservação do meio ambiente, etc.

Registro, a propósito, meu elogio à Prefeitura de São Lourenço do Sul que, após sofrer um imenso alagamento em 2011, mostra-se revigorada, com ciclovias, o retorno de atividades já famosas como às típicas do verão e o Reponte da Canção, festival de música nativista, no mês de março.

A propósito de sua praia, o camping municipal mostra-se estruturado, com banheiros limpos, boa iluminação e com presença efetiva da administração que distribui aos turistas material informativo sobre prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, como consumir alimentação saudável, além de outros atrativos como o caminhão do SESI que oferece uma biblioteca à população.

Enfim, cultura e turismo não são políticas supérfluas, nem podem ser reduzidas na comparação com outras pastas, como tanto acontece no Brasil, sob pena de continuarmos alienados em nossas aldeias, sem interagir com outras culturas e a perder boas oportunidades de crescermos como cidadãos do mundo.


Farias, Juarez Machado de. "Cultura e Turismo: passaportes para a cidadania". Fevereiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Eletrola

“A memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações."
(Jorge Luis Borges, Escritor Argentino, 1899-1986)

***


Na sala, o som com ruídos de agulha no disco.

Sobre a mesa, aberto o livro: “Os Miseráveis” de Victor Hugo.

Do quarto escuro, o último suspiro do patriarca era o início de um tempo de partilhas materiais e imateriais. Campos, casas, gados, harmonias, memórias se dividiriam no inventário em que o advogado da família de boa fama marcaria e remarcaria reuniões para consensos.

- A quem tocou a eletrola?

A pergunta se perderia nos desvãos do casarão – futura ruína.

A resposta seria esquecida na boca do filho mais velho, no ouvido do filho do meio, nos dedos do filho mais moço com um extrato bancário entre os dedos.

Não se sabe como a eletrola está, agora, em uma praça de Montevidéu, exposta à venda em um sábado de sol, próximo à catedral católica, em meio a outras bugigangas.

- Quem comprará a eletrola?

A pergunta se perderá nos sóis e luares dos tempos de tecnologia e consumismo.

Mas uma música talvez ainda reste ao adquirente daquele monumento de nostalgias. E, num entardecer de domingo, a eletrola voltará a girar a agulha, num toque de assombração.

Farias, Juarez Machado de. "Eletrola". Fevereiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Senhora Poesia para sempre...

No dia 28 de janeiro de 2013, viajou para outro plano uma importante personagem de minha passagem terrena: Lígia Antunes Leivas. Foi minha professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira em 1988, quando estudei no CAVG (Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça), em Pelotas. Sua alegria e vigor governavam, sem ferir, as aulas que proferia. Fiquei impressionado com seus vastos conhecimentos sobre os temas que abordava.

Professora Lígia, como a chamávamos e como sempre a chamei, compartilhava seus livros com os alunos que demonstravam interesse pela boa leitura. Assim, a cada vez que eu voltava de Pelotas para a casa de meus pais, levava comigo muitos livros dela o que ampliava meus horizontes.

Quando fui empossado na cadeira nº 01 da Academia Piratiniense de História, que tem como patrono Barbosa Lessa, para minha surpresa lá estava entre as pessoas presentes a querida Professora Lígia que proferiu um lindo e emocionante discurso em minha homenagem.

Sempre incentivou meu fazer-literário. Sugeria-me, elogiava. Acho até que deveria ser mais rigorosa comigo. Meu primeiro livro de poemas – “Verso de Azul” -, editado em 1995, pela Editora da Universidade Federal de Pelotas, teve muito de sua contribuição, por isso, a justa dedicatória que lhe fiz nele.

Em 16 de dezembro de 2008, fui escolhido pela Academia Sul-Brasileira de Letras, como personalidade cultural daquele ano. Mais um ato de generosidade da querida Mestra: Professora Lígia era a Presidenta da entidade que realizou uma bela noite de entrega de prêmios, momento esse que ficou registrado o seu rosto sempre radiante.

Quando publiquei no meu blog uma matéria sobre a homenagem, ela publicou a seguinte postagem:

“Juarez, ilustre ativista cultural, especial amigo: Em meu próprio nome e no de nossa querida ASBL, agradecemos a gentileza que tiveste em postar em teu blog tão distinta notícia. Mérito é de quem o tem. Por isso, foste o escolhido neste ano de 2008. Personalidade Cultural é tua característica, por onde quer que vás, mas pensamos que este título ficaria perfeito junto ao teu nome quando estávamos escolhendo nosso homenageado! Parabéns para ti e obrigada pela notícia. Muita luz em 2009!”

