segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Rosa Desfolhada

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa

Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado
Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão jogado

E em cada canto
Teu desencanto
Tua melancolia
Teu triste vulto desesperado

Ante o que eu te dizia
E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia

Do fato consumado
Silenciosa
Ficou a rosa
No chão despetalada

Que eu com meus dedos tentei a medo
Reconstruir do nada:
O teu perfume, teus doces pelos

A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada




terça-feira, 3 de novembro de 2015

Recursos Humanos ou Gestão de Pessoas?

Resenha:
Sovienski, Fernanda; Stigar, Robson. Recursos Humanos x Gestão de Pessoas. Gestão: Revista Científica de Administração, v. 10, n. 10. Jan/jun 2008.

Com a Revolução Industrial e a divisão do trabalho, as empresas tiveram necessidade de gerenciar seu relacionamento com os funcionários e, conforme a Administração se foi consolidando ao longo da História, diversas abordagens foram construídas, refletindo, também, as transformações sofridas pelas sociedades e pelas empresas nelas inseridas: de uma clássica metáfora mecanicista à coeva metáfora orgânica.
Organizado em poucas secções, o artigo de dez páginas, com léxico carente, logo repetitivo, visa demonstrar as divergências conceituais/estruturais da tradicional área de Recursos Humanos em relação à moderna Gestão de Pessoas.
Tal como as empresas mudaram e as sociedades, a percepção sobre o empregado transformou-se, passando de mero recurso substituível a uma compreensão complexa da dimensão humana, onde fatores sociais, psicológicos e intelectuais adotam centralidade em detrimento da rotatividade de um elemento descartável.
A ideia é que a Gestão de Pessoas, ao revés dos Recursos Humanos, trate o empregado como um colaborador, parte essencial da organização, capacitando-o, moldando-o a ela, ao passo que o “emancipa”, fazendo-o mesmo mais qualificado para o mercado. Reconhece sua humanidade e visa, por ela, humanizar a empresa, propiciando um ambiente mais relacional entre todos os atores (chefes, empregados de diferentes setores...).
Em que pese os treinamentos e a maior participação dos empregados nas decisões da empresa, promovidos por essa nova percepção, fato é que Gestão de Pessoas faz-se um eufemismo para Recursos Humanos, uma visão romântica da empresa e do funcionário. A própria TGA e a Psicologia das Organizações demonstram que as relações humanas são complexas e cada indivíduo possui fatores específicos de motivação – daí as diversas teorias motivacionais: do homo æconomicus ao homo socialis. E, indiferente de qual seja a abordagem motivacional, o objetivo é sempre o mesmo: controle.
Mesmo a Gestão da Qualidade Total, que engloba muitos aspectos daquilo que os autores atribuem à Gestão de Pessoas, é vista como uma eficaz forma de administração por controle cultural. A ética a que se referem os autores não existe concretamente senão na forma de código deontológico, vez que ética é matéria de estudo da Filosofia.
É passível de inferência que com as transformações sociais, culturais, econômicas e políticas ao longo das décadas, as empresas precisaram adequar-se, especializarem-se cada vez mais. A antiga percepção do empregado como um recurso descartável passa a ser um custo. Um funcionário recrutado corretamente, em constante desenvolvimento pela empresa, isto é, aperfeiçoamento, gera maiores lucros, pois quão maior o capital intelectual, mais valioso o capital humano, maior a vantagem competitiva da organização e, consequentemente, maiores esforços ela fará para manter esse funcionário – é necessário preservar o investimento!
No entanto, isso não implica que as organizações com fins lucrativos estejam mais “humanizadas”, e sim que se preocupam com a rotatividade. Os mecanismos de cogestão são também uma forma de ampliar sua eficiência, mas em hipótese alguma a força dos “colaboradores” será maior que a da Diretoria, sobretudo no que tange aos rumos da empresa. É verdade que as políticas de Gestão de Pessoas quando efetivamente aplicadas criam maior satisfação para os empregados e para a empresa, mas é preciso muito cuidado para que ela não se torne apenas mais um método extremamente eficiente de controle que beneficie acima de tudo a empresa.
Não fosse o número limitado de uma página, eu diria mais: Gestão de Pessoas é uma forma de manipulação psicológica que dura até o momento em que não convém mais ao empregador manter o “colaborador”, o qual, por sua vez, recorrerá à Justiça do Trabalho por seus direitos enquanto empregado, mesmo por que a CLT não reconhece “colaboradores”, tampouco a etimologia de empregado é pejorativa como a tentam fazer os críticos do RH. Ocorre que o RH evoluiu para uma forma interna de marketing: Gestão de Pessoas. 


