terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O delírio do boicote

Tem circulado nas redes sociais, inclusive por meio de algumas páginas com preocupante poder de influenciação, um "hoax" que exorta ao boicote de postos de combustíveis com o logo da Petrobrás/BR distribuidora. Segundo o texto, a intensão é retalhar o reajuste sobre os combustíveis, forçando a estatal a reduzir os preços e, por conseguinte, as "concorrentes" Shell, Ipiranga, Esso, Texaco etc.
Em primeiro lugar, os postos com bandeira Petrobrás, em geral, não são propriedade da estatal; são de inciativa privada e se utilizam da identidade visual da empresa produtora do combustível. Ao deixar de comprar num posto que tenha o logo "BR" ou "Petrobrás" não se estará atingindo a estatal, e sim aos empresários donos do posto e, por consequência, aos funcionários.
Em segundo lugar, as maiores distribuidoras de combustíveis do Brasil atualmente são a BR, Shell, Ale, Cosan e Ipiranga. Nenhuma delas possui refinaria aqui, de modo que a fonte da Gasolina e do Diesel que vendem é a mesma: a Petrobrás. Na verdade, existem no Brasil cerca de 13 refinarias que produzem gasolina e diesel. Até um tempo atrás só a Ipiranga e a Manguinhos eram de capital privado. Em 2012 a gigante estatal adquiriu por US$ 4.000.000.000,00 (quatro bilhões de dólares) o grupo Ipiranga. Em 2010 a Petrobrás e a Refinaria de Petróleo de Manguinhos, RPM, haviam assinado um protocolo de intensões que poderia resultar na Petrobrás como acionista majoritária da RPM. Não encontrei informações atualizadas sobre essa possível compra, apenas especulações. De qualquer forma, qualquer das empresas citadas obedece às normas da Agência Nacional de Petróleo, ANP, que regulamenta a produção e refino. Em 2001, mais de 98% da produção de combustíveis no Brasil vinha das refinarias da Petrobrás.
O que influencia no preço dos combustíveis é, normalmente, a cotação do dólar e o valor do barril de petróleo. No caso do Brasil, vale lembrar que enquanto os preços dos combustíveis subiam no contexto internacional, por cá se mantiveram praticamente inalterados.
"Segundo o Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, o governo brasileiro represou os preços enquanto o valor do barril disparava no mercado externo. E agora não consegue acompanhar a redução da cotação estrangeira porque a Petrobras tenta recuperar o que perdeu nos últimos anos" (GASOLINA..., 2015).
A ideia de boicotar os postos é uma tolice. Somente prejudicariam aos empresários e aos seus empregados. A Petrobrás não sentiria esses prejuízos. Tampouco as "concorrentes" iriam diminuir seus preços por medo de também sofrerem retaliação. Se os postos Shell, Texaco, Esso, Ipiranga etc., segurarem por mais tempo o reajuste ou até mesmo "minorá-lo" - coisas que eu considero muito pouco plausíveis -, certamente não seria por isso, e sim pelo custo do frete.

Farias, M. S. "O delírio do boicote". Fevereiro de 2015. http://livredialogo.blogspot.com.br/
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported. Deve ser citada conforme especificado acima. 
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Referências:

ALVES, Jessica; CHAVES, João Marcelo Pinto. ANÁLISE ECONÔMICO-FINANCEIRA DA PETROBRÁS: Estudo com Enfoque na Gestão Baseada em Valor ao Acionista. 2013, 117 p. Projeto de Graduação apresentado ao Curso de Engenharia de Produção da Escola Politécnica, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Engenheiro, Rio de Janeiro, 2013. Disponível em: <http://monografias.poli.ufrj.br/monografias/monopoli10008600.pdf>. Acesso em: 03 fev. 2015.
GASOLINA está quase 70% mais cara no Brasil do que no exterior. Disponível em: <http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/01/gasolina-esta-quase-70-mais-cara-no-brasil-do-que-no-exterior.html>. Acesso em: 03 fev. 2015.
AÇÕES de Manguinhos entram para o IBrX, da BM&F, a partir de segunda. Disponível em: <http://www.valor.com.br/empresas/2645886/acoes-de-manguinhos-entram-para-o-ibrx-da-bmf-partir-de-segunda>. Acesso em 03 fev. 2015.
COMPRA do grupo Ipiranga, de US$ 4 bilhões, é maior aquisição já realizada no país. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/economia/compra-do-grupo-ipiranga-de-us-4-bilhoes-maior-aquisicao-ja-realizada-no-pais-4208420>. Acesso em: 03 fev. 2015.
PARA REDUZIR importações, Petrobras bate recorde de refino em 2014. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/02/1584048-para-reduzir-importacoes-petrobras-bate-recorde-de-refino-em-2014.shtml>. Acesso em: 03 fev. 2015.
VÁRIAS marcas, um só produto. Disponível em: <http://motorshow.terra.com.br/secao/reportagens/varias-marcas-um-so-produto>. Acesso em: 03 fev. 2015.
O SPAM sobre o boicote da Petrobrás. Disponível em: <http://guiadossolteiros.com/2011/04/18/boicote-da-petrobras/>. Acesso em: 03 fev. 2015.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Resenha analítica de o "Inventário de valores organizacionais"


