sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Isomeria

Introdução

Até o presente momento se tem estudado boa parte das funções orgânicas da Química, de modo que se pode distinguir, através da representação estrutural planificada, a natureza do composto – éter, cetona, aldeído, ácido, etc.
Todavia, a fórmula molecular tão-somente não é uma informação bastante para se compreender efetivamente do que se trata certo produto: dependendo da organização dos elementos das moléculas obtêm-se distintos compostos, como é o caso do C2H4O2 que pode originar um ácido, um éster e substância de função mista.
É justamente esta particularidade de determinados compostos de apresentarem fórmula molecular, plana, centesimal ou empírica iguais e divergirem, em maioria dos casos, quanto à natureza físico-química a que se denomina Isomeria.

No presente objeto de estudos falar-se-á acerca dos distintos tipos de isomeria, a saber: 1.ª Plana: (a) de cadeia ou núcleo; (b) de posição; (c) de compensação ou metameria; (d) de grupo funcional ou função; (e) tautomeria. 2ª. Espacial ou estereoisomeria: (a) geométrica; (b) óptica.

Isomeria Plana

As representações planificadas das estruturas atômicas são um grosso modo de representar moléculas, pois estas se formam sempre no espaço, ou seja, são complexas organizações tridimensionais de elementos químicos. Não obstante, esta pouco elaborada forma de demonstração sobre como os átomos organizam-se em uma molécula é suficientemente clara para que se possam analisar todos os isômeros possíveis à determinada fórmula.
Destarde, conforme o tipo de cadeia, a posição dos elementos ou a relativa localização de um hetero-átomo ou insaturação, o fato de isômeros obtidos pertencerem ou não à mesma função, ter-se-á uma classificação específica de isomeria plana.

v Isomeria de cadeia ou de núcleo: dá-se quando, pertencendo à mesma função orgânica, os isômeros diferem apenas quanto à disposição e/ou presença de (in)saturação da cadeia carbônica. Tome-se, por exemplo, o C3H6:


v Isomeria de posição: apresenta o mesmo tipo de cadeia e classe funcional diferindo apenas quanto à posição relativa de uma insaturação ou radical funcional (OH; NH; O; Cl; CH3). Por exemplo, tem-se: C18H30O2 e C3H8O:





v Isomeria de compensação ou Metameria: trata-se de um caso particular de isomeria que se baseia na posição relativa de um heteroátomo. É assim denominada porque a quantidade de átomos de carbono que aumenta ou diminui em cada lado do heteroátomo é proporcional à quantidade de carbonos que aumenta ou diminui do outro lado correspondente. Por exemplo, C4H10O:


v Isomeria funcional ou de função: compreende esta classificação aos casos em que, dependendo da posição relativa de heteroátomos e/ou insaturações, ocorre a mudança de uma função química para outra; ou seja, são os casos em que uma mesma fórmula molecular origina compostos de diferentes funções. Por exemplo, C2H4O2:



v Tautomeria ou isomeria dinâmica: trata-se de um caso muito particular de isomeria funcional que ocorre em soluções. Dá-se quando dois isômeros – chamados tautômeros – coexistem em equilíbrio dinâmico, transformando-se um no outro por meio da migração de um átomo de hidrogênio na molécula.
Os dois casos de tautomeria mais utilizados no estudo da Química orgânica em nível de Ensino Médio são:

ü  Tautomeria aldo-enólica: dá-se entra aldeído e enol, que possuam no mínimo dois átomos de carbono. Por exemplo, tem-se C2H4O:


ü  Tautomeria ceto-enólica: ocorre entre cetonas e enóis que possuam no mínimo três átomos de carbono. Por exemplo, C3H6O:


Isomeria espacial ou estereoisomeria

A isomeria geométrica abrange os casos de isômeros que somente podem ser esclarecidos através de fórmulas estruturais espaciais, sendo insuficientes as fórmulas planas até então vistas. Subdivide-se em:

v Isomeria geométrica ou cis-trans: somente ocorre em compostos de cadeia aberta que possuem dupla ligação entre átomos de carbono ou em cadeias cíclicas. 

v Cis-trans de cadeia aberta: para que ocorra é necessário que o composto apresente ao menos uma dupla ligação entre átomos de carbono e que cada um dos carbonos da dupla contenha grupos ligantes diferentes. Tome-se, por exemplo, C2H2Cl2:


A fim de facilitar a análise das cadeias geométricas usa-se traçar uma linha imaginária ao longo da dupla ligação, conforme exemplificado acima. Sempre que os grupos ligantes (em nosso caso o Cl) estiverem de um mesmo lado da linha considerada, então a cadeia será “cis”; se os grupos ligantes estiverem em lados opostos da linha, então a cadeia será “trans”, conforme demonstram os exemplos supracitados.