Professora Lígia: Senhora Poesia, como a chamei em um texto para publicação em um de seus livros de poemas! Sua presença e somente a lembrança de sua existência já eram estrelas de enorme brilho em minha vida. Agora (tenho certeza) esse brilho ganhou maior espectro: além da Terra, alcança outras dimensões.

Está, quiçá, no Céu, agora, a ensinar a outras estrelas lições de brilho com humildade.

Farias, Juarez Machado de. "Senhora Poesia para sempre...". Fevereiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ética para tudo e com todos

 “O erro da ética até o momento tem sido a crença de que só se deva aplicá-la em relação aos homens.”
(Albert Schweitzer, músico, filósofo e médico alemão, 1875 —1965)

***

Luciano Huck, no seu programa semanal, edição de 19 de janeiro de 2013, pela Rede Globo de Televisão, repetiu reportagem veiculada em 21/01/2012, onde em ambas matérias deu relevante destaque à causa animal, ao focar a atuação do Clube do Vira-Lata, uma entidade que trata de cães abandonados, em São Paulo.

Antes de tecer qualquer comentário, preciso considerar duas situações. Escuto pessoas dizendo que não toleram outras “pessoas” e que preferem o convívio com cães e gatos. Escuto outras dizendo que só “pessoas” têm valor.

São, enfim, dois polos: 1) na supervalorização dos seres humanos como proprietários deste planeta; 2) na supervalorização dos animais não humanos em detrimento das relações com os seres humanos.

Entendo, humildemente, que devemos corrigir esses extremos para uma posição eclética que inclui a ética para tudo e com todos, ou seja, uma conduta única em todos os ângulos de nossa relação, afinal, nós, “racionais”, interagimos com seres humanos, não humanos, seres inanimados, em um mosaico de diversidade. Isso acontece desde que estamos no ventre materno. Não se está em uma bolha, mas em uma biosfera, lugar de interações  - raras, frequentes ou permanentes conforme os casos.

Devido à concepção antropocêntrica – na qual o homem é o centro da natureza -, tolerou-se ao longo da historia da humanidade incontáveis desumanidades com outros seres tidos como irracionais e no exaurimento dos recursos naturais, praticando-se guerras e genocídios.

No entanto, estou convicto na evolução espiritual do Universo onde nosso planetinha Terra é um minúsculo grão e neste, por sua vez, percebem-se ações concretas em prol de uma tomada de consciência para um bem-estar coletivo e não só para nós, seres humanos. Nas redes sociais pela internet, por exemplo, são fartas e diárias as mensagens que buscam sensibilizar sobre os sofrimentos de animais, de crianças, mulheres, idosos, etc.

É a compaixão que se amplia não só para uma espécie (especismo), mas para qualquer mal estar porque este acaba por dificultar a afinação da orquestra universal na qual somos músicos, irrevogavelmente. 

O bom de tudo é que só pelo fato de queremos ser éticos com tudo e com todos, nossas atitudes melhoram: passam a ser cuidadosas e carinhosas, evitando e corrigindo práticas como jogar papel de bala nas ruas e abandonar cães e gatos.

Farias, Juarez Machado de. "Ética para tudo e com todos". Janeiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O som de cada um.

"Ao meu prezado vizinho
Eu lhe peço com carinho:
“Por favor, baixe o som.
Moramos na mesma rua,
A amizade continua
E o respeito é muito bom”.

***
Conviver em sociedade significa exercer, permanentemente, a tolerância e entender que a liberdade de cada pessoa não é absoluta.

Problema muito frequente no convívio humano é a prática do som alto o qual pode ser considerado importunação.

Mas se um ambiente livre de ruídos é salutar, também o é  a busca de relações amistosas com as pessoas, principalmente, as que convivem próximas a nós.

Por isso, compus os versos acima (utilizados como epígrafe neste artigo) para que as pessoas incomodadas com o som alto exerçam um argumento eficaz para resolução do problema.

Os Códigos de Postura dos municípios preveem, em geral, o horário das 08h às 22h como permissivo para emissão de sons mas o abuso dessa prerrogativa pode, sim, caracterizar, infração já que todos têm direito a um ambiente livre de ruídos que causem incômodo.