TAMAYO, Álvaro; MENDES, Ana Magnólia; DA PAZ, Maria das Graças. Inventário de valores organizacionais. Psicologia, UnB, Brasília, DF, 2000, 27 p.

A produtividade de uma empresa está associada a diversos fatores compreendidos em sua Cultura Organizacional, a qual adota por base um conjunto de valores que regem o quotidiano da organização. Contudo, a existência de diferentes modelos mentais implica compreensões distintas de tais valores pelos indivíduos, podendo causar incompatibilidades e conflitos danosos à empresa e a seus funcionários. Nesse sentido, a Psicologia Organizacional, hodierno, dedica grande atenção à supracitada cultura, empenhando-se em construir modelos estratégicos, sobretudo na área de recursos humanos, que permitam atender com maior eficiência e eficácia as necessidades sócio-institucionais relacionadas à sobrevivência e bem-estar das organizações.

Os pesquisadores adotaram três conjuntos de perspectivas bipolares para representar os valores organizacionais: (a) autonomia versus conservadorismo, (b) hierarquia versus igualitarismo, (c) domínio versus harmonia. Um instrumento composto por 36 itens foi aplicado a uma amostra de 1.010 empregados, com idade média de 38,82 anos, de ambos os sexos, provenientes de cinco organizações do Distrito Federal, os quais se voluntariaram para o estudo. 12% dos participantes ocupavam cargos de gerência. A abordagem proposta consistia em estudar os valores organizacionais a partir da percepção que os empregados têm dos valores existentes e praticados na sua empresa.

Cada empresa possui um determinado perfil – algumas mais mecanicistas, outras com sistemas mais orgânicos. Mesmo nos diversos departamentos de uma mesma organização podem existir diferentes climas de trabalho, rotinas, costumes, usos, valores etc., que são determinantes para o desempenho de cada empregado, à sua satisfação no trabalho e, consequentemente, à produtividade da empresa.
Uma organização é constituída não propriamente pelos seus componentes físicos, e sim pelo seu próprio funcionamento, isto é, “a função dita à forma”: cada tarefa, cada cargo pressupõe um papel a ser desempenhado pelo funcionário, criando assim expectativas de comportamento que acabam por se converter em exigências, as quais sendo valorizadas e compartilhadas pelo grupo tornam-se valores inerentes à função – um bom exemplo é imaginarmos um servidor que cuida da manutenção terminar o expediente e ir até o bar frente à organização tomar um copo de cachaça, um fato sem qualquer relevância, mas, por outro lado, se esse servidor for o presidente dessa organização instantaneamente repercutirá.
Isso ocorre porque todo membro é capaz de desenvolver uma visão mais ou menos clara dos papeis e dos valores que predominam em sua organização e essa visão, certa ou errada, orienta o seu comportamento. Daí a importância dos valores na elaboração dos perfis culturais das organizações: eles são o alicerce; os valores funcionam como padrões para o julgamento e a justificação do comportamento de si e dos outros.
A forma como o indivíduo percebe e se relaciona com a realidade organizacional constitui o aspecto cognitivo fundamental através do qual ele desenvolve as suas crenças acerca dos múltiplos aspectos da vida organizacional. Em geral, os valores em uma organização expressam os interesses e os desejos de alguém – o fundador, o dono, o presidente –, ou de um grupo de membros da empresa, afigurando-se como uma consciência mais ou menos clara das metas organizacionais.
Cada cultura organizacional pressupõe, também, certa hierarquia de valores, a fim de evitar a dissonância dos diferentes modelos mentais existentes entre os componentes da organização. Cada indivíduo possui um entendimento subjetivo do mundo real, e esse entendimento age sobre a sua forma de perceber os valores da organização, o que, por sua vez, poderá causar incompatibilidades e conflitos com colegas e mesmo com os gerentes acerca, por exemplo, da execução das tarefas. Isso ocorre, fundamentalmente, porque a percepção do grau de importância daquilo que será considerado primário ou secundário será relativo à hierarquia dos valores e à representação mental da organização que o indivíduo cria.
Desta forma, tal como as sociedades e os indivíduos, as organizações se deparam com exigências universais que devem ser satisfeitas para garantir a sua sobrevivência, criando, como resposta, padrões de comportamento e valores que orientem a sua vida quotidiana.
Assim, os valores são capazes de aliar os empregados em relação a um objetivo, fazendo com que permaneçam dentro da estratégia, desempenhando seus papeis adequadamente. Neste sentido, os valores constituem-se no delineamento da estrutura da organização, pois eles caracterizarão a maneira de pensar, agir e mesmo de sentir dos funcionários, definindo o quotidiano, a vida na empresa. As próprias normas são uma espécie de instrumentalização desses valores, formas de “estimular”, ou melhor, determinar padrões de comportamento.
O inventário de valores constatou que no Brasil, à exceção da perspectiva “hierarquia versus igualitarismo”, os valores associados a todas as outras conseguem coexistir no ambiente organizacional.

