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sábado, 23 de julho de 2016

Das vantagens de ser bobo

"O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: ‘Estou fazendo. Estou pensando’.

"Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

"O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

"Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

"Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: ‘Até tu, Brutus?’

"Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

"Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

"O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

"Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!


"Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo".

sábado, 9 de julho de 2016

O discurso de D'Anconia

Então o senhor acha que o dinheiro é a origem de todo o mal? O senhor já se perguntou qual é a origem do dinheiro? Ele é um instrumento de troca, que só pode existir quando há bens produzidos e homens capazes de produzi-los. O dinheiro é a forma material do princípio de que os homens que querem negociar uns com os outros precisam trocar um valor por outro. O dinheiro não é o instrumento dos pidões, que recorrem às lágrimas para pedir produtos, nem dos saqueadores, que os levam à força. O dinheiro só se torna possível por intermédio dos homens que produzem. É isso que o senhor considera mau? Quem aceita dinheiro como pagamento por seu esforço só o faz por saber que será trocado pelo produto do esforço de outrem. Não são os pidões nem os saqueadores que dão ao dinheiro o seu valor. Nem um oceano de lágrimas nem todas as armas do mundo podem transformar aqueles pedaços de papel no seu bolso no pão de que você precisa para sobreviver. Aqueles pedaços de papel, que deveriam ser ouro, são penhores de honra, e é por meio deles que você se apropria da energia dos homens que produzem. A sua carteira afirma a esperança de que em algum lugar no mundo ao seu redor existam homens que não traem aquele princípio moral que é a origem do dinheiro. É isso que o senhor considera mau?
Já procurou a origem da produção? Olhe para um gerador de eletricidade e ouse dizer que ele foi criado pelo esforço muscular de criaturas irracionais. Tente plantar um grão de trigo sem os conhecimentos que lhe foram legados pelos homens que foram os primeiros a fazer isso. Tente obter alimentos usando apenas movimentos físicos e descobrirá que a mente do homem é a origem de todos os produtos e de toda a riqueza que já houve na Terra. Mas o senhor diz que o dinheiro é feito pelos fortes em detrimento dos fracos? A que força se refere? Não à força das armas nem à dos músculos. A riqueza é produto da capacidade humana de pensar. Então o dinheiro é feito pelo homem que inventa um motor em detrimento daqueles que não o inventaram? O dinheiro é feito pela inteligência em detrimento dos estúpidos? Pelos capazes em detrimento dos incompetentes? Pelos ambiciosos em detrimento dos preguiçosos? O dinheiro é feito – antes de poder ser embolsado pelos pidões e pelos saqueadores – pelo esforço honesto de todo homem honesto, cada um na medida de suas capacidades. O homem honesto é aquele que sabe que não pode consumir mais do que produz. Comerciar por meio do dinheiro é o código dos homens de boa vontade. O dinheiro se baseia no axioma de que todo homem é proprietário de sua mente e de seu trabalho. O dinheiro não permite que nenhum poder prescreva o valor do seu trabalho, senão a escolha voluntária do homem que está disposto a trocar com você o trabalho dele. O dinheiro permite que você obtenha em troca dos seus produtos e do seu trabalho aquilo que esses produtos e esse trabalho valem para os homens que os adquirem, nada mais que isso. O dinheiro só permite os negócios em que há benefício mútuo segundo o juízo das partes voluntárias. O dinheiro exige o reconhecimento de que os homens precisam trabalhar em benefício próprio, não em detrimento de si