sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Formas de conhecimento.

Introdução
Ao recordarmos o nascimento da Filosofia, observaremos a preocupação dos primeiros filósofos em compreender o que é o mundo, por que e como as coisas existem, qual a origem da natureza e quais as causas de sua transformação. Esses questionamentos centralizavam-se na questão de “o que são as coisas?”, que com o transcorrer do tempo passou a ser formulada como “o que é o ser?”.  Estes filósofos afirmavam que a “realidade é racional e que podemos conhecê-la, pois também somos racionais; nossa razão é parte da racionalidade do mundo”.

Ao longo da história, diversas teorias e correntes de pensamento foram desenvolvidas para tentar responder a tais questionamentos, nem todos convergindo ao mesmo centro, na verdade, muitos se direcionam em sentidos opostos. O homem primitivo, como ser racional tinha seus questionamentos, a necessidade de explicação sobre os fenômenos da natureza; desprovido de qualquer ciência moderna, ele teve de criar suas contestações a partir de sua imaginação. Desta forma nasce o conhecimento mítico, que mais tarde veio a ser desacreditado pelo conhecimento filosófico e pelo científico, nem por isso ele deixa ser representativo, pois o conhecimento não é divisível, mas um caminho em busca da verdade.

As formas de conhecimento podem ser resumidas como as maneiras que o homem, ao longo de sua história, encontrou para explicar o mundo que o cerca. Neste objeto de estudos abordaremos sobre elas que, a saber, são: (1) conhecimento mítico; (2) teológico; (3) filosófico; (4) científico e (5) conhecimento empírico – também conhecido por vulgar ou do senso-comum.

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As formas de conhecimento
Para que possamos melhor compreender as formas como o conhecimento pode ser classificado, primeiro devemos compreender o que é propriamente o conhecimento e a diferença entre pensar e conhecer.

O conhecimento é formado por hipóteses, descrições, conceitos, teorias, princípios e procedimentos, mas não se circunscreve a isso. O conhecimento é aquilo que assimilamos a partir de alguma informação, assim, podemos dizer que compõem o conhecimento o dado e a informação. Dado é um conjunto de códigos decifráveis ou não. A partir do momento que podemos interpretar os dados, por exemplo, da linguagem, geramos um processo comunicativo que nos permite acesso às informações que eles transmitem e a partir delas gerar algum conhecimento.

O conhecimento pode também ser relacionado a um processo ou a um resultado obtido da aprendizagem surgida através do acúmulo de hipóteses, teorias, conceitos etc. Acontece que todo resultado é inseparável de um processo, portanto, o conhecimento trata-se de um processo de aprender, apreender e compreender, isto é, tomar conhecimento de algo, assimilar mentalmente e entender esse algo, ou seja, ter uma ideia clara, racional.

A definição clássica de conhecimento é originada por Platão e diz que o conhecimento se baseia na crença verdadeira e justificada. Aristóteles o divide em três áreas: científica, prática e técnica.

Mas, o que é conhecer? "Conhecer é elaborar um modelo de realidade" e "projetar ordem onde havia caos" (CYRINO & PENHA, 1992, p. 13).  Para que exista conhecimento, em tal aspecto, segundo o doutor Wilson Correia, fazem-se necessários três elementos: (1º) O sujeito, que é o ser que conhece; (2º) O objeto, aquilo que o sujeito investiga para conhecer; (3º) A imagem mental em forma de opinião, ideia ou conceito que resultam da relação sujeito-objeto e que passa a habitar a subjetividade daquele que conhece. Nesse processo, o ser humano que é “pensante-sentinte-comunicante” formula pensamentos e sentimentos e os transmite por meio da linguagem – falar, escrever, gesticular etc.

Segundo Arendt¹ “a distinção entre as duas faculdades, razão e intelecto, coincide com a distinção entre as duas atividades espirituais completamente di­ferentes: pensar e conhecer; e dois interesses inteiramente distintos: o significado, no pri­meiro caso, e a cognição, no segundo”. O conhecer busca resultados certos e averiguáveis tanto no campo da ciência como do senso-comum; já o pensar não gera resultados concretos, diz respeito ao significado que procuramos naquilo que nos ocorre. De outra maneira, poderíamos dizer que conhecer é possuir uma concepção sólida sobre algo, enquanto que o pensar é uma “estrada infinda”, como por exemplo, “os porquês” que nunca acabam (Por que do por quê? Por quê?...).