Já está comprovado pela medicina que a poluição sonora aumenta os batimentos cardíacos, dificulta a concentração mental, causa estresse.

Antes de se acionar a polícia, é conveniente que se esgote todas as formas civilizadas para convencer o autor da importunação a corrigir sua falta. Porém se não houver êxito, o caminho legal é registrar ocorrência policial, recomendando-se que se reúnam provas como fotografias, gravações, testemunhas, etc.

O ordenamento jurídico considera contravenção penal o abuso da emissão de som como se lê no Decreto-Lei nº 3688/41, Lei das Contravenções Penais — LCP:


“Perturbação do trabalho ou do sossego alheios


Art. 42 – Perturbar alguém, o trabalho ou o sossego alheios:

I – com gritaria ou algazarra;
II – exercendo profissão incômoda ou ruidosa, em desacordo com as prescrições legais;
III – abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos;
IV – provocando ou não procurando impedir barulho produzido por animal de que tem guarda:
Pena – prisão simples, de 15 (quinze) dias a 3 (três) meses, ou multa.”

E ainda: som alto pode ser considerado poluição sonora que é crime disposto no artigo 54 da Lei nº 9605/98, Lei de Crimes Ambientais – LCA:

“Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora:

Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Se o crime é culposo:
Pena – detenção, de seis meses a um ano, e multa.”

Lute por seus direitos!
   
É possível conviver harmonicamente com quem divide conosco o mesmo espaço geográfico para que se possa ouvir o som de cada um.

Farias, Juarez Machado de. "O som de cada um". Janeiro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

“Alienação parental”: uma Lei para o bem dos filhos

“Crianças são mensagens vivas que enviamos para um tempo que não veremos.”
(Neil Postmann, escritor norte-americano)
***
Os legisladores precisam estar em sintonia com o tempo em que vivem e pensar que as leis devem se projetar no tempo e no espaço. As relações afetivas, por exemplo, são, frequentemente, temas de debates acadêmicos e de políticos com a competência para alterarem as legislações no mundo, como no caso do reconhecimento da união estável e do casamento de pessoas do mesmo sexo.

 Os filhos - crianças e adolescentes - projetarão seus pensamentos e atitudes a partir do que receberam do ambiente desde suas primeiras noções de consciência do seu papel na sociedade. Assim, é importante que, embora os afetos não mais existam entre os pais, haja um pacto de cooperação para a felicidade do filho.

Infelizmente, são muitos os casos de alienação parental, como os elencados na Lei Federal nº 12.318, de 26 de agosto de 2010: um dos pais tenta incutir no filho uma ideia negativa sobre o outro genitor; o filho é levado por um dos pais para uma cidade desconhecida, sem prévia comunicação ao outro genitor; dificultar o direito de visita ao filho por um dos genitores.

O artigo 2º da referida lei assim bem caracteriza esse fato:

“Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este.”

Tive a oportunidade de acompanhar, como advogado, o caso de uma avó septuagenária que, com muita dificuldade para caminhar, subiu as escadas do Foro para lutar por seu direito de conviver com o neto de dez anos que tinha sido proibido pela ex-nora de visita-la, embora o menino demonstrasse à idosa o seu amor, por meio de acenos quando a via na rua.

Durante a audiência, o senhor Juiz, já aplicando a Lei da Alienação Parental, alertou severamente a mãe do menor para que, imediatamente, restabelecesse o contato do neto com a avó paterna pois o infante tem o direito de conviver, sadiamente, com ambas as famílias de seus genitores.

As medidas que podem ser aplicadas em caso de confirmação da alienação parental dependem de cada caso, podendo, por exemplo, implicar ao alienador determinações judiciais como advertência, obrigação de pagamento  de multa e ampliação do direito de visitas e até alteração da guarda.

Bendita esta lei que visa a saúde das relações humanas nos seios das famílias de pais separados, objetivando um clima de tolerância sempre possível para o bem das crianças e adolescentes.

Farias, Juarez Machado de. "'Alienação parental': uma Lei para o bem dos filhos". Dezembro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

“Drento”, “é fundamental”: Cacoetes e Corruptelas.

Escute muito. Valorize mais os dois ouvidos para que sua única boca somente propale palavras sábias e oportunas. A propósito, eis o provérbio árabe:  “Que minhas palavras sejam melhores que o meu silêncio”.