De fato, não são poucos os casos de que se encontra registro em fontes confiáveis, na internet, de ações judiciais envolvendo demissões relacionadas a conflitos entre empregados e chefias com termos como “incompatibilidade de gênio”, ou reclamações no sentindo de limitação da iniciativa e desprestígio do indivíduo. São diversas as queixas e a terminologia, mas todos compartem de um mesmo princípio: a divergência de valores. Esses conflitos são bastante perniciosos à organização, pois afetam a produtividade e demandam custos, quer seja com o processo de demissão, quer seja com o processo de seleção de novos funcionários. Destarde faz-se imperioso que as organizações reservem maior atenção ao desenvolvimento de um perfil cultural organizacional alinhado aos valores ligados ao bom desempenho de suas atividades, considerando certa margem para a subjetividade dos membros: é preciso papeis, normas, subsistemas organizacionais e estratégias de trabalho bem definidos e claros. Como inferido pelo Inventário, há no Brasil uma particularidade muito profícua: a maioria das perspectivas tradicionalmente conflitantes consegue coexistir de forma saudável, proporcionando ambientes de trabalho satisfatórios à empresa e aos empregados. A compreensão de suas próprias culturas também permite à organização estabelecer um melhor relacionamento com o meio natural e social no qual está inserta, além de maior precisão na identificação da necessidade de mudança, onde e como, da mesma forma que as causas de resistência à mudança.

O artigo é um material bastante interessante, embora um tanto complexo, para ser estudado com tempo e profundidade, pois permite inúmeras inferências sobre o quão importante é o papel dos valores pessoais e culturais em relação à organização, como também os valores da própria, relacionados à sua natureza, missão e objetivos. Possui um alto valor pedagógico ao salientar a complexidade das relações humanas e institucionais. Permite, ainda, aos acadêmicos e gestores, avaliarem os tipos motivacionais em dois níveis diferentes – o dos valores reais, ou seja, aqueles que na percepção dos empregados são realmente praticados na empresa, e os desejados, que designa o grau de importância ou prioridade que os empregados gostariam que fosse dada a cada um dos valores apresentados.

Álvaro Tamayo, doutor em Psicologia Social pela Université de Louvain, Bélgica, é professor titular da Universidade de Brasília; Ana Magnólia Mendes, é doutora em Psicologia Organizacional pela Universidade de Brasília, é professora adjunta da Universidade de Brasília; Maria das Graças T. Da Paz, doutora em Psicologia Organizacional pela Universidade de Brasília, é diretoria do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília.