Quando as cadeias são um tanto mais complexas e apresentam diversos ligantes todos diferentes entre si, usa-se considerar o de maior número atômico para determinar se se trata de cadeia “cis” ou “tans”. Por exemplo:


v Cis-trans em cadeias cíclicas: neste particular não é imperiosa a existência de dupla ligação, conquanto que em ao menos dois carbonos da cadeia existam dois ou mais grupos de ligantes diferentes. Não obstante, neste tipo de isômero os ligantes de cada átomo considerado, por mais diversos que sejam, devem ser os mesmos do outro átomo analisado. Por exemplo:


Note-se que foram consideradas, na análise acima, as ramificações da cadeia e que ambos os carbonos ramificados possuíam ligações com CH3 e H. Ou seja, individualmente possuíam grupos ligantes diferentes, porém, os mesmos do outro átomo, logo, permitindo que a cadeia apresente isomeria geométrica.

Para simplificar, alguns dos autores pesquisados consideram que basta verificar se existem no ciclo dois carbonos, não necessariamente próximos, com dois ligantes diferentes.

Quando a cadeia cíclica possui apenas um ligante fora do ciclo, a pesar de conter dupla ligação, ela não é um isômero cis-trans. Veja-se a exemplificação:


v Isomeria óptica: trata-se de um caso muito particular de isomeria em que as moléculas, sendo assimétricas, quando atingidas por um feixe de luz polarizada, tendem a desviá-lo ou em sentido horário (dextrorrotatório ou dextrogiro, representado pela letra d) ou em sentido anti-horário (levorrotatório ou levogiro, representado pela letra l). Assim, alguns autores, a fim de explicarem tal comportamento, comparam o fenômeno como que se colocando a molécula assimétrica frente a um espelho, cuja imagem refletida será o isômero conhecido por óptico ou enantiomorfo ou, ainda, enantiômero.
Consideremos, para efeito de ilustração, o elemento de fórmula molecular CHBrClF:


Todavia, como o nível de estudos atual descarta a possibilidade de experiências laboratoriais complexas e mesmo porque a título de estudos, em termos gerais, interessa a análise da fórmula estrutural representada sobre um plano é que se deverá considerar como referencial determinante à presença ou ausência de moléculas assimétricas a existência ou não de carbono quiral, também conhecido por centro quiral ou carbono assimétrico.

“A assimetria molecular estará presente se houver um carbono que faça quatro ligações simples e que esteja ligado a quatro grupos diferentes. [...] A presença de um carbono quiral é condição suficiente para a isomeria óptica.” (MIRAGAIA & CANTO, 2006).

Ou seja, o carbono quiral será aquele que estiver ligado a quatro grupos distintos. Utilizemos como exemplo a representação planificada do elemento CHBrClF, acima representado tridimensionalmente.



Perceba que o carbono – destacado com um asterisco (*), conforme as convenções da Química Orgânica – é o carbono assimétrico, pois está ligado a quatro distintos grupos: Cloro (Cl); Oxigênio (O); Bromo (Br); Hidrogênio (H).

Quando o carbono possuir uma ligação dupla, tripla ou duas duplas, ele não será o carbono quiral, pois a configuração geométrica da estrutura será simétrica.

v Isomeria óptica em compostos cíclicos: para que tal exista a estrutura não poderá ter forma simétrica, devendo cada carbono conter ligantes fora do ciclo; quando analisada no sentido horário, a cadeia deverá apresentar percurso diferente de quando analisada em sentido anti-horário. Vejamos as exemplificações:



A fim de que se determine qual dos carbonos assinalados (A,B,C,D,E) é o carbono central, devemos analisar, primeiro, as ligações que eles tecem. Assim, notaremos que A, B e C possuem duas ligações iguais e nenhuma fora da cadeia, logo, acatando a regra já vista, não podem sê-lo. Restam dois carbonos, D e E, que possuem duas das quatro ligações diferenciadas, sendo as outras duas ligadas à cadeia. Para que se determine qual deles é quiral dever-se-á analisar a cadeia concomitantemente em sentido horário e anti-horário.