Porém escutar não quer dizer aceitar passivamente o que ouvimos. A propósito, eis outro provérbio: “A palavra tem um efeito nos lábios e outro nos ouvidos”.

Como não vivemos em um país de doutores, é óbvio que escutamos muitos cacoetes de linguagem e corruptelas, ou, comumente, palavras erradas.

Recente censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registrou 14 milhões  de analfabetos no Brasil.  Se considerarmos os critérios utilizados pelo IBGE, tais números são ainda mais temerários: hoje, é considerada alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever um bilhete simples.
Por isso, não devemos gracejar de quem fala diferentemente da língua oficial, mas buscar entender o contexto daquele elemento de comunicação.

É  comum ouvir um agricultor falar “drento” ao invés  de dentro, “bão” ao invés de bom; ou se escutar políticos repetirem o bordão “é fundamental”, como se não houvesse outra forma de se dizer que algo é importantíssimo; ou, ainda, “faz parte”, “com certeza”, e referentemente a apresentadores de rádio e televisão: “não saia daí”.

De outro lado, uma linguagem empolada, como a típica do mundo jurídico, acaba por cansar e dificultar o entendimento dos ouvidos da maioria popular.

Vamos fazer da língua um instrumento eficiente de comunicação, sem preconceitos, de clareza quanto a nossas ideias, livre de agressões a quem quer que seja.

Para finalizar, a fim de cuidarmos bem do que dizemos, uma frase de Antoine de Saint-Exupèry, na obra “O Pequeno Príncipe”:

“A linguagem é uma fonte de mal entendidos.”

Farias, Juarez Machado de. "'Drento', 'é fundamental': Cacoetes e Corruptelas". Novembro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Beco da Dona Santa

Numa segunda-feira, 09 de julho de 2012, à tarde, no átrio do Foro de Piratini, eu e meu amigo “Murrão” aguardávamos uma audiência. Ao falarmos de poesia, ele me deu o seguinte mote: “Beco da Dona Santa”.
Referia-se a um ponto turístico de inspiração açoriana, situado no centro histórico de Piratini, que liga as ruas centrais Bento Gonçalves e Daltro Filho (pela primeira, defronta-se com a rua de calçamento irregular que dá acesso ao prédio do Correio; pela segunda, em frente à Sociedade Recreio Piratiniense).
Dona Santa era uma senhora negra, a qual tive a honra de conhecer, nos idos de 1980. Era muito popular, proprietária de um hotel e restaurante no referido beco. Assim, não foi difícil para mim, mesmo no ambiente frio e tenso do Poder Judiciário, rabiscar estes tortos, mas sinceros versos que, após concluídos, fiz questão de ler ao “Murrão” que os aprovou e que eu agora reparto com o público leitor.
“Murrão” disse-me que quer os versos para fazer uma arte e emoldurar para afixar no próprio beco. Ficarei honrado se isso for possível.
Assim, nesta Semana da Consciência Negra em plenas atividades em Piratini, com eventos de 16  a 18 de novembro na Associação Recreativa e Cultural Treze de Maio, e com sessão solene em 20 de novembro, pela manhã, na Câmara de Vereadores, é apropriado o presente tema:

“Beco da Dona Santa

Que cidade feito águia
A escutar o minuano,
Sobrevoo de coragem
Desde o passado açoriano?

E por ela toda rua
Não é nua de sentido
Tal um beco misterioso
A passar despercebido.

Uma senhora singela,
Com sua história africana,
Ali hospedou pessoas
Em sua casa espartana.

E por ser tão popular,
Esse lugar se agiganta
Na memória desta Terra:
O Beco da Dona Santa.

Que futuro feito lança
Não alcança esta ferida?
Foge o tempo que se escorre
Nesse beco com saída.”

Farias, Juarez Machado de. "Beco da Dona Santa". Novembro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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domingo, 18 de novembro de 2012

A solidão do Gigante

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.”
(Trecho do poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa, 1888-1935)

***

O gigante irrequieto contempla os minúsculos seres que margeiam seu corpo. Agrupam-se em cadeiras, barracas, embaixo de guarda-sóis, alguns estirados como em reverência. O gigante irrequieto está azul, ora verde, ora cor de chocolate. E quando o vento assanha sua pele, ele esbraveja e gesticula com os braços exagerados.

Mas a raiva maior do gigante irrequieto é quando os minúsculos seres – como mosquitos infames – abandonam em sua larga anatomia os seus variados dejetos, principalmente, os de plástico, mortais para os outros e preciosos seres que lhe são amigos de fato.