próprios. Para lucrar, não para perder. De que os homens não são bestas de carga, que não nascem para arcar com o ônus da miséria. De que é preciso lhes oferecer valores, não dores. De que o vínculo comum entre os homens não é a troca de sofrimento, mas a troca de bens. O dinheiro exige que o senhor venda não a sua fraqueza à estupidez humana, mas o seu talento à razão humana. Exige que compre não o pior que os outros oferecem, mas o melhor que ele pode comprar. E, quando os homens vivem do comércio – com a razão e não à força, como árbitro ao qual não se pode mais apelar –, é o melhor produto que sai vencendo, o melhor desempenho, o homem de melhor juízo e maior capacidade – e o grau da produtividade de um homem é o grau de sua recompensa. Esse é o código da existência, cujos instrumento e símbolo são o dinheiro. É isso que o senhor considera mau?
Mas o dinheiro é só um instrumento. Ele pode levá-lo aonde o senhor quiser, mas não pode substituir o motorista do carro. Ele lhe dá meios de satisfazer seus desejos, mas não lhe cria desejos. O dinheiro é o flagelo dos homens que tentam inverter a lei da causalidade – aqueles que tentam substituir a mente pelo sequestro dos produtos da mente. O dinheiro não compra felicidade para o homem que não sabe o que quer, não lhe dá um código de valores se ele não tem conhecimento a respeito de valores, e não lhe dá um objetivo se ele não escolhe uma meta. O dinheiro não compra inteligência para o estúpido, nem admiração para o covarde, nem respeito para o incompetente. O homem que tenta comprar o cérebro de quem lhe é superior para servi-lo, usando dinheiro para substituir seu juízo, termina vítima dos que lhe são inferiores. Os homens inteligentes o abandonam, mas os trapaceiros e vigaristas correm a ele, atraídos por uma lei que ele não descobriu: o homem não pode ser menor do que o dinheiro que ele possui. É por isso que o senhor considera o dinheiro mau? Só o homem que não precisa da fortuna herdada merece herdá-la – aquele que faria sua fortuna de qualquer modo, mesmo sem herança. Se um herdeiro está à altura de sua herança, ela o serve; caso contrário, ela o destrói. Mas o senhor diz que o dinheiro o corrompeu. Foi mesmo? Ou foi o herdeiro que corrompeu seu dinheiro? Não inveje um herdeiro que não vale nada: a riqueza dele não é sua, e o senhor não teria tirado melhor proveito dela. Não pense que ela deveria ser distribuída – criar 50 parasitas em lugar de um só não reaviva a virtude morta que criou a fortuna. O dinheiro é um poder vivo que morre quando se afasta de sua origem. Ele não serve à mente que não está a sua altura. É por isso que o senhor o considera mau? O dinheiro é o seu meio de sobrevivência. O veredicto que o senhor dá à fonte de seu sustento é aquele que dá à sua própria vida. Se a fonte é corrupta, o senhor condena sua própria existência. O seu dinheiro provém da fraude? Da exploração dos vícios e da estupidez humanos? O senhor o obteve servindo aos insensatos, na esperança de que lhe dessem mais do que sua capacidade merece? Baixando seus padrões de exigência? Fazendo um trabalho que o senhor despreza para compradores que não respeita? Nesse caso, o seu dinheiro não lhe dará um momento sequer de felicidade. Todas as coisas que adquirir serão não um tributo ao senhor, mas uma acusação; não uma realização, mas um momento de vergonha. Então o senhor dirá que o dinheiro é mau. Mau porque ele não substitui seu amor-próprio? Mau porque ele não permite que o senhor aproveite e goze sua depravação? É esse o motivo de seu ódio ao dinheiro? Ele será sempre um efeito e nada jamais o substituirá na posição de causa. O dinheiro é produto da virtude, mas não dá virtude nem redime vícios. Ele não lhe dá o que o senhor não merece, nem em termos materiais nem espirituais. É esse o motivo de seu ódio ao dinheiro? Ou será que o senhor disse que é o amor ao dinheiro que é a origem de todo o mal? Amar uma coisa é conhecer e amar