Considerações Finais
Embora não seja uma situação comum ao quotidiano, avaliar certos produtos cujas informações vêm transcritas em fórmula molecular pode ser um perigoso engano, haja vista que diversos compostos podem surgir em função do arranjo das partículas. Contudo, verdade seja dita, é algo muito raro alguém analisar as informações técnicas/químicas do que seja no supermercado ou qualquer outro local; a miúde tais observações cabem a agricultores e funcionários de laboratórios de química ou hospitalar, onde o manejo de substâncias requer extremo cuidado.
É fácil imaginar o porquê de em um laboratório esse conhecimento ser imprescindível, mas um tanto mais difícil em relação aos agricultores. Pois bem, fazendas de grande porte – e mesmo algumas de médio porte – necessitam afastar pragas de suas plantações ou rebanhos. Os produtos utilizados para isso possuem concentrações bastante elevadas de venenos e outros tóxicos, de modo que a aplicação de um produto inadequado ou de procedência duvidosa pode acarretar imensos prejuízos tanto financeiros quanto legais ou de saúde do ecossistema e dos manejadores.
Os isômeros, de um ponto de vista estritamente técnico, são importantíssimos para o estudo amplo e aprofundado da química orgânica, pois permitem uma melhor compreensão de como se comportam os átomos dentro da molécula e, por sua vez, como agem as soluções ou como se dão as reações químicas.
Particularmente, a isomeria óptica parece ser a mais interessante de todas, embora a mais difícil de estudar, também. As primeiras substâncias opticamente ativas (SOA) conhecidas eram compostos minerais na forma cristalina, como o quartzo (SiO2) e o clorato de potássio (KClO3), por exemplo.
Pasteur foi o primeiro químico de que se tem notícia a separar os cristais responsáveis pela isomeria óptica, no caso cristais de ácido tartárico, que ele dividiu manualmente, utilizando-se de uma lupa. Ele, primeiramente, e mais tarde alguns outros cientistas, percebeu que esses cristais tinham em comum a forma assimétrica e que, quando dissolvidos ou fundidos, a substância tornava-se opticamente inativa (SOI). Assim, inferiu-se que tal fenômeno dava-se em função exclusiva da assimetria cristalina, não havendo relação com a natureza química da substância.
Nos primórdios do século XX, um cientista chamado Biot descobriu que, dentre outras, as soluções de ácido tartárico, cana-de-açúcar e cânfora apresentavam poder rotatório. Ele afirmou, portanto, que a assimetria deveria ocorrer dentro da própria molécula da substância. Posteriormente, Kekulé conseguiu desenvolver ainda mais as fórmulas estruturais fazendo surgir o conceito de carbono assimétrico como sendo o átomo Tetracovalente (Teoria da Tetracovalência do carbono), ou seja, o átomo de carbono que troca suas quatro valências com radicais distintos.
O conhecimento da função rotatória das moléculas foi também muito importante para a compreensão da isomeria geométrica: uma molécula somente será isômero cis-trans se não houver movimento giratório da molécula; quando alifática este movimento é impedido pela dupla; quando cíclica analisa-se a impossibilidade de movimento para determinar se ela pode ou não ser isômero – lembrem-se dos exemplos acima: a cadeia cíclica cuja rotação era permitida, apesar da dupla (1,2-dimetil-ciclopropano) não servia para isômero geométrico.
Um ponto importante a se considerar: na isomeria geométrica de compostos cíclicos a dupla ligação não impede a rotação, mas sim o arranjo dos elementos: a presença no ciclo de dois carbonos com dois ligantes diferentes.
Por fim, cabe mencionar que a química orgânica é também empregada na Biologia para, por exemplo, estudar o comportamento dos aminoácidos no organismo humano, como também as reações físico-químicas ocasionadas pela ingestão de medicamentos, alimentos e/ou bebidas. 