Farias, M. S. "Recursos Humanos ou Gestão de Pessoas?". Outubro de 2015. http://livredialogo.blogspot.com.br/
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima. 
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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O marketing efetivamente cria necessidades ou apenas as descobre?

Atividade de recuperação da primeira semana de aulas



Conforme o capítulo sugere, o Marketing implica a análise de uma série de variáveis psicológicas, sociais e culturais que influem na tomada de decisões do cliente na hora da compra, a fim de que se projetem ou configurem produtos e/ou serviços capazes de, “por si só”, numa paráfrase à citação de Drucker, venderem-se. Uma política de marketing bem elaborada pode ser a diferença entre sobreviver e falir em um mercado altamente competitivo e com clientes igualmente exigentes.

Hoje, os compradores possuem maior instrução e, portanto, melhores critérios do que há 70 anos, por exemplo. Além disso, a revolução tecnológica propiciou uma enxurrada de informações técnicas e trocas de experiências empíricas de compradores sobre todo tipo de produto ou serviço. A oferta de certo produto pode ser muito atrativa, mas a reputação do fabricante, do vendedor ou do próprio produto muito negativa em sites como “ReclameAqui” ou no próprio “eBay”. Esse tipo de dado afeta a decisão de compra, podendo mesmo levar o cliente a questionar-se sobre o real valor do produto.
Desse modo, não adianta apenas os profissionais de marketing descobrir necessidades latentes, mesmo por que, isso não garante a venda – o concorrente pode identificar essa mesma necessidade e ofertar o mesmo produto mais barato. É preciso também “criar” uma necessidade, ou, como o texto sugere, “influenciar o cliente a descobri-la”. O próprio exemplo dos smartphones: a grande maioria das pessoas sonha com um Iphone graças à ideia não apenas de status, mas de qualidade e eficiência associada ao aparelho; no entanto, essa mesma grande maioria sequer conhece completamente as funcionalidades do smartphone intermediário que possui, quer seja por que não necessita delas, quer seja por que não sabe operar.
Nasce aí uma perspectiva interessante: mais importante que a marca, é o conceito associado a ela. Apple não vende aparelhos eletrônicos, e sim status e qualidade. A Harley-Davidson, dizia um professor de TGA, tinha fama de desconfortável, com péssima estabilidade, contudo, tornou-se um clássico associado à ideia de liberdade – uma necessidade psicológica de todo ser humano, ou, no caso, de altos executivos capazes de adquiri-la. Starbucks vende mais que café: vende um ambiente de “comunidade” de lazer; e a Coca-Cola vende felicidade.
Disso, pode-se inferir que o marketing começa pela identificação de uma necessidade, mas do momento em que se desenvolve o produto ou serviço, passa-se a criar ou influenciar a imagem desses como a única, ou antes, a mais eficaz solução a essa necessidade, embora existam outras tantas além dele. Resulta um mecanismo dinâmico de variáveis objetivas – requisitos técnicos; preço etc. – e subjetivas – o valor do produto, o apelo psicológico: a necessidade criada e o desejo de satisfazê-la.
Talvez por isso questões como políticas de responsabilidade ambiental e social, dentre outras tantas, passam a ocupar vez por outra a correlação com a marca, conforme são valoradas pelo público-alvo, uma vez que isso se reflete na decisão de compra de um produto por ela ofertado. São as necessidades do cliente influenciando a empresa; e a empresa influenciado o cliente a criar a imagem de resposta ideal às suas necessidades.
As empresas de cosméticos e a indústria da moda são bom exemplo. Tradicionalmente, oferecem a “satisfação” de uma necessidade estética dos clientes, ao passo que também impõem um padrão “ideal” que, de alguma forma, “empurra” seus produtos. Hodierno, com uma nova percepção sobre conceitos de beleza, uma nova perspectiva se abre, e empresas como a Avon, por exemplo, passam a incluir modelos mais “gordinhas” em seus comerciais. Assim como marcas de roupas passaram a dar mais atenção ao mercado dito "plus size”.