O gigante irrequieto é criador de variadas formas de vida – maiúsculas e minúsculas. Reflete o céu na extensão de suas formas, no vidro de seus olhos mudos. O gigante irrequieto tem personalidade e, por isso, se sente, invariavelmente, invadido quando seres desrespeitosos penetram, sem pedir licença, nas entranhas de seu organismo.

O gigante irrequieto tem outros irmãos de outros nomes distribuídos pelo globo terrestre e, pelo que sabe pela língua dos ventos, eles também sentem as mesmas angústias que ele. Os seres minúsculos que mais o incomodam pertencem a uma classe requintada pois, além de se locomoverem de vários modos, constroem inventos capazes de explorar as riquezas existentes no seu imenso corpo. Poucos fazem poemas e canções para sua existência exuberante. Muitos ignoram a razão de sua vida e são omissos com o que poucos planejam para sua completa subserviência.

O gigante irrequieto fecha os olhos ardidos de sal. Somente um velho poeta testemunha as lágrimas incompreendidas em plena areia.

Farias, Juarez Machado de. "A solidão do Gigante". Novembro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pelotas em saberes e sabores.

“A simplicidade é o último degrau da sabedoria”.
(Gibran Khalil Gibran, Poeta Libanês, 1883-1931)
***
Dia 07 de novembro foi quarta-feira e bênção de alegrias para eu e Silvia: costuramos novamente o rumo de Pelotas, a Princesa do Sul de teatros e alternativas de saberes e sabores.
Feira do Livro, a quadragésima, na Praça Coronel Pedro Osório, ofertório de cores, capas e páginas que falam com os leitores (quiçá, também com eventuais gnomos que devem brincar dentre as sombras verdes das árvores com carteira de identidade).
Na Doceria Marcia Aquino, novamente a certeza de que podemos saborear um ótimo e barato alimento sem sacrifício animal.
Na Praça palco da Feira, a Tenda Cultural “João Simões Lopes Neto”, desta vez para receber a 2ª Caravana de Escritores.
Por força dos veículos Zero Hora, RBS TV, Rádio Atlântida FM, as cadeiras logo ficaram repletas para seus ocupantes assistirem à prosa ao vivo e de corpos presentes dos escritores David Coimbra, Thedy Corrêa e Claudia Laitano,  com  o mediador Marcio Ezequiel.
Luiz Marenco, cantor e compositor nativista, estava na primeira fila, ao lado de sua esposa. A barba longa nem se movia, tal a atenção para os astros acomodados em cadeiras que falavam de suas experiências e ânsias literárias, etc.
Claudia Laitano mostrou-se fagueira, interessadíssima em falar de seu fazer-literário, de suas obras prediletas, numa simpatia contagiante, procurava responder inteiramente às perguntas de todos.
Thedy Corrêa, o vocalista da Banda “Nenhum de Nós”, mostrou-se, igualmente, simpaticíssimo, humilde, gracioso de fino humor. Disse que só tem boas lembranças de Pelotas, principalmente, do Laranjal, onde, em trio, se apresentou antes de um espetáculo de rock, e, noutra oportunidade, quando recebeu a notícia de que iriam gravar o primeiro disco.
Silvia e Juarez.
O mediador Marcio Ezequiel foi sábio na condução dos movimentos dos diálogos até quando um sujeito impertinente, a bebericar uma lata de cerveja, passou a inquirir Thedy Corrêa, sem pedir licença (que momento!!!).
Infelizmente, desafinou a caravana a arrogância de David Coimbra. Parecia estar enfarado das pessoas sentadas à sua frente, educadamente à espera de uma fala inteligente. Seu olhar era tão superior que parecia considerar a nós, assistentes, um populacho, uma cambada de chatos. Suas respostas eram curtas, e, quando não eram, procuravam impor sua autossuficiência como a de escrever o que quer, sem se preocupar em respeitar o público leitor. Quando (quando?!!!!) aprender lições de humildade com seus ilustre colegas, escreverá muito melhor.
De qualquer forma, a 40ª Feira do Livro de Pelotas veio para demarcar um espaço relevante para os livros e escritores.
Parabéns aos promotores e apoiadores, e que as cidades vizinhas – como Piratini – tenham a coragem de imitá-los.

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Diálogo Livre de Farias, M. S. et alia é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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