sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Contexto sócio-histórico do Romanticismo no Brasil.

Introdução
O movimento político, filosófico, artístico-cultural iniciado no século XVIII, conhecido como Romantismo ou Romanticismo, teve sua origem, assim como seus antecessores, na Europa, mas essencialmente em três países: Itália, Alemanha e Inglaterra. Não obstante, foi na França onde alcançou maior força e, através dos artistas franceses irradiou-se por toda Europa e para as Américas.

Consolidado sobre um ideário distinto ao racionalismo e ao iluminismo, o Romantismo buscou incentivar o nacionalismo – que veio a consolidar os estados franceses e, no Brasil, incentivar a valorização da cultura vernácula. As principais propriedades deste movimento são: a valorização das emoções, liberdade de criação, amores platônicos, temas religiosos, individualismo, nacionalismo e história.

O Romanticismo tomou forma na Literatura por meio das composições poéticas líricas, que se utilizavam, por vezes desmedidamente, de uma linguagem metafórica, vocábulos estrangeiros, comparações e frases diretas. Os motes preponderantes costumavam ser: os amores platônicos, acontecimentos históricos nacionais e tudo quanto se relaciona a perpétua incógnita da morte. As mais relevantes produções deste período são: “Cânticos” e “Inocência”, do poeta britânico William Blake; “Os sofrimentos do jovem Werther” e “Fausto”, do germânico Goethe – este primeiro levou a Europa a uma onda de suicídios, de tão profundo que fora Goethe em suas palavras. É um trabalho bastante distinto deste último, porém, não menos significativo; “Baladas Líricas”, do inglês William Wordsworth e várias poesias de Lord Byron; “Os miseráveis” e “Os três mosqueteiros”, dos franceses Victor Hugo e Alexandre Dumas, respectivamente.

No Brasil, consideram muitos estudiosos que o início do movimento tenha-se dado com a publicação, em 1836, de “Suspiros Poéticos e Saudades”, de Gonçalves de Magalhães. Nas terras de colonização lusitana a Literatura, ou melhor, o Romantismo viria a dividir-se em três gerações, cada qual bastante particular: (1ª) nacionalista ou indianista; (2ª) conhecida como o “Mal do século”, Byroniana ou ultrarromântica; (3ª) com textos marcados pela crítica social.


Início do Romaticismo no Brasil
                        
No início do século XIX, mais precisamente por volta de 1822, o Brasil foi cenário de grandes transformações políticas, sociais e culturas que contribuíram de maneira categórica para a concepção de uma legítima identidade pátria e, por conseguinte, de uma literatura com propriedades mais brasileiras.

A fuga da família real e da corte portuguesa para o Brasil em 1808 já denotava que aquele século seria de significativas reformas no arcabouço político, econômico, cultural e social do país. D. João VI é verdade era um soberano despreparado para reinar, seu irmão mais velho D. José morreu de varíola, sua mãe, D. Maria I, considerada louca e obrigada a deixar o trono, D. João foi obrigado a reinar. Com sua indecisão crônica, delegava funções a seus ministros; hesitou quanto pode em tomar uma decisão com relação a Napoleão: se aderisse ao Bloqueio Continental, desfaria a boa relação com a Inglaterra, além dos prejuízos políticos, corria o risco da esquadra britânica bombardear Lisboa, sede da corte. Se não acatasse as ordens de Bonaparte, as tropas deste marchariam – e marcharam – a Portugal para destronar a Casa de Bragança. Não vendo outra solução contra as forças napoleônicas, recorre ao auxílio da potência inglesa e lança-se rumo à colônia portuguesa mais rica e, portanto, de maior interesse, o Brasil. Não obstante façamos justiça ao nosso monarca, pois foi ele o verdadeiro mentor do Estado brasileiro, criando diversas instituições e serviços que deram base à autonomia nacional.

D. João VI abriu os portos brasileiros ao livre comércio com o mundo, possibilitando assim o fácil ingresso de novas inclinações culturais, prevalecentemente europeias. Ademais, estabeleceu escolas, museus, bibliotecas, instigou a tipografia, o que viabilizou a impressão de livros nas terras do novo mundo, uma vez que estes viam de Portugal, além da criação de jornais. O núcleo político-cultural-econômico passa a ser a capital do reino, o Rio de Janeiro e não mais região aurífera de Minas Gerais. Às portas da realeza nasce um público sólido de ledores preponderantemente constituído de educandos juvenis e mulheres concernentes à burguesia em ascensão.

Empós a independência do Brasil em 1822, o brasileiro passa a desenvolver um maior sentimento patriótico e busca na história e nas características geográficas do país qualidades a serem exaltadas, buscando também encobrir as intensas crises social, econômica e financeira. O país viveu de 1823 a 1831 uma fase agitada com o despotismo de D. Pedro I, crises políticas, a abdicação, o período regencial com as tentativas de fragmentação do império, a ascensão prematura de D. Pedro II ao trono... Nesse contexto um tanto desordenado surge o Romanticismo no Brasil com fortes traços de lusofobia e, sobretudo, civilismo.

“Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido dada por mãos avaras e pobres. No começo do século atual, com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil, novo aspecto apresenta a sua literatura. Uma só ideia absorve todos os pensamentos, uma ideia até então desconhecida; é a ideia da pátria; ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, liberdade, instituições sociais, reformas políticas, todas as criações necessárias em uma nova Nação, tais são os objetivos que ocupam as inteligências, que atraem a atenção de todos, e os únicos que ao povo interessam.” (Gonçalves de Magalhães).

O desenvolvimento de um público novo foi um dos acontecimentos mais importantes para o Romantismo neste país, graças ao qual a Literatura se popularizou, fato que não se dava com os demais estilos da época e suas características clássicas. Heis que, nasce o romance, um gênero literário mais acessível que abjurava as fórmulas clássicas de composição. Junto ao surgimento dos primeiros cursos universitário em 1827, e com o liberalismo burguês, o mercado consumidor passa a englobar dois novos seguimentos da sociedade brasileira: o estudante e a mulher. Com o desenvolvimento da imprensa nacional, os folhetins e jornais tornaram-se ferramentas essenciais no desenvolvimento do romance romântico.

Fundamentos teóricos do Romanticismo

* Egocentrismo: em Latim, “ego” significa “eu”, daí deduz-se a definição de “egocentrismo” – “eu sou o centro”. É exatamente isso, o artista busca desligar-se da sociedade e focar-se no subjetivismo, voltando-se para o seu âmago. É comum nos poemas o predomínio da primeira pessoa do singular.

* Nacionalismo: o Romantismo intenta salientar os aspectos particulares de cada região: geografia, história, cultura et reliqua, pondo-os assim à mesa de discussão da escol intelectual.

* Liberdade de Expressão: é um dos, senão o principal ponto deste movimento. O artista se enjeita a adotar moldes, sua intenção é explorar a si, a seus sentimentos, numa procura categórica por singularidade. A emoção supera a razão no proceder das personagens, caracterizadas pela têmpera de amor, ódio, amizade, respeito e honra. O artífice busca ressaltar toda e qualquer condição onírica; caso o mundo real não lhe satisfaça, ele acaba por idear um universo particular. A representação da mulher amada é sempre um modelo de caráter, moral e qualidades irreparáveis. Há sempre a presença de figuras antagônicas, isto é, heróis simbolizando o bem, e vilões representando o mal. Tal concepção moral de contraste entre bem e mal se chama maniqueísmo e constituiu a diretriz básica das narrativas românticas. A natureza toma formas mais características e alia-se ao estado de espírito da personagem ou do poeta; momentos melancólicos ou de desencanto passar-se-ão em panoramas soturnos; por outro lado, instantes de contentamento dar-se-ão em lugares belos, cintilantes.

Engana-se, porém, quem pensa que no Romantismo as obras adotam apenas o lirismo e a inocência, pois ele tem seu lado tétrico: o derrotismo sentimental que se mostra nas alusões à morte, no êxtase e no furor passional que por vezes leva a personagem à insanidade, aos finais frustrados, infelizes e até mesmo sombrios. Outra característica é o escapismo: o autor busca refugiar-se do mundo real em um ficcional. Nota-se em inúmeras obras a tendência de escapismo para o pretérito.

Gerações do Romanticismo.

1ª Geração: caracterizado pelo lirismo, o subjetivismo, o sonho de um lado, o exagero, a busca pelo exótico e pelo inóspito do outro. Também se destaca o nacionalismo, presente da coletânea de textos e documentos de caráter fundamentalista que remetem para o nascimento de uma nação, fato atribuído à época medieval, a idealização do mundo e da mulher e a depressão por essa mesma idealização não se materializar, assim como a fuga da realidade, o escapismo. A mulher era uma musa, amada e desejada, porém, intocada.

2ª Geração: notam-se traços de pessimismo e certo gosto pela morte, religiosidade e naturalismo. A mulher era alcançada, mas a felicidade não.

3ª Geração: trata-se de um período de transição para outra vertente literária: o realismo, que denúncia os vícios e mazelas sociais, ainda que muitas vezes de forma sarcástica, irônica e realçada, com intenção de expor realidades ignoradas, revelar fragilidades. A mulher era idealizada e acessível.

Gerações do Romantismo no Brasil

1ª Nacionalista ou indianista: caracterizada pelo louvor a natureza, regresso ao passado, medievalismo, adoção da figura do índio como herói pátrio, sentimentalidade e religiosidade. Principais autores: Gonçalves Dias, Araújo Porto Alegre e Gonçalves de Magalhães.

2ª Mal do século: veementemente influída pela obra de Lord Byron e Musset, é chamada, inclusive, de geração byroniana. Impregnada de egocentrismo, negativismo boêmio, pessimismo, dúvida, desilusão adolescente e tédio constante – característicos do ultrarromantismo, o verdadeiro “mal do século”- seu tema preferido é a fuga da realidade, que se manifesta na idealização da infância, nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela.