sua natureza. Amar o dinheiro é conhecer e amar o fato de que ele é criado pela melhor força que há dentro do senhor, sua chave mestra que lhe permite trocar seu esforço pelo dos melhores homens que há. O homem que venderia a própria alma por um tostão é o que mais alto brada que odeia o dinheiro – e ele tem bons motivos para odiá-lo. Os que amam o dinheiro estão dispostos a trabalhar para ganhá-lo. Eles sabem que são capazes de merecê-lo. Eis uma boa pista para saber o caráter dos homens: aquele que amaldiçoa o dinheiro o obtém de modo desonroso; aquele que o respeita o ganha honestamente. Fuja do homem que diz que o dinheiro é mau. Essa afirmativa é o estigma que identifica o saqueador, assim como o sino indicava o leproso. Enquanto os homens viverem juntos na Terra e precisarem de um meio para negociar, se abandonarem o dinheiro, o único substituto que encontrarão será o cano do fuzil.
O dinheiro exige do senhor as mais elevadas virtudes, se quer ganhá-lo ou conservá-lo. Os homens que não têm coragem, orgulho nem amor-próprio, que não têm convicção moral de que merecem o dinheiro que têm e não estão dispostos a defendê-lo como defendem suas próprias vidas, os que pedem desculpas por serem ricos – esses não vão permanecer ricos por muito tempo. São presa fácil para os enxames de saqueadores que vivem debaixo das pedras durante séculos, mas que saem do esconderijo assim que farejam um homem que pede perdão pelo crime de possuir riquezas. Rapidamente eles vão livrá-lo dessa culpa – bem como de sua própria vida, que é o que ele merece. Então o senhor verá a ascensão daqueles que vivem uma vida dupla, que vivem da força, mas dependem dos que vivem do comércio para criar o valor do dinheiro que saqueiam. Esses homens vivem pegando carona com a virtude. Numa sociedade em que há moral, eles são os criminosos, e as leis são feitas para proteger os cidadãos contra eles. Mas, quando uma sociedade cria uma categoria de criminosos legítimos e saqueadores legais – homens que usam a força para se apossar da riqueza de vítimas desarmadas –, então o dinheiro se transforma no vingador daqueles que o criaram. Tais saqueadores acham que não há perigo em roubar homens indefesos, depois que aprovam uma lei que os desarme. Mas o produto de seu saque acaba atraindo outros saqueadores, que os saqueiam como eles fizeram com os homens desarmados. E assim a coisa continua, vencendo sempre não o que produz mais, mas aquele que é mais implacável em sua brutalidade. Quando o padrão é a força, o assassino vence o batedor de carteiras. E então essa sociedade desaparece, em meio a ruínas e matanças. Quer saber se esse dia se aproxima?
Observe o dinheiro: ele é o barômetro da virtude de uma sociedade. Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão, quando para produzir é necessário pedir permissão a homens que nada produzem – quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas têm influência –, quando os homens enriquecem mais pelo suborno e pelos favores do que pelo trabalho, e as leis não protegem quem produz de quem rouba, mas quem rouba de quem  produz – quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira um sacrifício –, pode ter certeza de que a sociedade está condenada.
O dinheiro é um meio de troca tão nobre que não entra em competição com as armas e não faz concessões à brutalidade. Ele não permite que um país sobreviva se metade é propriedade, metade é produto de saques. Sempre que surgem destruidores, a primeira coisa que destroem é o dinheiro, pois ele protege os homens e constitui a base da existência moral. Os destruidores se apossam do ouro e deixam em troca uma pilha de papel falso. Isso destrói todos os padrões objetivos e põe os homens nas mãos de um determinador arbitrário de valores. O dinheiro é um valor objetivo, equivalente à riqueza produzida. O papel é uma hipoteca sobre riquezas inexistentes, sustentado por uma arma apontada para aqueles que têm de produzi-las. O papel é um cheque emitido por saqueadores legais sobre uma conta que não é deles: a virtude de suas vítimas. Cuidado que um dia o cheque é devolvido, com o carimbo “sem fundos”.