***
Referências:

http://answers.yahoo.com/question/index?qid=20090112144416AAGU0eb
http://en.wikibooks.org/wiki/Organic_Chemistry/Print_version
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%94mega_3
http://pt.wikipedia.org/wiki/August_Kekul%C3%A9
http://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%B3rmula_emp%C3%ADrica
http://pt.wikipedia.org/wiki/Geometria_molecular
http://pt.wikipedia.org/wiki/Isomeria_nuclear
http://quimicaorganicacursinho.blogspot.com.br/2012_07_01_archive.html
http://quimicasemsegredos.com/documents/Loja/Isomeria-PPT.pdf
http://quimicasemsegredos.com/isomeria-optica.php
http://www.alunosonline.com.br/quimica/formula-minima-ou-empirica.html
http://www.brasilescola.com/curiosidades/omega-3.htm
http://www.brasilescola.com/quimica/formula-percentual-ou-centesimal.htm
http://www.brasilescola.com/quimica/isomeria-compensacao-ou-metameria.htm
http://www.brasilescola.com/quimica/isomeria-Optica.htm
http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/quimica/isomeria/isomeria-de-cadeia.html
http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/quimica/isomeria/isomeria-de-posicao.html
http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/quimica/isomeria/isomeria-de-compensacao-ou-metameria.html
http://www.ebah.com.br/content/ABAAABRMIAK/radioatividade
http://www.infoescola.com/quimica/isomeria/
http://www.infoescola.com/quimica/isomeria-de-cadeia/
http://www.mundoeducacao.com/quimica/isomeria-cadeia.htm
http://www.mundoeducacao.com/quimica/isomeria-compensacao-ou-metameria.htm
http://www.mundoeducacao.com/quimica/isomeria-optica.htm
http://www.mundoeducacao.com/quimica/isomeria-posicao.htm
http://www.supplementquality.com/news/fatty_acid_structure.html
http://www.ufjf.br/cursinho/files/2012/05/Apostila-de-Qu%C3%ADmica-4-108.136.pdf
ISOMERIA: In: BENTON, William. Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro, São Paulo: Encyclopedia Britannica Editores LTDA. 1964 – 1969; p.: 73b -75b. Tomo 08.
Peruzzo, Francisco Miragaia. Química na abordagem do cotidiano. 3º v. 4ª ed. São Paulo: Moderna, 2006.

ANEXOS¹


v Fórmula Percentual ou Centesimal: é possível fazer essa determinação centesimal porque, como mostra a Lei das Proporções Constantes de Proust, as substâncias puras sempre apresentam os mesmos elementos combinados na mesma proporção em massa. Além disso, essa é uma propriedade intensiva, isto é, não depende da quantidade da amostra. A fórmula percentual é importante, pois ela é o ponto de partida para se determinar as outras fórmulas químicas dos compostos, como a fórmula mínima ou empírica e a fórmula molecular.

A fórmula matemática usada para calcular essa porcentagem é dada por:

Por exemplo: “Determine a fórmula percentual de um sal inorgânico, sendo que a análise de sua amostra indicou que em 50 g dessa substância existem 20 g de cálcio, 6 g de carbono e 24 g de oxigênio”:

Porcentagem de massa do cálcio = 40%

Porcentagem de massa do carbono = 12%

Porcentagem de massa do oxigênio = 48%

Ca40%C12%O48%

***

v Fórmula Mínima ou Empírica: A fórmula mínima ou empírica indica a menor proporção, em números inteiros de mol, dos átomos dos elementos que constituem uma substância. Podemos determinar a fórmula empírica a partir da Fórmula Percentual, dividindo cada percentual pela massa atômica de cada elemento.

Por exemplo:

“Considerando uma amostra de 100g, as porcentagens em massa nos permitem
concluir que a substância contém 75 g de carbono e 25 g de hidrogênio. Dividindo
esses valores pelas respectivas massas molares, temos:”


Esses valores indicam a proporção entre os elementos, porém, não são a menor proporção e nem estão em números inteiros. Para conseguirmos isso, basta dividir os dois valores pelo menor deles, que no caso é o 6,25. Isso pode ser feito porque quando dividimos ou multiplicamos uma série de números por um mesmo valor, a proporção que existe entre eles não é alterada.