3ª Condoreira: caracterizada pela poesia social e libertária reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. Pedro II. Essa geração sofreu intensamente a influencia de Victor Hugo e de sua poesia político-social, daí ser conhecida como geração hugoana. O termo condoreirismo é consequência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor, águia que habita o alto da cordilheira dos Andes. Seu principal representante foi Castro Alves, seguido por Tobias Barreto e Sousândrade.

Considerações Finais

A vinda da família real para o Brasil representou uma revolução cultural, por assim dizer, instituiu-se novos patamares sociais e culturais, a sociedade da até então colônia portuguesa passou a conviver com a etiqueta, a fineza da burguesia europeia e a contagiar-se por estes costumes. D. João VI fez muito pelo Brasil em termos culturais, instituiu a Academia de Belas-Artes, a Biblioteca Nacional, abriu escolas, museus, universidades etc., influenciou de certa forma a educação do povo colonial, mas toda esta “ascensão” fazia-se em moldes europeus, desconsiderando a cultura vernácula. O Brasil passou por grandes tumultos políticos, com a independência em 1822, cresceu o sentimento de patriotismo, que dantes era quase inexistente ante ao ufanismo europeu, isto é, a desclassificação daquilo que era natural do Brasil frente ao que era fruto do estrangeiro.

Com o aumento de pessoas alfabetizadas e com a desmistificação dos livros, ou seja, com a reversão do pensamento de que livros eram destinados apenas a doutores – fato destacado por Lima Barreto em “Triste fim de Policarpo Quaresma” -, cresce o contingente de ledores, sobretudo pela popularização da Literatura viabilizada pelo romantismo que, distinto dos movimentos anteriores possuía uma grande liberdade de expressão e também formal, assim, muitos autores adotavam uma linguagem mais informal e com vocabulário mais brasileiro. Os autores da época com seus escritos indianistas fazem do índio um herói nacional, exclamando a beleza geográfica, num fundo histórico, com a exposição das mazelas sociais e políticas, das fortes críticas ao segundo reinado, contribuindo para a valorização das artes, da cultura e do próprio Brasil por sua sociedade. Nota-se em alguns escritos do século XIX lusofobia, isto é, desprezo por Portugal. Tudo isso contribuiu para a criação de uma identidade genuinamente brasileira.

Nos escritos de José de Alencar percebe-se uma incessante luta pela valorização da cultura vernácula. Em “O demônio familiar”, ele contrasta duas personalidades: Alfredo e Azevedo. Este primeiro valoriza a cultura pátria e critica seu menoscabo pela exaltação estrangeira, feito pelo último. Em “O guarani” “Iracema” e “Ubirajara” busca a consolidação do herói brasileiro. Em “As Minas de Prata”, um romance histórico, há também o feitio de críticas sociais. “Senhora”, um livro escrito em período de transição para o realismo, ele expõe as hipocrisias e corrupções da sociedade.

Percebe-se que a Literatura foi fundamental na constituição de uma identidade brasileira, na libertação das correntes que nos prendiam aos moldes europeus. Foi deveras relevante sua contribuição para a valorização de nossa cultura que estava a ser apagada pela imposição de costumes europeus. Podemos dizer que, foram décadas de luta de diversos escritores e poetas para que o povo brasileiro deixasse de lado a veneração pelo estrangeiro e passasse a valorizar as qualidades nativas de sua pátria. Todavia, hoje nota-se, ainda que velado, certo sentimento remanescente de inferioridade colonial do Brasil, percebido pela falta de entusiasmo da população, sobretudo jovem, em apreciar seu idioma, sua cultura e artes, em lutar contra a má política, o desvaler da educação e de outros setores de monta pública. Aos poucos estamos novamente sendo aculturados, adotando costumes e tradições que não nos pertencem, olvidando, ignorando os nossos. E tudo isso parece dar-se com entusiasmo. É uma pena observar tal comportamento, pois é o mesmo que dizer que a luta de tantos ao longo da História foi vã, que mais uma vez nos falta fibra e caráter de lutarmos com orgulho pela nossa identidade cultural, e a história se reprisa...

Farias, M. S. "Contexto sócio-histórico do Romanticismo no Brasil". Outubro de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br/

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Referências

Barreto, Ricardo Gonçalves. Português, 2º ano: Ensino Médio. 1ª ed. São Paulo: Edições SM, 2010. 384 p.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_no_Brasil#Contexto_hist.C3.B3rico
http://www.desconversa.com.br/portugues/tag/romantismo-contexto-historico/
http://enemnota100.blogspot.com.br/2007/08/romantismo-contexto-histrico-no-brasil.html
http://www.mundovestibular.com.br/articles/6517/1/Romantismo-no-Brasil/Paacutegina1.html
http://educacao.uol.com.br/portugues/romantismo-no-brasil-caracteristicas-e-autores.jhtm
http://aprovadonovestibular.com/romantismo-caracteristicas-autores.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo
http://www.suapesquisa.com/romantismo/romantismo.htm
http://www.brasilescola.com/literatura/romantismo.htm

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