Além dos conceitos platônico e aristotélico supracitados, o conhecimento pode ainda ser classificado em pelo menos cinco designações ou categorias as quais veremos a seguir.

Conhecimento empírico: Do momento em que nascemos até o momento de nossa morte passamos pelo processo de produção deste conhecimento o qual se fundamenta na experiência natural da vida. Esta forma de conhecimento, também conhecida por saber da vida, conhecimento do senso-comum ou vulgar, caracteriza-se pela não-sistematicidade, motivo pelo qual não é produzido segundo uma técnica determinada, isto é, de acordo a um modelo de descoberta. Por exemplo, ao tentar abrir a porta de sua casa, o indivíduo percebe que a fechadura está com problema e após algumas tentativas frustradas, descobre uma determinada maneira de girar a chave.

Conhecimento mítico: Como mencionado à introdução, trata-se de uma forma de conhecimento não-lógico, fantasioso, isto é, embasa-se na sensação de que existem modelos naturais e sobrenaturais donde advém o sentido de tudo o que existe; ajudando o ser humano a “esclarecer” o mundo por meio de alegoria; não é produzido através de experimentações científicas, e sim a partir da imaginação humana. Por exemplo, na mitologia grega, o comportamento do mar, isto é, se havia tempestades em alto mar, ondas fortes, escassez de peixes, ou o contrário, era resultado do temperamento de Posseidon, governador dos mares; um dos muitos deuses da mitologia grega.

Conhecimento teológico: Fundamenta-se na fé, ou seja, na adesão ou na aceitação pessoal a Deus e seus desígnios. “É a exposição sistemática que tem por objetivo um credo religioso ou uma divindade. A teologia posiciona-se num campo intelectual, enquanto que as crenças pertencem à esfera emocional”. O conhecimento teológico parte da compreensão e da aceitação de um Deus ou deuses, os quais constituem a razão de ser de todas as coisas. Eles “revelam-se” aos humanos e lhes transmitem suas verdades marcadamente incontestáveis, assim, não é necessário à razão compreendê-las, e sim aceitá-las, são leis absolutas.  O teólogo busca continuamente racionalizar a fé, que é algo de essência místico-emotiva. A Teologia cristã, de todas as existentes hoje, é a mais bem organizada, pois utilizou-se da Filosofia grega para arquitetar seu racionalismo. O auge da Teologia foi sob o título de Teologia Escolástica (corpo de doutrina racionalizado), da qual São Tomás de Aquino foi o maior representante. Por exemplo, dentro do Cristiano, Jesus Cristo e seus ensinamentos são o centro da vida, da verdade, pois é Ele “Filho Unigênito de Deus [...] Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. [...] Por ele todas as coisas foram feitas. [...]”. (Excertos do Símbolo Niceno-constantinopolitano da Santa Igreja Católica Apostólica Romana).

Conhecimento filosófico: Trata-se de um conhecimento racional, isto é, argumentado, debatido e compreendido que busca saber a índole e as conjecturas do pensamento humano, partindo de determinadas normativas de lógica do pensamento, dando sentido a discussão e viabilizando atingir-se desenlaces compreensíveis que possam ser aceitos e respeitados pelos restantes. Assenta-se na investigação, na elucubração em volta do que é real, objetivando a busca da verdade. É sistemático, porém, não é experimental; vai ao princípio do objeto, sendo produto da precisão lógica que exige a razão de um conhecimento que se pretende como verdade. É um conhecimento ativo, por que coloca o ser em busca de réplica para as questões que ele próprio é passível de formular. Por exemplo, em um debate, ambas as partes expõem seus argumentos com lógica, frutos de pesquisas e reflexões pessoais; ao término pode-se não haver um ganhador, e sim uma conclusão racional, fruto das exposições e lucubrações dos componentes que atende como resposta verdadeira, aceita e compreendida ao questionamento que originou a discussão.