Farias, M. S. "Resenha analítica de o 'Inventário de valores organizacionais'". Dezembro de 2014. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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domingo, 23 de novembro de 2014

Aos leitores do DL

    Este ano o blog teve pouquíssimas atualizações e, em decorrência, significativa queda de visualizações/acessos. O motivo de tão pouco se ter publicado é que a equipe se desfez. Desfez-se, porém, por um bom motivo: todos nós concluímos o Ensino Médio e seguimos caminhos distintos no Ensino Superior. Alguns fazem Letras, outros Administração - todos em Universidades diferentes. As responsabilidades com a Faculdade tomaram a maior parcela do tempo que antes dispúnhamos. O pouco tempo que ainda resta, alguns antigos colaboradores decidiram dedicar aos blogs individuais, que sugiram da partição neste. 
    Espero que, nos próximos meses, eu consiga voltar a publicar, ao menos aquilo que foi produzido à Faculdade - e também que novos colaboradores surjam! 

- Farias, M.S. 

domingo, 3 de agosto de 2014

Errar é fácil. Assumir o erro? Só depois de ter certeza!

Defender falsas verdades é algo que julgo intolerável do momento em diante que tomamos ciência da inveracidade do fato. Ontem eu compartilhei a imagem ao lado, de uma das páginas que sigo no Facebook, com meus amigos e, na ocasião, defendi a resposta 288 para a notação. Minha inferência fundamentava-se na ordem natural de resolução das operações algébricas e no sentido convencional de resolução das expressões numéricas, que é da esquerda para a direita. Momento depois que divulguei a informação, um amigo chamou-me no bate-papo e alertou que meu cálculo estava incorreto. Discutimos por mais de 6 horas sobre a correta interpretação e resolução do problema. A notação 48/2(9+3) é, a princípio, ambígua e permite que seja interpretada como uma fração de 48 sobre 2(9+3), que resultaria em 2, como também pode ser entendida como uma fração de 48 sobre 2, multiplicando (9+3), ou ainda poderia ser escrita - como fizeram muitos usuários nos comentários da publicação original - fazendo-se uma conversão da seguinte forma: 48*(1/2)*12, que geraria uma multiplicação de frações cujo resultado seria, indubitavelmente, 288. No entanto, o resultado correto é 2. Não por que seja um caso óbvio de 48/2*12 => 48/24 = 2. Se fosse isso, não teríamos gasto tantas horas numa discussão que seria irrelevante - mesmo por que, se fosse assim, ainda estaríamos discutindo, uma vez que não há uma propriedade ou regra que justifique resolver a multiplicação primeiro em 48/2*12, depois que o parênteses já fora eliminado, tampouco há qualquer embasamento para a interpretação de que seja uma fração de 48 sobre 2(9+3).
O que há é uma propriedade matemática chamada de "Propriedade Distributiva da Multiplicação em Relação à Adição", segundo a qual "a multiplicação de um número por uma soma é igual a soma dos produtos deste número por cada uma das parcelas". Essa informação não apenas pôs fim à ambiguidade de interpretações, como também eliminou as contradições que havíamos enfrentado em relação aos princípios de resolução das expressões numéricas e das operações algébricas. Desse modo, a resolução da notação 48/2(9+3) é:
x = 48 / (2*9 + 2*3)
x = 48 / (18 + 6)
x = 48 / 24
x = 2

Ninguém gosta de errar, mas não há aprendizagem sem erros e acertos, afinal, aprender é mudar. E assim também fez-se a resolução correta - a calculadora do Google.com, e suponho que assim também proceda o Excell e algumas calculadoras científicas, transforma a notação 48/2(9+3) em (48/2)*(9+3), o que leva corretamente ao resultado 288, mas ao isolar o 48/2 com parênteses, esse software adultera a notação e sua lógica, pois 48/2(9+3) é diferente de (48/2)*(9+3); inclusive a Casio e a Texas possuem duas linhas de calculadoras, cada qual, que apresentam resultados diferentes para esse mesmo problema, veja as imagens abaixo. 


























Farias, M.S.



Referências:

http://www.matematicadidatica.com.br/PropriedadesAdicaoMultiplicacaoReal.aspx
http://www.profcardy.com/cardicas/ordem-das-operacoes-aritmeticas-e-algebricas.php
http://universodasexatas.blogspot.com.br/2013/02/qual-resolver-primeiro-multiplicacao.html
http://pt.slideshare.net/netlopes1/48293
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_de_operações
http://knowyourmeme.com/memes/48293
https://answers.yahoo.com/question/index?qid=20110412090801AAcW8wq
http://www.calculobasico.com.br/como-se-resolve-uma-expressao-numerica/

sábado, 21 de junho de 2014

Dogmatismo e Ceticismo

Introdução
Imagem da internet.