Portanto, a fórmula mínima/empírica desse composto é: CH4.

[1] Anexos extraídos diretamente dos sites.


Farias, M.S.: "Isomeria". Dezembro de 2013.
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sábado, 14 de dezembro de 2013

Sobre o que esperar...




      A dor que julgo carregar não se compara a felicidade da qual disponho todos os dias. Sempre achei sorrisos dispensáveis, mas hoje a opinião é outra. Talvez seja a idade que cresce ou a sabedoria que se aumenta, enquanto percorro os caminhos que me são destinados aprendo e envelheço. Não que julgue a idade um fator determinante em questão de conhecimento – muito pelo contrário! – mentes são inquietas e trovejantes independentes de quando sua mocidade ocorre. Também pensamentos são calmos e construtores sejam lá quais forem os seus tempos de vida.

     "O que não nos mata nos ensina a viver."
     A fraqueza do corpo também nada tem a ver com a força da alma, portanto se és forte em corpo e alma ganhas ainda mais. Não foi por pouco que nos foi dito que haviam pedras no caminho e que no caminho haviam pedras, elas estão lá a procura de quem não as esqueça... A procura de quem aprenderá que nada mais vale do que enfrentá-las e empurra-las para fora do caminho.
    Tento convencer-me do que digo e ainda mais do que escrevo, pois o futuro é isso, deixar do que tens. Quando individuo qualquer dizer-lhes que o futuro já vem despeça-se do que adquiriu (deixe apenas os ensinamentos aprendidos), treine o desapego, calce os sapatos de caminhada, pois o futuro não espera nada nem ninguém. 


  Farias, Maikéle. "Sobre o que esperar...". Dezembro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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domingo, 8 de dezembro de 2013

Um Rastro de Você.

As horas passam, só você não
Seja no quente e tumultuado dia
Ou na fria calada da noite
Aragem, refém de um açoite
Mormaço, ladrão da poesia

Ausente está
Moça faça-se aqui
Eu jamais lhe proibí
De ser alguém que saiba
O caminho dos meus sonhos

Por outro chão
Seus pés se firmam
Se não nasce o despertar
Sonhará o dom de esperar
Suspirando e relembrando
Dos nossos olhares se cruzando

Naquele momento
Conheci seu universo
Os seus cantos e cantares
Desfaz o prejuízo
De uma vida sem amor
Põe na fruta seu sabor
De doce menina alegre
Um rastro de você, eu tenho
Mas pode vir o amor a quem o persegue?

Proibida! Quem sabe esquecida
De dormir nos meus braços
Injustiça é o que nos impede
De sermos um só
Pois naquele abraço é que soubemos
Quanto de amor nosso coração mede

Passe por mim
Eu vou lhe acenar
Basta um beijo de amor
Para caminharmos juntos... sem parar...

Mas nossas estradas são tão distantes
Quando penso que posso não ver mais
O desenho do seu rosto
Esqueço quem e o que sou

Tudo o que peço à Deus
É a oportunidade de passarmos um pelo outro
Para eu poder me inspirar... lhe decorar!
E lhe dar os versos que a ninguém dediquei
“O mundo às vezes é pequeno”
Esta é a única frase que pode justificar
Por que eu te amei

Garcia, Samuel. "Um rastro de você". Dezembro de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Escrever bem ou de fato construir um texto?

