quinta-feira, 14 de março de 2013

Aparentemente...

Amanhecera um agradável dia na pequena cidade de Passa-perto. Desde muito cedo o “seu” prefeito já estava de pé, a fim de ser o primeiro a chegar à prefeitura e poder ficar cuidando do atraso dos funcionários da casa, em especial os da oposição...

O nosso querido prefeito, de nome Veriato Nonatalho, gostava por demais de conversar com dona Orelhana Vidajena, douta sabedora de assuntos gerais da população em geral; o tipo de pessoa que vai à missa e presta mais atenção na plenária que na celebração, já que no padre ela atentava... Essa costumeira prática dos dois, logo de manhazinha, era mais rendosa ao gestor público do que ler “O Pasquim”, único periódico da cidade; de qualquer forma, o jornal era inútil ao prefeito, já que ele não sabia ler...

Através de nossa bem-intencionada conhecedora de assuntos públicos e pitorescos, o “seu” Veriato descobre que chegara a cidade e estava hospedado no “Slum Hotel” – o melhor da cidade e também o único -, o doutor de origem britânica, que aqui viera passar suas férias e que atendia pelo nome de Owen Mohammed. De pronto Nonatalho mandou preparar uma grande festa para acolher o ilustre; mandou que o transferissem para a melhor suíte do “Slum”, que lhe pusessem à disposição uma limusine – que na falta foi o Fiat 147 do prefeito -, tudo isso à custa do erário municipal...

Antes do meio-dia Passa-perto inteira já estava em polvorosa, pedindo autógrafos e fotos do imponente – e um tanto arrogante – doutor Mohammed.

Rico Tranlhambique, dono-diretor do Pasquim, tendo estudado até a oitava série, era o mais apto de seus pares a redigir a notícia sobre o visitante estrangeiro, que ganhou primeira página. Um artigo verdadeiramente glamoroso, tirando-se os erros gravíssimos de ortografia, os exageros e toda a sorte de inverdades e besteiras.

Às cinco horas da tarde do dia seguinte, no “Parvoid’s  Theatry”, estavam todos os habitantes de Passa-perto ansiosos para ouvir as grandes ideias do brilhante Owen.

As principais autoridades da cidade, o padre, a madre, o médico – único do local -, a diretora da escola municipal, o presidente da câmara, o prefeito, os principais intelectuais de Passa-perto, ao todo umas trinta pessoas, já estavam assentadas à mesa principal, deixando a cadeira ao centro para o renomado palestrante.

Depois de meia hora de discurso do prefeito, e mais alguns minutos de comentários das outras autoridades, enfim, toma a palavra o sábio Mohammed.

“- Como sabem, e se não sabem deveriam, eu compus um livro didático que propõem uma nova abordagem, diferente daquela grande besteira ensinada nas escolas “atuais de hoje”; eu resolvi reunir em uma coisa só a ciência, a filosofia, a matemática e todo o resto. Vou ler para vocês um pedacinho, não espero que entendam, mas escutem: “o corpo humano divide-se em cabeça, tronco e membros; (cantando e gesticulando) cabeça, ombro, joelho e pé, joelho e pé (fim da cantoria). Tem gente que não usa a cabeça e o que mais faz é andar por aí sem cabeça, outros o que mais têm é perna, e correm mais que os outros”.

 Percebendo-se de que entravam no prédio alguns policiais e enfermeiros, o palestrante se apressa:

“- Eu fui convidado a dar aulas em Stanford, mas não irei aceitar... Aí eles mandaram me buscar...”.

E nisso começa a fugir. De repente um  dos policiais o domina, enquanto tenta desvencilhar-se, um enfermeiro aplica-lhe uma injeção de sedativos. Apavorado, o prefeito começa a protestar.

Descobre-se então que, o célebre palestrante, o pomposo doutor Owen Mohammed era, na verdade, um tal de Alieny Mimole, um sujeito completamente maluco que conseguira mais uma vez, não se sabe como, fugir do manicômio.

 Não teve outra... O prefeito e toda cidade de Passa-perto viraram motivo de chacota na prensa da capital e nas cidades vizinhas...
(Inspirado na obra de Deonísio da Silva)

Farias, M. S. "Aparentemente...". Março de 2013. http://livredialogo.blogspot.com.br/
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