O que é conhecer? Poder-se-ia dizer que o conhecimento são as informações que assimilamos sobre determinado objeto ou fato; mas o conhecimento em si é também um processo, pois para que possamos conhecer precisamos investigar aquilo que se faz objeto. No processo de investigação criamos uma imagem mental em forma de opinião, ideia ou conceito daquilo que pretendemos dominar.
Naturalmente, nesse processo, podem surgir conhecimentos conflitantes acerca da natureza de um mesmo objeto e, nesse sentido, questiona-se o que realmente podemos conhecer, isto é, se somos capazes de um conhecimento pleno, de chegarmos à verdade sobre determinada coisa.
Pois que, para alguns filósofos é possível que cheguemos, sim, à verdade, que possamos de fato conhecer; são estes os defensores do dogmatismo. Em oposição, argumentam os defensores do cepticismo, que é impossível obter a verdade sobre qualquer coisa, existindo apenas a possibilidade de que algo seja verdadeiro; para estes, duas ideias contraditórias são, igualmente, tão certas quanto erradas.


Dogmatismo

O dogmatismo é, essencialmente, a corrente ideológica que defende podermos chegar até a verdade suma de algo. O Dogmatismo filosófico pode ser visto como uma doutrina fundamentada em princípios, através dos quais se chega à verdade, sem, contudo, haver a necessidade de submeter, em qualquer momento do processo de conhecimento, as conclusões ou insumos à crítica ou validação de qualquer espécie.
Mas o que implica dizermos a “certeza absoluta”? Significa que a percepção, concepção e entendimento sobre algo é único para todo aquele que o contemplar, não existindo, portanto, outra forma de conceber este mesmo objeto.
É interessante notar que até aqui não há a problematização do processo de conhecimento; este se dá de maneira natural, espontânea de cada um. Não se faz presente a dúvida sobre o conceito daquilo que estamos aprendendo.
Sempre que aceitamos sem reservas determinada opinião, estamos adotando um conhecimento dogmático. Na História possuímos exemplos políticos disto: Hitler, na Alemanha, projetou a ideia de que a raça ariana pura era superior a qualquer outra e que, portanto, deveria eliminar os demais, além de pôr o mundo sobre uma plataforma política que ele cria ser ideal. Certamente, na construção deste pensamento, o führer utilizou-se de princípios através dos quais obteve tal conhecimento que, com seus argumentos, transmitiu a quase todos os seus compatriotas.
Também é exemplo de conhecimento dogmático o conhecimento que produzimos quando crianças: ao vermos, por exemplo, uma janela e entendemos que ela é o que aparenta ser, sem nos preocuparmos com o porquê, como ela foi feita, se todas as janelas são e sempre serão assim. Simplesmente aceitamos o fato sem questionamentos ou validações.
Ainda mais incisivo é o conhecimento dogmático imposto pelas religiões, onde Deus é o esclarecimento – a causa e o fim de tudo. Caso não se siga à risca as leis da igreja, isto é, os seus dogmas, então perecemos no pecamos e na punição, quiçá, eterna. A obrigatoriedade de acatar sem margem à dúvida as verdades da instituição religiosa torna-a detentora e aplicadora de um conhecimento puramente dogmático.
Nesta corrente filosófica afirma-se a relação entre sujeito e objeto do conhecimento, ainda que não exista critério avaliador dessa relação, tampouco há preocupação com a verdade existente no conhecimento produzido, ou ainda sua abrangência: ela é absoluta; os objetos são apresentados absolutamente tanto no campo da percepção quanto da cognição.
Resumidamente, no dogmatismo aceitamos o mundo da forma exatamente como o percebemos, sem aprofundamentos. Quando nos deparamos com algo extraordinário à reação que temos é de minimizá-lo aos padrões que dominamos. Por exemplo, na Idade Média explicavam-se os fenômenos da natureza – raios; relâmpagos; tempestades; pestes e o mais – como sendo simplesmente obra de entidades místicas.