Conhecimento científico: Análogo a classificação prévia, esta forma do conhecimento é também racional, gerado a partir do exame da realidade, por meio de experimentos ou por meio da averiguação da compreensão lógica de fatos, fenômenos, enfim, o que se passa na existência cósmica, humana e da natureza. É uma forma de conhecimento produzido metodicamente, que se alicerça na experimentação, validação e comprovação daquilo que se pretende a verdade. Por meio dos princípios que obtém, possibilita ao homem desenvolver ferramentas as quais lhe permite alterar a realidade para melhor ou pior. Exemplo: através do estudo do vírus H1N1 pode-se desenvolver um medicamento para combatê-lo, mas antes que este chagasse ao mercado foi testado para garantir não apenas sua eficácia contra o vírus citado como também eliminar riscos de possíveis reações nocivas ao organismo humano.

Considerações Finais
Ao longo de sua História, o ser humano preocupou-se em encontrar respostas a seus questionamentos, em explicar o mundo a sua volta. Com a evolução do pensamento humano novos conhecimentos, mais aprofundados e racionais foram se originando, invalidando muitas vezes as arcaicas teorias. Como dito à introdução, surgiram também teorias, correntes de pensamento opostos, como a velha concepção de que “religião e ciência são inimigas”, ora, temos aí duas formas de conhecimento: teológico e científico e bem vimos que, embora baseado na fé e não na razão propriamente, o conhecimento teológico escolástico, além de pregar a verdade divina, busca racionalizar a fé e o científico busca com base na razão a experimentação, comprovação e validação da verdade. Outro conceito equivocado é com relação ao conhecimento filosófico que para muito parece sem sentido, sendo não raro questionada a utilidade da Filosofia, no entanto, verdade, pensamento racional, procedimentos para conhecer fatos, aplicação prática de teorias, correção e acúmulo de saberes, muito mais que intentos da ciência – da qual o mérito nunca é questionado por apresentar sempre resultados tangíveis e práticos – são propósitos filosóficos. O que pretendo ao apresentar estas questões é demonstrar que o conhecimento é único, as divisões/classificações que lhe atribuímos existem unicamente em um ambiente acadêmico. O conhecimento não é apenas resultado de um processo, mas sim fruto da atividade intelectual que compreende todo o processo e seus resultados, é ele um meio termo entre a crença e a verdade.

O conhecimento propriamente não pode ser transmitido, o que podemos legar, são informações, através das quais o indivíduo pode gerar algum conhecimento. A leitura, por exemplo, pode acrescentar conhecimentos desde que o individuo devidamente alfabetizado seja capaz de interpretar os símbolos da linguagem (os dados) na qual o texto (a informação) está escrito assim como seu significado e a partir daí produzir algum conhecimento acerca do que trata o escrito.

Por exigência da professora, dever-se-ia, na conclusão, eleger umas das classificações do conhecimento que fosse considerada “mais importante” e argumentar sobre ela, todavia, é quase impossível dizer que determinada forma de conhecimento é mais ou menos relevante que outra, uma vez que todas elas estejam interligadas de alguma forma, pois o conhecimento em si é uno. O conhecimento cientifico necessita do filosófico para existir, o filosófico, de alguma maneira se embasa no teológico e segundo os autores Philip Gardiner e Gary Osborn em “O priorado secreto”, as crenças religiosas (compreendidas na Teologia) originam-se no conhecimento mítico e, em cada um e em todas estas formas de conhecimento citadas, está presente o conhecimento empírico. O que se pode destacar e que observa-se ao longo do estudo é que o homem é capaz de produzir variegados modelos de informação, conhecimento e saberes por que é um ser pensante, capaz de questionar, raciocinar, julgar, avaliar e através disso agir no mundo. Através das relações que ele estabelece, da vivência no mundo é capaz de construir representações desse.