Escrever é bem mais do que simplesmente arranjar palavras com tinta; do que saber onde, quando, como e qual vocábulo empregar. Não se trata somente de seguir à risca as normas de Gramática e Sintaxe, e sim de encadear e desenvolver ideias. Há textos cuja aparência é sofrível, contudo, sua essência é fascinante! Um texto gramaticalmente mal construído, porém inteligível, com ideias bem estruturas e argumentos bem trabalhos é facilmente consertado por alguém que mantenha um "relacionamento estável" com a Língua Portuguesa. Mas a recíproca não é verdadeira: um texto bem construído, porém de conteúdo supérfluo, mal trabalhado ou mesmo inexistente é apenas um belo corpo sem alma; um fruto sem polpa; apenas casca.
Compor exige toda uma engenharia intelectual, pois é na escrita que se concatenam todas as áreas do conhecimento - atrevo-me a dizer que é justamente nela que o conhecimento apresenta-se de fato: sem a divisão cartesiana empregada pelas instituições de ensino e que, infelizmente, é mantida pela maioria dos indivíduos ao longo da vida. 
Se pararmos para refletir um instante podemos inferir que a linguagem é a mais divina, a mais sagrada das dádivas humanas; a maior forma de poder que o ser humano é capaz de desenvolver. Foi justamente a capacidade de comunicação, dentre outros aspectos fisiológicos, que, segundo autores como David Coimbra, em "Uma História do Mundo", nos fez sobressair a todas as outras formas de "homo" conhecidas.
Hitler, por exemplo, utilizou-se tão-somente de sua habilidade dialética para dominar a Alemanha; conquistou seus compatriotas de tal forma que estes dispuseram suas vidas em prol de uma utopia insana e psicopática. O Führ pode não ser um modelo de homem, mas certamente é um dos maiores exemplos do que podem as palavras. Gandhi, por sua vez, guerrilhou contra o imperialismo britânico e os fuzis das milícias com a mais poderosa arma de que dispunha: a fala e o exemplo.
Os essênios, segundo consta, consideravam a fala algo tão sagrado que viviam a maior parte do tempo em silêncio, refletindo. Hoje, contudo, a necessidade de comunicar tudo quando pensamos, presenciamos ou sentimos, a simples necessidade de falar tem tornado esse aspecto da linguagem algo mui esquecido, ou mesmo banalizado, embora seu poder seja sempre o mesmo.
Recentemente, em função de um trabalho para a disciplina de Produção Textual, é que pela primeira vez senti o grande hiato que existe entre "escrever bem" e construir um texto, de fato. Por melhor que minha estimada professora avaliasse o material que lhe entreguei, segundo as competências exigidas, eu sinceramente não me encontro satisfeito com o que produzi. Sempre que releio a dissertação tenho a nítida impressão de estar segurando apenas a carcaça de algo.
Eu não consegui identificar-me, relacionar-me com o tema da atividade, de modo que produzi algo, como eu poderia dizer?, "alheio" a mim. Não consigo deglutir aquelas linhas, muito menos adentrar naquele tema que me parece tão prolixo, tão complexo.
Sinto-me, com isso, bastante incompetente. E é justamente porque percebo imerecida qualquer menção elogiosa àquele material, considerando sua essência, que grafo estas linhas não como uma crítica a quem quer que seja, mas sim como que um "desafogo"; espécie de "análise de consciência". 

"A expressão vocabular humana não sabe ainda e, provavelmente, não o saberá nunca conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável e sensível." (José Saramago).


Farias, M.S.: "Escrever bem ou de fato construir um texto?". Novembro de 2013.
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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Arte contemporânea

Dentre as diversas vertentes da Arte Contemporânea há uma em particular que visa à reaproximação do ser humano com a natureza, ligá-lo com o mundo físico à sua volta, ou antes, resgatar este elo. Dentre os artistas que em tal vertente bem se enquadram estão Karin Lambrecht, Adriana Varejão e Carlos Vergara. Todos estes, à sua maneira, celebram a vida e a relação do homem com a natureza.

Karin Lambrecht

Karin Marilin Haessler Lambrecht nasceu em Porto Alegre, no ano de 1957. Começou seus estudos no Ateliê Livre da Prefeitura Municipal dessa mesma cidade. No início da década de 1980, faz curso de pintura com Raimund Girke (1930 - 2002), na Hochschule der Künste, em Berlim.

Na década de 1990, começa a agregar materiais orgânicos, como grãos de terra e sangue, à superfície das telas. Contudo, no começo de sua trajetória artística utilizava-se predominantemente de resíduos industriais.