Cepticismo
O cepticismo pode ser dito como a doutrina filosófica que prega a incapacidade da mente humana de chegar, com certeza plena, a alguma verdade geral ou especulativa.
Enquanto no dogmatismo o sujeito é capaz de apreender o objeto, no cepticismo ele tornar-se incapaz. Ou seja, o conhecimento real do objeto se faz impraticável ao cepticista, ao qual o saber sobre tal é mera abstração, ou antes, entendimento relativo de cada indivíduo; por tal pensamento, o céptico se incapacita de apreender o objeto, afinal, em seu modo de pensar, o que ele vê como uma xícara, por exemplo, pode ser o que outro entenda como um prato, sem que haja, necessariamente, o descarte de uma das concepções: ambas estão igualmente certas, logo, não há verdade geral, única, sobre o objeto, e sim verdades relativas.
Esta doutrina filosófica pode aplicar-se em caráter universal ou circunscrever-se a um campo específico, por exemplo, metafísico; religioso; ético, et reliqua.
O cepticismo pirroniano ou absoluto, prega que é impossível o sujeito conhecer verdadeiramente qualquer coisa, pois, segundo este, nós não somos capazes de desenvolver um entendimento intelectual do objeto. Desta forma, desaconselha que se tente avaliar, entender, comparar e tirar conclusões sobre as coisas.
O cepticismo mitigado, contudo, não estabelece a impossibilidade absoluta do conhecimento, porém como irrealizável a construção de um saber exato, de modo que não se pode afirmar, como no exemplo do segundo parágrafo, se um juízo é certo ou errado, mas apenas se ele é ou não verossímil.
No campo metafísico, esta doutrina nos diz que tudo aquilo que não é experimentável tornar-se incognoscível, portanto, devemos nos ater à experimentação, rechaçando as especulações. Por exemplo, Deus, a alma, o mundo espiritual não nos são sensíveis, tampouco acessíveis à capacidade humana de conhecer, de forma que sequer lhes podemos afirmar a existência.
Descartes no começo de seus estudos empregou um método a que denominou “Dúvida Metódica”, a qual consistia na crença de que o cepticismo é parte da inteligência humana essencialmente crítica e livre. O filósofo começa a pôr em dúvida a tudo, de forma a eliminar o falso e atingir o saber absolutamente verdadeiro.
Montaigne¹, no Renascimento, reformula um tanto a doutrina cepticista ao considerar a subjetividade de cada indivíduo, bem como a influência dos fatores sociais e culturais na construção das opiniões, conceitos e, assim, do próprio conhecimento.
É interessante destacar que, embora a crença sobre o homem ser intelectualmente incapaz de conhecer – a qual é essencialmente é uma contradição e um dos mais fortes argumentos contra o cepticismo absoluto, pois ao afirmar impossível o saber, já está por si expressando um conhecimento –, o cepticismo afirma a possibilidade de conhecer, ao passo que a coloca na dúvida, isto é, ao contrário do dogmatismo, esta doutrina problematiza a questão do conhecimento: preocupa-se com a epistemologia.