Não obstante, para atender à exigência da docente elegeria o conhecimento filosófico, talvez por parecer que nele haja mais equilíbrio no uso do pensar e do conhecer. Atualmente, nosso sistema educacional trabalha predominantemente o conhecer, não somos instruídos a desenvolver o nosso pensar, mas sim a conhecer teorias, fórmulas e leis, a resolver problemas e não criá-los; há a preocupação por parte do sistema na transmissão do saber, de que adquiramos competências, mas muito pouca ou nenhuma voltada à compreensão do mundo. Os conhecimentos possuem utilidades gerais, mas são limitados com relação a atribuir significado à nossa relação com o mundo. O pensamento por outro lado, busca quase que especificamente esse significado por meio da reflexão sobre as experiências, sobre nossas ações.
Por fim, só resta reiterar que nenhum conhecimento é melhor do que o outro, mas que são complementares uns aos outros, afinal, como seres “bio-psico-socais”“pensantes-sentintes-comunicantes” precisamos deles para compreendermo-nos e viver, para prosseguir a busca da verdade que tanto ansiaram e procuraram os antigos filósofos gregos.



 1. Hannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX.


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Referências
Chauí, Marilena. Iniciação à Filosofia. 1ª Ed. São Paulo: Ática, 2010. 376 p.

Gardiner, Philip. Osborn, Gary. O priorado secreto: os mistérios da sociedade secreta mais poderosa do mundo finalmente revelados. -. São Paulo: Pensamento, 2008. 302 p. Tradução: Euclides Luiz Calloni, Cleusa Margô Wosgrau.

Diocese de Pelotas, 2007. Liturgia da Celebração Eucarística. 252 p.

Teologia e Teólogo: in: Benton, William. Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro; São Paulo: Encyclopedia Britannica Editores LTDA. 1964-1969; p.

Franchini, A. S. Segranfredo, Carmen. As 100 melhores histórias da mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição Greco-romana. 9ª Ed. Porto Alegre: L&PM, 2007. 464 p.

Correia, Wilson. Os diversos tipos de conhecimento. -. 3 p.

Almeida, Vanessa Sievers de. A distinção entre conhecer e pensar em Hannah Arendt e sua relevância para a educação. 2009. 13 p.

http://ocanto.esenviseu.net/apoio/ciencia1.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Conhecimento
http://monasthelos.blogspot.com.br/2010/01/pensar-e-conhecer-sobre-escritos-de.html
http://www.infoescola.com/filosofia/conhecimento-cientifico-e-cotidiano/
http://www.coladaweb.com/filosofia/conhecimento-cientifico
http://www.grupoescolar.com/pesquisa/conhecimento-filosofico.html
http://www.trabalhosescolares.net/viewtopic. php?t=1003
http://www.infoescola.com/filosofia/tipos-de-conhecimento/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Senso_comum
http://www.mundoeducacao.com.br/filosofia/senso-comum.htm
http://pt.shvoong.com/social-sciences/1690076-senso-comum-vs-conhecimento-cíentifico/
http://www.coladaweb.com/filosofia/conhecimento-cientifico-e-senso-comum
http://enricalombardii.blogspot.com.br/2010/08/conhecimento-mitico.html
http://paulosociofilo.blogspot.com.br/2011/05/aula-de-filosofia-conhecimento-mitico.html

Farias, M. S. "Formas de conhecimento". Agosto de 2012. http://livredialogo.blogspot.com.br
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5 comentários:

  1. Olá
    Postagem divulgada no Portal Teia
    Até mais

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  2. Mateus, parabéns pelo texto.Sugiro, apenas como contribuição, que, com o tempo,dê uma pesquisada sobre "Teoria do Conhecimento", onde tu vais se deparar com os questionamentos fundamentais sobre o conhecimento, como, p. ex: 1) o que vem antes, a consciência ou a realidade? É possível conhecer? O que dá autenticidade a um conhecimento? Se quiseres, no sentido de avançar ainda mais no teu belo texto, posso te sugerir alguma obra.
    Abraço!
    Paulo

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  3. Adorei !!!! :)))

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  4. - Cara agora sim meu trabalho vai ficar top! :D

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