Karen atualmente trabalha, maiormente, com tons de azul, e passa a explorar os vermelhos, ocres e amarelos, por meio de pigmentos naturais, que variam desde finas camadas de terra, ao carvão ou ao sangue de animais abatidos. Por vezes, expõe as obras à ação da natureza, como o sol, vento ou chuva, que as modifica e faz com que elementos novos, como folhas de árvores, fragmentos de cascas ou pegadas de animais, sejam agregados a elas.







































Adriana Varejão

Nascida no Rio de Janeiro em 1964, Adriana realizou sua primeira exposição em 1988, mesmo período em que participou de uma coletiva no Stedelijk Museum, em Amsterdã.
Atualmente é considerada uma das personalidades mais relevantes da arte contemporânea, havendo participado de mais de 70 exposições em diversos países, tal como Bienais em Veneza e São Paulo; Tate Modern, em Londres e MoMa, em Nova Iorque. Vários institutos e museus já promoveram exposições de sua obra, dentre eles: Fundação Cartier, em Paris, Centro Cultural de Belém, em Lisboa e Hara Museum, em Tóquio.
Em 2008 ganhou um pavilhão dedicado à sua obra no Centro Inhotim de Arte Contemporânea.
Varejão trabalha com a pintura e a azulejaria. Na pintura utiliza-se de materiais pouco convencionais qual o poliuretano e o alumínio. Como a própria artista refere:
“Trago elementos alienígenas: [...] materiais pouco tradicionais, que não pertencem à pintura. Não pinto como forma de resistência e sim porque é o meio que mais se adapta ao que quero dizer”. (Varejão, http://adrianavarejao.net/).

Já seu trabalho com azulejos era, originalmente, baseado em paródias que a artistas produzia de painéis barrocos azulejados. A posteori Adriana passou a emprega-los com razões geométricas e, mais tarde, por influência da presença destes elementos na arquitetura da cidade carioca:
“Me identifico (sic) muito com a arquitetura carioca de botequins, e eles são azulejados. O azulejo não está só presente na minha obra, ele está presente na vida do Rio de Janeiro. É uma herança portuguesa”. (Varejão, http://adrianavarejao.net/).

Um aspecto da obra de Adriana é sua relação com o barroco brasileiro. Assim como no barroco a Arte possui força expressiva e o apelo à matéria, também é a obra de varejão: busca destacar a matéria, o físico:

“Não sou religiosa, meus pais também não, a gente não tinha o hábito de visitar museus e igrejas. Quando vi as igrejas barrocas de Ouro Preto, não pude acreditar! Aquela exacerbação da volúpia da matéria me deu uma rasteira que nunca mais esqueci. Foi uma epifania que vivi aos 22 anos. A partir daí fui tomada por esse universo.” (Varejão, http://adrianavarejao.net/).

Uma característica marcante – e que confere singularidade – da obra de Adriana Varejão é a representação de carnes. Tal como as incisões representadas em suas telas, as carnes dão um ar violento e muito expressivo a obra da artista. Tal como dito, sua intensão é destacar o físico, o material, de modo que composições como “azulejo verde e carne viva” sugerem que a parede é um organismo vivo, uma “extensão do ser”.

“As carnes vêm de muitos séculos de pintura. Faço parte de uma tribo de pintores que pintam carne: Goya, Rembrandt, Francis Bacon... Quando pinto carne, falo também da tradição da pintura. Ela nasceu na minha pintura de uma investigação interna do próprio trabalho. O que busco é uma certa (sic) impureza. Existe uma tendência no mundo, na arte e na cultura à assepsia. Tenho pavor de assepsia. Gosto de fantasmas, paredes habitadas, sótão, porão... A gente está muito distante da matéria. [...] Existe uma vontade de limpeza e assepsia muito grandes, que distancia a gente da ideia da vida, do corpo, do nascimento, da morte. Busco as saunas porque elas são cheias de impurezas: cabelos, fluídos, restos de pele... Tento simular uma parede toda azulejada, e essa parede é cortada – existe uma pulsão dentro dela, que é a carne. A parede é habitada, viva. O rasgo ali é para mostrar que a casa, a parede são extensões do nosso corpo. A gente tende a entrar numa casa e pintar, apagar os vestígios de tudo o que passou por ali. Tenho uma tendência a resgatar isso. A carne não é uma exaltação da ideia da morte, é exaltação de uma pulsão de vida”. (Varejão, http://adrianavarejao.net/).
 