Considerações Finais
No introito argumentou-se sobre a validade do conhecimento, se somos ou não capazes, enquanto seres racionais, de obtermos a verdade absoluta. Obter a verdade plena implica em afirmarmos que o mundo é tal como o descrevemos, de forma que não existem outras possibilidades ou implicações para as coisas que já definimos: elas são tais como as vemos.
O dogmatismo, em sua mais pura, conduz a aceitação incondicional da verdade, sem a preocupação de verificarmos a sua coerência, sua amplitude, sua validade. Aqui o conhecimento não tem problematizações: conhecer é algo relativamente simples, pois se compreende e concebe o objeto de forma absoluta. É como que vermos uma tela de computador e avaliarmos que o monitor é apenas aquilo que estamos vendo, desconsiderando todas as peças, fios, circuitos e engrenagens que o constituem.
Nesta perspectiva dogmática, mais importa aquilo que pensa o indivíduo sobre o objeto do que realmente ele é.
O dogmatismo pode ser mais bem visto dentro das religiões – sobretudo na Idade Média -, onde Deus é sempre a explicação para tudo. Neste contexto, ao deparar-se com algo extraordinário, até então desconhecido e incompreendido, o sujeito acaba minimizando-o ao nível de seus conhecimentos os quais se baseiam em forças sobrenaturais.
O cepticismo, na contramão do dogmatismo, julga o intelecto humano incapaz. Menospreza as capacidades cognitivas deste a tal ponto de afirmar que não podemos conhecer a verdade, ou seja, de que não podemos saber nada, que verdade e mentira não existem; bem e mal, tampouco.
Segundo os cépticos mais radicais, deveria haver distinção entre o que é bom por natureza e aquilo que o homem entende como bom. Todavia, estes filósofos concluíram que na natureza não existem conceitos, que tais são meramente criações humanas, as quais se convencionam. Por essa reflexão, não somos capazes de desenvolver um entendimento intelectual do objeto por que na natureza tal não existe, logo não somos capazes de conhecê-lo, de maneira que se desaconselha a formulação de juízos sobre qualquer coisa, pois será relativo a cada um o saber – lembre-se do exemplo da xícara.
Felizmente, com o transcorrer do tempo, as filosofias e doutrinas, o conhecimento em si vai sendo aperfeiçoado, de modo que não se deve buscar classificar o dogmatismo e o cepticismo como doutrinas boas ou más, e sim concebê-los como partes integrantes do mecanismo de conhecimento.
Muitos dos maiores e mais importantes filósofos da antiguidade eram dogmáticos. Dentre estes está Platão, cuja definição clássica do conhecimento é hoje base para muitas teorias acerca de. Segundo o filósofo, o conhecimento se baseia na crença verdadeira e justificada. Na Filosofia o dogmatismo não tem uma confiança tão pura e ingênua na razão, pois existe a preocupação com verdade, de modo que se submete a aparência a uma analise crítica, contudo, ainda buscam-se absolutos. Aristóteles, também dogmático, divide o conhecimento em três áreas: científica, prática e técnica – divisões estas que utilizamos ainda hoje.
 O cepticismo, embora suas contradições aparentes, não pode ser desqualificado, pois ao plantar a dúvida dentre as concepções do indivíduo força-lhe à busca, ao aprofundamento de seus conhecimentos, de saciar suas inquietações, as quais, naturalmente, se avolumam de acordo a sua evolução espiritual.
O pai do Positivismo, Augusto Comte, defendia que o dogmatismo é parte natural da mente humana, por que o homem tem e sempre terá a necessidade de confiar, de crer em algo para viver – tanto o é que, embora crítico da metafísica e do conhecimento teologal, ideou a “Religião da Humanidade”. Defendia ainda que, o cepticismo deveria ser empregado como que uma ferramenta na passagem de uma crença a outra, quando conceitos e opiniões arcaicos entram em colapso, havendo a necessidade de suas mudanças.
Mas, afinal, o que vem a ser conhecer, se não o fato de procurarmos pôr ordem onde esta não exista, criando assim um padrão de realidade? O conhecimento é fruto da atividade intelectual, contemplando-lhe todo o processo e seus resultados; é ele um meio termo entre a crença e a verdade: é a “crença verdadeira e justificada”.




1. Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) foi um político, filósofo, escritor, cético e humanista francês, considerado como o inventor do ensaio pessoal.

Farias, M.S.: "Dogmatismo e Ceticismo". Junho de 2014. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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Referências
*Ceticismo: In: BENTON, William. Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro, São Paulo: Encyclopedia Britannica Editores LTDA. 1964 – 1969; p.: 206b. Tomo 04.
*Chauí, Marilena. Iniciação à Filosofia. 1ª Ed. São Paulo: Ática, 2010. 376 p.
*Dogma e Dogmatismo: In: BENTON, William. Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro, São Paulo: Encyclopedia Britannica Editores LTDA. 1964 – 1969; p.: 215a. Tomo 05.
*http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070613205933AAsoD5w
*http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070622060027AAAejUv
*http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090330055447AA4zM4Z
*http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20100112091135AADxAbc
*http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20100916182750AACSY6H
*http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20110219062821AA8HZNF
*http://dogmatismoxceticismo.blogspot.com.br/
*http://livredialogo.blogspot.com.br/2012/08/formas-de-conhecimento.html
*http://professorakaroline.blogspot.com.br/2012/05/2-ano-filosofia-dogmatismo-e-ceticismo.html
*http://pt.wikipedia.org/wiki/Ceticismo
*http://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_de_Montaigne
*http://soniaa.arq.prof.ufsc.br/arq1001metodologiacinetificaaplicada/20063/Trabalhos/Leonora_Cristina_Silva/teoria.pdf
*http://umesbocofilosofico.blogspot.com.br/2011/05/do-dogmatismo-gnosiologico-e-ceticismo.html
*http://www.brasilescola.com/filosofia/conhecimento.htm
*http://www.estudopratico.com.br/ceticismo-e-dogmatismo-na-filosofia/
*https://sites.google.com/site/filosofiabaltar/a-filosofia-nas-aulas/tipos-de-cepticismo
 
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