Se o senhor faz do mal um meio de sobrevivência, não é de esperar que os homens permaneçam bons. Não é de esperar que continuem a seguir a moral e sacrifiquem suas vidas para proveito dos imorais. Não é de esperar que produzam, quando a produção é punida e o saque é recompensado. Não pergunte quem está destruindo o mundo: é o senhor. O senhor vive no meio das maiores realizações da civilização mais produtiva do mundo e não sabe por que ela está ruindo a olhos vistos, enquanto amaldiçoa o sangue que corre pelas veias dela: o dinheiro. O senhor encara o dinheiro como os selvagens o faziam e não sabe por que a selva está brotando nos arredores das cidades. Em toda a história, o dinheiro sempre foi roubado por saqueadores de diversos tipos, com nomes diferentes, mas cujo método sempre foi o mesmo: tomá-lo à força e manter os produtores de mãos atadas, rebaixados, difamados, desonrados. Essa afirmativa de que o dinheiro é a origem do mal, que o senhor pronuncia com tanta convicção, vem do tempo em que a riqueza era produto do trabalho escravo – e os escravos repetiam os movimentos que foram descobertos pela inteligência de alguém e durante séculos não foram aperfeiçoados. Enquanto a produção era governada pela força e a riqueza era obtida pela conquista, não havia muito que conquistar. No entanto, no decorrer de séculos de estagnação e fome, os homens exaltavam os saqueadores, como aristocratas da espada, aristocratas de estirpe, aristocratas da tribuna, e desprezavam os produtores, como escravos, mercadores, lojistas… industriais. Para glória da humanidade, houve, pela primeira e única vez na história, uma nação de dinheiro – e não conheço elogio maior aos Estados Unidos do que esse, pois ele significa um país de razão, justiça, liberdade, produção, realização. Pela primeira vez, a mente humana e o dinheiro foram libertados, e não havia fortunas adquiridas pela conquista, mas só pelo trabalho, e, em vez de homens da espada e escravos, surgiu o verdadeiro criador de riqueza, o maior trabalhador, o tipo mais elevado de ser humano – o self-made man –, o industrial americano. Se me perguntassem qual a maior distinção dos americanos, eu escolheria – porque ela contém todas as outras – o fato de que foram eles que criaram a expressão “fazer dinheiro”. Nenhuma outra língua, nenhum outro povo jamais usara essas palavras antes, e sim “ganhar dinheiro”.
Antes, os homens sempre encaravam a riqueza como uma quantidade estática, a ser tomada, pedida, herdada, repartida, saqueada ou obtida como favor. Os americanos foram os primeiros a compreender que a riqueza tem que ser criada. A expressão “fazer dinheiro” resume a essência da moralidade humana, porém foi justamente por causa dessa expressão que os americanos eram criticados pelas culturas apodrecidas dos continentes de saqueadores. O ideário dos saqueadores fez com que pessoas como o senhor passassem a encarar suas maiores realizações como um estigma vergonhoso, sua prosperidade como culpa, seus maiores filhos, os industriais, como vilões, suas magníficas fábricas como produto e propriedade do trabalho muscular, o trabalho de escravos movidos a açoites, como na construção das pirâmides do Egito. As mentes apodrecidas que afirmam não ver diferença entre o poder do dólar e o poder do açoite merecem aprender a diferença na sua própria pele, que, creio eu, é o que vai acabar acontecendo. Enquanto pessoas como o senhor não descobrirem que o dinheiro é a origem de todo o bem, estarão caminhando para sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o instrumento por meio do qual os homens lidam uns com os outros, então os homens se tornam os instrumentos dos homens. Sangue, açoites, armas – ou dólares. Façam sua escolha, o tempo está se esgotando.

RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Tradução de Paulo Britto. São Paulo: Arqueiro, 2012.

terça-feira, 22 de março de 2016

Uma canção, uma memória...

Borregardt entrou no trem e logo dirigiu-se a sua cabine. Sentado no cômodo estofado, observava pela janela a bela paisagem interiorana passar a quilômetros. De repente uma canção que soava pelos auto falantes do vagão tirou-lhe de sua divagação. Aquela melodia o transportou para muito além, numa tarde de outono. 

Primeiro o velho carvalho, alto e imponente, bem copado, em seguida uma, duas folhas dançando ao ar em seu processo de descida rumo ao chão de terra onde aos poucos se vão acumulando, cobrindo-o quase totalmente. A névoa que encerra toda afeta recordação vai cessando, dando lugar aos raios dourados de um sol sem calor. Um velho banco protegido pelo carvalho, nele vislumbra-se dois perfis. Antoine tem sua perspectiva transportada: está frente a frente com um  belo par de olhos castanhos, magnetizado pelo doce brilho que deles emana. Moldando aquele olhar estupendo um rosto delicado, de uma tez morena, porém carregado de uma expressão resignada, espécie de dor ou tormento  emudecidos. Incontidamente, levado por aquele magnetismo e um sentimento inexplicável ele leva amavelmente sua mão ao rosto da moça, acaricia-lhe a face, ajeita-lhe os negros cabelos e a beija intensa e apaixonadamente.

Abaixo deles corre mansamente um rio de águas negras, refletindo de maneira opaca a luz daquele sol dourado que inunda toda a cena. 

Vistos de longe, eram lindos, uma pintura épica. Dois corações tão machucados, calados num beijo que gritava vontades e desejos tão antigos. 

O sol toma conta e a imagem se desfaz. Com os olhos marejados, lá estava Borregardt novamente no vagão daquele trem. Os sentimentos daquele momento que, ao menos em lembranças, revivera há pouco ainda lhe preenchiam o peito. 

O sabor daquele beijo, a textura daqueles lábios... Ainda os podia sentir.

"Maldição!', pensou consigo. Supunha já haver esquecido tudo aquilo, superado a paixão falsa e impossível. Aquele arrebatamento o pegou desapercebido. 

Depois de tudo, nunca mais havia ouvido aquela canção. "Magnífica magia tem a musica: é capaz de dar vida a lembranças já 'esquecidas'", conjecturou. 

Não a queria de volta, isso é certo. Já não sente por ela qualquer paixão ou compaixão, mas aquela recordação trouxe-lhe o desejo de beija-la intensamente uma vez mais.

"Não é ela, é a lembrança. A moça por quem me apaixonei aquela tarde morreu. Que morte triste, só restou o corpo vivo - ou será que jamais existira?", concluiu...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O fogo é destruidor, mas é também renovador

[...] Muitas semanas se haviam passado desde aquela conversa com Bella na sala de sua
biblioteca particular, onde sentado em sua poltrona de leitura, observando as chamas da lareira crepitarem, narrou à sua melhor amiga os fantasmas que se lhe assombravam a alma. Antoine ainda podia relembrar aquela cena como que numa fotografia: Bella ainda vestida para a festa de aniversário de sua irmã - donde partiu às pressas para a residência Borregardt -, deitada sobre o divã, com uma taça de Pinot Noir, escutando-lhe, com um olhar sarcástico e curioso cada palavra...
Também se haviam passado muitas semanas desde que tivera aquela dura conversa com Hanna, em seu gabinete no Parlamento. Parecia, enfim, que tudo estava sepultado e sobre as ruínas deixadas por aquela guerra invisível aos olhos, mas sensível ao espírito, uma nova e mais sólida construção se iniciava. Foi então que, certa tarde em seu gabinete chegou-lhe à mão uma correspondência sem remetente. Um envelope branco, com letras pretas cursivas à tinteiro. "Ao Ilmo. Sr. Antoine Borregardt", dizia no destinatário, quanto ao remetente, apenas se podia saber que vinha de Paris.
Ao abrir a envelope, nada mais que um recorte de uma revista literária, especificamente da seção de ficção e romance. Era o excerto, o início, o meio ou quem sabe o fim de algum ensaio, algum conto tragicômico, quem sabe?! Dizia:

"... como é doloroso abrir mão de algo que amamos, alguém a quem sempre desejamos pertencer, mas o amor é traiçoeiro, não?!...
Ainda me lembro daqueles olhos azuis como as águas do Caribe, do cabelo bagunçado e do riso solto a cada encontro. Lembro-me do perfume e da camisa amarrotada, da gravata favorita... 
Doces lembranças!, mas a insensatez da juventude, a qual tanto me fascinou, a vivacidade e a sede de aventura que ainda vejo em suas fotos quando, ao caso, encontro uma ou outra notícia num jornal ou numa revista, faz-me, secretamente, imaginar-nos ainda na imensidão do mundo das ideias. Inútil! 
Minha dor se ameniza somente pelo esquecimento, num outro amor, maior quem sabe?!, que me faz esquecê-lo tão brevemente quanto o foi nosso amor.
Talvez ele jamais saiba, mas em um dia cinzento, caminhando pelas ruas de Paris, andamos lado a lado: ele não me reconheceu - e por isso pude admirá-lo demoradamente, sem o inconveniente de ser notada e ter de vestir minha túnica de gelo. A dor que sinto, tenho certeza, veria então em sua face. Bem sei quem foi responsável por tudo isso, mas era necessário, ambos sabíamos, porém não tínhamos coragem de dizer adeus...
Admiro-lhe a força, afinal, ele finalmente está seguindo em frente e, embora não se recorde de meu rosto - tantos anos se passaram - ou fingir não recordar - isso não importa - tenho convicção de que, em algum lugar de seu coração ao menos as cinzas do amor que nos consumiu um dia ainda há de existir!
É estranho pensar que apenas um final de semana bastou para que um sentimento maior que a eternidade nos tomasse conta, para que nos conhecêssemos mais que a qualquer outro. 
Mas hoje não tenho certeza se isso foi real. Sobrou-me apenas a lembrança de uma lágrima apaixonada, de um sorriso despreocupado, de um 'te amo'..."

A página acabou. Além de não ter um começo, também não tem fim. Que perda de tempo, pensou Antoine. Certamente é um trabalho amador, publicado na seção de envios do leitor. Mas por que me foi enviado? Devem ter me confundido com o redator, ou pensado que, se me agradasse, poderia recomendar ao editor. Mas não tem dados do autor, nem da revista. Amaçou o papel e preparou-se para jogá-lo no lixo quando viu um impresso no interior do envelope: era um rabisco: um guarda-chuvas vermelho. Então Antoine deu-se conta de quem lhe havia remetido aquilo: Kate! 
Rapidamente dirigiu-se à lareira, acendeu o fogo e lá jogou o recorte da revista e o envelope. Assistiu ao fogo consumir cada centímetro daqueles papéis, certificou-se de que nada sobraria. Assim como Kate jamais deveria ter saído de seu passado para seu presente, esse pedaço do ontem não deve existir no agora. Pensou em Hanna, pensou em Bella, nas últimas semanas, em tudo. 
Ao sair do gabinete recomendou à sua secretária: "mande limpar a lareira, eu não quero nem vestígios de cinzas por lá. Se preciso, mande lavar, raspar o reboco e fazer de novo!". "Por Deus!, senhor Borregart, que houve?", perguntou-lhe a pobre moça. Com um olhar sarcástico, calmamente Antoine lhe responde: "Alguns túmulos nunca devem ser (re)abertos, pois nunca se sabe se o que há lá dentro está morto ou vivo!".
Sentindo-se em paz, com um breve sorriso e sem que a sua interlocutora tivesse tempo de pensar e voltar a falar, Antoine Borregardt seguiu caminhando pelo enorme corredor do palacete do parlamento, cantarolando baixinho uma velha canção brasileira, pensando em Hanna e todo seu amor por ela...