Logo, o Marketing tanto é influenciado como influencia, num relacionamento dinâmico entre a sociedade, os grupos de indivíduos (público-alvo ou nichos de mercado), o próprio indivíduo e a empresa.

Farias, M. S. "O marketing efetivamente cria necessidades ou apenas as descobre?". Outubro de 2015. http://livredialogo.blogspot.com.br/
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima. 
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domingo, 13 de setembro de 2015

"Povo sem virtude acaba por ser escravo"

Semana passada, conversando com um amigo, esse recordava que certo acadêmico havia escrito que a maneira mais fácil de dominar um povo é aculturando-o. Tal prática pode dar-se ou pela imposição de uma nova cultura ou minando-se a cultura já existente. Hoje me deparo com um texto, compartilhado por alguns antigos professores, de autoria de Juremir Martins no qual ele discorria sobre a "farsa" da Revolução Farroupilha e criticava arduamente os festejos da Semana Farroupilha. Ora, não há aí outra coisa se não uma crítica ácida e desconstrutiva à qual não identifico outra intensão que a de apagar os costumes tão sólidos de um povo em detrimento das crenças e ideologias do próprio colunista.

A cultura de nosso Estado é fortemente ancorada no movimento Farroupilha, nos valores por ele defendidos; no ideal democrático e mesmo liberal que esse representou. A Semana Farroupilha comemora a lembrança de que um "povo que não tem virtudes acaba por ser escravo". Lembra-nos dos costumes do homem do campo e da altivez do povo gaúcho que não aceita que lhe pisem no pala.

A Revolução Farroupilha pode ter sido começada pelos fazendeiros e charqueadores, mas isso não a diminui ou desmerece. Mas, vindo de um jornalista medíocre como Juremir Martins, não se poderia esperar outra coisa.

E, por favor, jamais nos esqueçamos do real significado desse trecho de nosso amado Hino: "Povo que não tem virtude acaba por ser escravo". Não permitamos que nos diminuam, que desfaçam de nossos costumes. Nossa cultura é ser gaúcho, mesmo que nem todos usem pilcha, que entendam do campo ou falem "à moda da casa"; ser gaúcho é muito mais: está na têmpera dos homens e mulheres que nascem e crescem neste chão. Nossa cultura é nossa identidade! Sem identidade quem seriamos? E, mais importante, a quem e com qual propósito interessa apagar nossa identidade?


"Mostremos valor constância, nesta ímpia injusta guerra...".

Farias, M.S.







segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Hino da Independência (Hino do Império do Brasil).

"Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

"Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

"Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.


"Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

"Não temais ímpias falanges,
 Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

"Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

"Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

"Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil".






***


Hoje, em meio a tamanho caos na política de condução do Brasil, parece-me, mais que nunca, deveríamos aproveitar a data em que se comemora a Independência para contemplar as virtudes de nosso povo, de nossa terra; refletirmos sobre aquilo que queremos ser e aquilo que somos. O quanto de colonial reservamos em nossos modos toda vez que, de alguma forma, suscitamos que nada no Brasil poderá dar certo em função de seu povo (os políticos são povo!)? E, em contraparte, enaltecemos a grandeza de alhures como que se precisando de um líder. Isso é pensar como dependente.

As coisas vão mal, é fato. Mas as datas em que celebramos a República são outras. É nessas ocasiões que deveríamos protestar, porém cientes de nosso potencial enquanto povo livre e senhor desta terra, "[...] Boa terra! [que ] jamais negou a quem trabalha O pão que mata a fome, o teto que agasalha..." (BILAC, s.d.).

Enquanto não formos capazes de reconhecer o imenso potencial de nosso país e de nós brasileiros, todos os protestos serão gritos de pouco eco, pois o problema não está em outro lugar senão no povo descrente de si e de seu Brasil.

"Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
"[...]
"Quem com seu suor a fecunda e umedece,
vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!" (Olavo Bilac, "A Pátria").

Farias, M.S.
 
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