Em sua obra percebe-se a preocupação em resgatar o contato do homem com a natureza, ou antes, com os elementos físicos, longe de uma ideologia de um mundo reto como que num plano cartesiano, limpo de um branco impecável como num ambulatório onde o indivíduo se faz um ser unicamente intelectual; a intenção é de o homem estar inserido no universo, que a realidade é uma extensão de si. 





























Carlos Vergara

Carlos Vergara é gaúcho de Santa Maria e nasceu em 1941. Estudou com o pintor Iberê Camargo¹. Artista múltiplo com quase cinco décadas de trajetória, Vergara trabalhou com pintura, serigrafia, instalações, fotografia e cinema. Desde o fim dos anos 1980, o artista emprega pigmentos naturais e minérios, com os quais produz a base para trabalhos em superfícies diversas. Ele desenvolveu obra em contato direto com o ambiente ecológico na série Monotipias do Pantanal, de 1997.

A produção de Vergara o situa num grupo de artistas que trabalha o próprio pigmento como um signo da pintura. A busca pelo diálogo entre a materialidade da obra e sua relação com o meio circundante são elementos fundamentais para sua constituição. Esse aspecto se torna mais evidente a partir do ano de 1989 ao lançar mão de monotipias e pinturas abstratas que estabelecem relações físicas e conceituais com lugares visitados pelo artista. Ao percorrer determinados espaços, Vergara imprime em sua tela as marcas físicas desses locais que, mais tarde, serão manipuladas por meio de inserções de tintas e grafismos. Sua ação procedimental leva às obras a dialogar diretamente com o meio ambiente, incorporando-o ao trabalho.





1. Iberê Bassani de Camargo (Restinga Seca, 18 de novembro de 1914 — Porto Alegre, 9 de agosto de 1994) foi um pintor, gravurista e professor brasileiro.


Considerações Finais

A arte de Karin causa certa perplexidade no observador por utilizar-se de elementos pouco convencionais, preponderantemente o sangue, cujo misticismo e figuração espiritual causam no observador algo como um “choque”. Não é de hoje que o sangue possui esta propriedade de afetar o sentimental – e por que não o psicológico, o imaginário? – do público: filmes como “O conde Drácula” surgiram, orginalmente, em função desse apelo. Todavia, a considerar o conceito de estética apresentado no vídeo e a intensão da Arte de abordar temas ou chamar a atenção para determinados aspectos de forma mais enfática, é inevitável dizer que as obras de Karin são demasiado expressivas e criativas.
Igualmente significativas são as obras de Adriane Varejão, que mostra o mundo que nos cerca, as paisagens urbanas como algo tão vivo quanto às paisagens naturais, suscitando que o mundo, a realidade física é também uma extensão viva do próprio homem. Tal como Karin, Varejão emprega em suas obras elementos poucos convencionais, embora diferentemente da primeira, ela não se utilize de carne efetivamente, e sim se sirva de uma representação hiper-realista – o que produz um efeito estético também singular, levando o observador a um estado de perplexidade.
Um aspecto que ambas parecem ter em comum, preponderantemente, é uma “ressignificação”, ou antes, uma construção mais intensa da linguagem sobre suas obras, efeito este causado pela ideia de sangue, vísceras e carne presentes nas composições de ambas – estes elementos conferem violência às obras, podendo mesmo “agredir”, chocar, de uma maneira ou outra, o olhar, a percepção do público.
Carlos Vergara associa-se também pelo uso de pigmentos naturais em suas composições, pois tal como Karin, faz do meio-ambiente seu ateliê: o barro, a chuva, as pedras, as árvores e os próprios animais tornam-se seus instrumentos de trabalho: suas tintas, seus pincéis...
As obras desses artistas, a meu ver, ganham uma significação ainda mais ampla e profunda dada a forma como são produzidas, pois além da história, da crítica apresentada pelo autor, é como se cada material tivesse em si sua própria história.
O que interliga aos três, mais do qualquer outro aspecto, é a relação que visam estabelecer do homem com o mundo, agregando valores históricos, místicos/religiosos, sociais...
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Referências

Farias, M.S.: "Arte contemporânea". Novembro de 2013.http://livredialogo.blogspot.com.br/
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