Autor Desconhecido

sábado, 9 de janeiro de 2016

Ensinar e aprender nunca acabam

Olhando os comentários em algumas páginas com publicações acerca do ENEM, vê-se um sem número de pessoas reclamando não propriamente de seu desempenho, mas da enorme distância entre aquilo que eles viram em sala de aula durante seu Ensino Médio e aquilo que lhes foi cobrado no concurso.
Isso me fez recordar de uma das muitas discussões que minha turma tinha com os professores no último ano do Ensino Médio sobre o ensino. Nós queríamos aulas que nos preparassem para o Exame; eles argumentavam que o ensino não podia destinar-se a um concurso, que isso seria tão somente um treino. E eles estavam cobertos de razão, embora errados.
Explico.
A função do ensino é capacitar, de maneira que, frente a um novo desafio, o sujeito seja capaz de desenvolver as habilidades necessárias para superá-lo. É por isso que, depois de estudar Cálculo durante um ou mais semestres, por exemplo, os acadêmicos são capazes de, no futuro, desenvolverem habilidades em outras áreas como a Estatística ou a Matemática Financeira com maior facilidade, pois possuem capacidade de entendimento maior.
O treino, no entanto, direciona para um único objetivo: fazer incessantemente listas de cálculo, sem se preocupar com os conceitos, por exemplo, pode fazer com que o acadêmico passe em Cálculo porque entendeu o que fazer frente a um modelo ou outro de atividade, mas ele não se apropria disso e logo que a prova passa e o objetivo - aprovar - é consumado, esquece.
Quando eu estava no Ensino Médio, a maioria dos meus professores estava preocupada em fazer-nos aprovar. Ensinavam segundo um curriculum que acreditavam ser capacitador, todavia, esse ensino não acompanhava a realidade. Hoje, um estudante de Administração, eu diria: o Ensino Médio que eu tive foi pouco eficiente e pouco eficaz. A matriz curricular estava muito distante daquilo que eu precisei. Digo isso por que quando efetivamente tive de desenvolver novas habilidades, o ensino que eu tive não me propiciou uma boa base - e eu tive de desenvolvê-la aos poucos.
Felizmente isso não se aplica a todos. Em três anos de Médio eu tive alguns professores memoráveis, instigantes, graças aos quais eu cheguei à Faculdade com um bom domínio de alguns assuntos importantes - meu primeiro semestre que o diga!
Por isso, hoje, frente a tantas frustrações frente ao Exame Nacional do Ensino Médio, eu pergunto: que tipo de ensino capacitador as escolas de segundo grau preocupam-se tanto em defender se suas matrizes curriculares estão simplesmente caducas? Treinar é uma ideia terrível, mas aprisionar intelectos é ainda pior, eu diria. As instituições secundaristas precisam atualizar-se, melhorar o grau de exigência e qualificação de seus alunos. Mas isso só é possível se: (a) os diretores e os coordenadores tiverem visão, e isso requer acompanhar as transformações, tendências e exigências do mundo lá fora, e com isso projetar o ensino necessário à formação de um indivíduo capaz; (b) os professores, igualmente, estiverem em contínua aprendizagem e desenvolvimento - e não parados no tempo, encorados nos conhecimentos de quando colaram grau em 1990 ou em 2000. 
A frustração sobre a qual falei no primeiro parágrafo é fruto desse descompasso cronológico e qualitativo entre as salas de aula e a realidade. Não é normal concluir o Ensino Médio com a sensação de que pouco ou nada se aprendeu, de que não se tem conhecimentos suficientes para, por conta própria, ampliá-los. Não é sinal de qualidade só aprender no Ensino Superior àquilo que é competência da esfera anterior.

Farias, M.S. "Ensinar e aprender nunca acabam". Janeiro de 2016. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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